MATIZ DAS ARMADILHAS – Luci Collin

MATIZ DAS ARMADILHAS

Luci Collin*

 

1. BEM PRA BAIXO

A verdade: tudo enfadonho, insípido e fastidioso, embora ele não conhecesse esses adjetivos.

Anda cansado daquela lengalenga, ficar ali do lado da Juceneide naquele sofá desmilinguento a tarde toda e um pedaço da noite sem nada pra fazer a não ser olhar pra televisão. Os carinha tocando um roquinho sertanejo falido e umas guria de sainha lá no fundo as pernona dançando tudo igual com aquele sorriso bem igualzinho, a mulher mostrando que o marido deu um tabefe no olho dela por conta de uma prestação da geladeira que atrasou e nem era bem marido era só pai do filho e aí sorteio do carro e foi uma professora que levou tem gente sortuda e o polícia se metidando com umas palavra difícil pra contar que moeu a bichinha porque ela tinha tentado roubar um quê mesmo? propaganda de um remédio caro pra caramba que deixou uma gordacha fininha sem nem cirurgia nem exercício (pensa que acreditei?) e aí o resumo da vida do gostosão da novela com foto dele de pequeno andando numa bicicletinha e choradeira e a mãe dele falando que ele era um filho perfeito e pena que o pai já tinha morrido dinfarte que nem viu o sucesso e quando for passar os gols do campeonato a Juce vai mudar de canal. Ôrra domingo é sempre a mesma chatice. Aí, mudou de canal!

– Ô amor, deixa nos gol, vá.

– Ai, Aílson, quero ver o finzinho do filme. É sobre o Rei Salomão. O pastor vive falando. Eu acho linda a história. Conhece?

– Num lembro. Acho que lembro. Mais ou menos.

– Prestasse atenção nos programa você aprendia! Cada coisa bacana. Tô seca pra ver onde que o Rei morava; acho o máximo tipo castelo. Tem entrevista. Dão dica. Comentário político bem explicadinho. Fica cochilando, parece uma plasta!

– Ah, desliga a tv, vamo conversar. Calor desgraçado aqui! Vamo dá uma volta? Comer um dogue no Zezão?

– Espera, olha o que que o Rei disse pro chefe da tribo. Que dogue! Não gosto de comer essas porcaria que me revolta o estômago pra uma semana. Eles ia sacrificar uma ovelha. Olha que jeito mais bonito que eles falava lá antigamente. Tudo floreado.

Ele não é um sujeito dado a reflexões, a cogitações profundas, a elucubrações, mas hoje a coisa está pipocando.

Subesse que ia ser assim não tinha entrado nessa furada de noivado. Antes ela até que deixava dar uns amasso, era carinhosinha. Agora pra tudo ela solta um Só depois do casamento! Vai quatro ônibus pra vir aqui fim de semana. E nem uma encostadinha ela consente. Tira a mão daí! Olha o respeito! Fica pregada nos programa. E a maionese hoje tava bem sem sal. Coiso mais sem graça esse tal de noivado.

– Tô indo.

– Ai, amor, espera o final do filme, pelo menos.

– Amanhã acordo cedo.

– Ergue a mão pro céu que tem emprego, criatura! Olha que coisa mais linda o manto que presentiaro o Rei! Me liga amanhã, então. Manto encarnado, eles dizia. Tem o aniversário da Daiane, na quarta. Ela tá poderosa agora que passou pra supervisora! Cuida de bater bem o portãozinho pro Lico não escapar.

Um beijo chocho.

Nem falou nada de janta.

Ônibus no domingo demora o dobro pra vir. Melhor andar até o terminal. Tem mais gente. Vou pegar essa ruinha que corta metade do caminho. Fumar esse avulso da banquinha. Encosta-se na parede. A Juceneide anda tão chata. Não pode isso! Não quero! Será que muda quando casar? Rua com cheiro de mijo. Deve de ser barra morar aqui. Acho que nem passa gente. Ôoo, passa sim. Que esquisitão que vem vindo!

–        Empresta o fogo?

–        Claro! (cara mais estranha, branquelo, olho vermelho, com esses dentão e essas orelhona deve de ganhar uma grana na Páscoa. Não, isso aí assusta a criançada!)

–        É do bairro?

–        Sou não. Só visitar. Noiva. (Puxando papo, o dentuço!)

–        Tô esperando a mina.

–        Ah, tá. (Quem perguntou? Folgado!). Tô indo pegar o Esplanada.

–        Espera. É jogo rápido com a guria. Vou com você. Ói ela aí. Trouxe? Deixa ver.

É periguete, cruzcredo, vestidinho colado e essas bota verdona! Putchavida, tá passando bagulho. Agora não posso sair senão o cara encrespa. E o esquisitão foi pra cima da moça como se eu nem estivesse aqui. Comendo a vadia contra a parede! Nojento, meu. Tapa na bisteca. Umas doze fincada e deu. Parece coelho! Ôrra, se a Juceneide fosse metade de assim! E a guria saiu numa boa. Que doidice!

–        Vamo, bródi. Tô muito atrasado! Atrasado pra caralho!

–        Vamo. (Tirou do bolso do colete um relógio daqueles de correntinha! Meu, nunca tinha visto isso de verdade. Só em filme.) O ponto é pra lá.

–        Ponto? Ah, tô de carro. Vem junto.

Nada pra fazer. E a baita curiosidade: entrou no Maverick detonado (cheiro de vômito, cheiro de pinho-sol) e andaram muito. Ladeira pra baixo. Curva. Mais ladeira. Descidão dos inferno. E outra. Pra que buraco esse sujeito tá indo? Aqui tá que é um breu. Não falou uma palavrinha. Acompanha as música do som tudo em inglês. Deve de ser estudado, esse sujeito. Tem um revólver no chão do carro. Bati com o pé. Como que eu vou fazer pra voltar?

 

I. ELEVAÇÃO

Domingos são especialíssimos! Dr. Carlos Luís é tomado por um grande contentamento ao acordar e pensar que terá um dia todo para dedicar-se às suas fotografias. Sem as atribulações usuais da prática da medicina. Sem encargos nem compromissos outros que não sejam revelar aquelas imagens preciosas que lhe trazem tão grande prazer.

A toalete matinal. A série de exercícios físicos. O frugal, porém balanceado desjejum. A leitura atenta do semanário local: atos recentes do prefeito da cidadezinha; notícias sobre o que se passa na sociedade; obituário; a excelente coluna do Prof. Heliodoro Nazareno. A rega da coroa-de-frade (Melocactus zehntneri). A abertura das venezianas para que entre um pouco de luz na sala de visitas. O sol tem poder higienizante! Tudo na mesma ordem desde sempre. Há que se seguir com rigor os atos cotidianos para que não nos desviem das atividades importantes. Para que jamais se desperdice tempo com superficialidades. Para que se possa desfrutar o que de fato dá sentido às nossas vidas. A regra. A disciplina. Sim, é um homem de grandes princípios.

A revelação fotográfica é comovente. É um processo químico que faz com que o registro de uma imagem apenas latente se transforme em imagem clara e tangível. Amadurecimento de toda a emoção que esteve condensada no disparo. A possibilidade de se recuperar o estremecimento, a beleza do instante. Constitui-se de várias etapas. Usa-se, por primeiro, o revelador, uma solução alcalina produto da combinação entre metol e hidroquinona; por meio de uma reação de óxido-redução o revelador transforma os haletos de prata do filme fotográfico em prata metálica. Há mais de trinta anos observo esses agentes. Dá-se, então, através do uso de uma solução ácida, o cessar da revelação. Lembra-se, de súbito, de um momento amargo de sua vida: quando deixou o revelador agindo por mais tempo do que o correto e as fotos ficaram totalmente escuras. Todas as poses perdidas! Trabalho de semanas. A emoção devastadoramente irrecuperável! Essas soluções interruptoras são compostas de ácido acético glacial ou ácido cítrico. Bem, sua distração naquele momento era justificável. Relembra que por aqueles dias andava transtornado pela notícia da piora do estado de saúde de sua mãe. Entre as complicações do diabetes estava a possível amputação de uma perna, fato que felizmente acabou não ocorrendo, graças à habilidade excepcional do Dr. Laudelino Meira.

E na sequência temos a fixação, etapa em que se retira da emulsão os cristais de prata não transformados em prata metálica. Caso sobrem resíduos de haletos de prata, estes podem, com o passar do tempo, se decompor, manchando a foto. O fixador tem por base o tiossulfato de sódio, que reage com os cristais de prata tornando-os solúveis em água. O passamento de mamãe deu-se pela rotura de um aneurisma; algo inevitável. Ocorre, quase por fim, um passo importantíssimo para se garantir a durabilidade e a qualidade da foto: a lavagem com água corrente, por alguns minutos, quando são retirados os resíduos químicos e permanece só a imagem da prata metálica; esse processo se dá por uma difusão em que os sais, buscando o equilíbrio químico, migram do meio saturado para o meio insaturado (no caso, a água). Uma beleza. Mamãe tinha até uma espécie de ciúmes do meu hobby! Você passa tempo demasiado com suas fotografias, Carlos Luis! Estes produtos químicos podem, ao longo dos anos, lhe fazer mal! Ora, mamãe não podia prever o encanto que emana de todos esse trabalho que, embora seja um empenho diretamente ligado à minha atividade profissional, me permite reter elementos, detalhes, informações valiosíssimas para minha atuação e contribuição no exercício da medicina. Um casamento entre Arte e Ciência!

Por fim, a secagem. Deixo que as fotos sequem naturalmente. Nunca usei tecidos nem papéis absorventes; o máximo que tenho é o sistema de calefação que mantém a temperatura ambiente em pouco mais de 35 graus. Sim, é bastante abafado; por esse motivo, quando estou na câmara escura costumo trajar apenas um calção de banho, de tecido bem leve, para que possa me sentir completamente à vontade.

O almoço prático e nutritivo com as verduras que a Dona Deuzuíta deixa higienizadas. A tarde inteira para seleção e catalogação das fotos. Um pouco de música na vitrola. Belíssimo esse Concerto para violoncelo em Lá maior de Boccherini! Um chá de hibisco ao cair da tarde. Momentos de descanso na penumbra.

Hoje foi um dia memorável. Olhando essas fotos, cada pormenor, cada pose me enternece. A beleza da figura humana. Os delicados e variados traços dos rostos. A expressão de vivacidade nos olhares. O modo de pousar a mão sobre os joelhos. O formato de um queixo. Ah, a fidalguia deste tórax! Não compreenderiam, naturalmente. Não, jamais esperei que compreendessem isso.

 

2.

 

Chegam. Lugar degradante, deletério, abjeto, nauseabundo. Fundo de poço.

Uma espelunca dos diabo! Nem placa tem. Que será? Parece uma toca. Entramo numa entradinha e ficamo esperando. Escuro. Depois daquela salinha tinha tipo dum corredorzão com uma porta grandona no fim, mas não era qualquer um que passava pra lá.  Um careca com uma tatuagem na testa perguntou Trouxe? e o cara que eu vim junto – o nome dele era Casimiro; a única coisa que ele me falou no carro – fez sim com a cabeça e foi entrando lá pra dentro. Gritei pra ele:

– E eu?

– Te vira, mané!

Fiquei ali plantado. Lugar mais estranho. Fumaceira. Tinha uns três cara de pé bebendo e duas guria sentada no colo de mais dois num sofá. Música bem alta que parece sempre a mesma coisa. Um calendário pendurado um vaso com flor de plástico um balcão com um monte de garrafa vazia uma pilha de pneu num canto um pebolim tudo arrebentado um monte de vassoura velha e balde. Não dá pra enxergar direito. Melhor fazer uma cara de valente que se os maluco invoca comigo eu tô ferrado. Queria que a Juceneide me visse agora – Deixa no canal que tá passando os gol, porra! Ah, eu é que nunca vou contar nada pra Juceneide. Os cara estão muito chapado! De ponta cabeça. Será que eu devia perguntar que lugar que é ali? Não, vai que eles se ofende. Tô pensando atrapalhado. Meio zonzo. É deste lugar, que nem dá pra respirar direito aqui dentro.

O magrelo de óculos me passou uma garrafa. Não tô a fim de beber neste gargalo tudo babado por boca dos outro, mas se eu rejeito vou levar uma bifa. Dei um trago. Devolvi a garrafa. O cara pôs na minha mão de novo. Dei outro. Um golão. Coisa mais ruim! Aí passou a erva. Eu nunca fumei esse troço. Tô é fudido! Dou uma puxada. Não vai dar pra enganar – fumo aquele troço. Tô sentindo esquisito. As perna bambeia. Com sono. Falei umas bobage, mas eles só me olharam.  Uma mulher vem pra cima de mim. Mocreia. Falta dente nela. Não dá pra ver bem. Ela me puxa pra perto dos pneu. Eu tropeço. O magrelo me traz um copo com um negócio verde e fala Vira, capiauzinho! Se eu achasse onde que tá a minha mão direita eu metia um supapo naquele sujeito, capiauzinho é tua vó fiadaputa! Viro o negócio verde. A piranha tá abrindo o zíper da minha calça e eu tô com a boca numa coisa macia que nem sei que que é. Mas é bom. O Casimiro aparece no fim do corredor e chama Aílson! Vou tropeçando até ele. Olha no relógio de correntinha, diz Tá ficando tarde pra caralho, me deixa com uma chave na mão e some de novo. Eu olho em volta e vejo uma porta. Tento abrir mas a chave parece muito pequena ou a fechadura que é grande?  Tento de novo. Abro. Do outro lado tem um salão bacana, com música e um monte de gente mas como que eu faço pra mexer os pé até lá? Tô caído na soleira. Minha cabeça tá enorme e não vai passar pela porta. A puta me traz uma garrafinha, dá uma gargalhada e a garrafinha me diz Bebe. Será que é veneno? Era bom. A cabeça voltou pro tamanho normal e eu consigo passar pela porta.

Vejo o Casimiro num canto do salão e ele tá usando umas luva preta. Ele não me reconhece e eu acho que eu não sou mais eu. Será que eu virei outro eu? Peraí: hoje de manhã eu era eu e então agora se eu me lembro de mim como que eu era eu continuo eu mesmo. Tudo tranquilo. Como que eu tô com essas luvas na mão se elas estavam no outro cara? Tô me sentindo uma mosca neste salão. Ah, é só sair dali, pegar um ônibus pro centro e outro pra casa que dá tudo certo. Amanhã cedo tô no trabalho. Susse. Anda com grande determinação. Chega só até o banheiro. Entra. Fala alto: Minha graça é Aílson, muito prazer. Um monte de gente sinistra. Escuta cada um dizendo o nome: prazer, Dodô, prazer, Pato, prazer, Arara. Nunca tive tanto amigo. Eles estavam cheirando pó. Cheirei. Não lembro mais dos nomes nem da cara de ninguém. Ah, lembro de um que parecia um filhote de águia.

 

II.

 

A grande alegria da vida da Deuzuíta era aquele emprego na casa do Dr. Carlos Luís. Maior médico da cidade, tudo mundo reconhece. Ele é pe-dia-tra que fala, dedica pra caso de criança, desde bem pequena, de nenê mesmo até começo de ficar mocinho. E ele conta comigo pra tudo aqui na casa, eu que faço as compra – ele deixa o dinheiro bem certinho –  desde produto de limpeza até as comida, eu que cuido das plantinha e até do jardim eu que sou responsável de chamar o Seu Nicolato quando tem precisão de cortar a grama e podar as árvore em roda da casa. Faço o pão caseiro que ele gosta com bem pouca banha e deixo a janta preparada pra ele, bemdizê tudo dia, e nos fim de semana deixo tudo limpinho e cortado na geladeira pra ele só refogá. E arroz deixo pronto. Ele gosta daquele mais escuro. Às vezes ele escreve um bilhete pedindo uma sopinha. Mas deusulivre de botar macarrão que ele acha que fica com gosto azedo. É um amor de patrão. Quando a Nereide foi ter nenê ele me dispensou três dia e se virou sozinho com comida e roupa. No velório da mãe quando nós viu chegou uma coroa de flor coisa mais fina e ele que tinha mandado com o nome dela bem certinho e uns dizer de palavra num dourado. E no Natal sempre libera uma gorjetinha bem boa de presente e dá pra comprar muita coisa da Santa Ceia lá em casa que a gente gosta de reunir o povo e assa peru com recheio dentro e panetone. Eu vejo ele pouco porque ele levanta cedo pra ir lá pro Seminário dos Irmão e trabalha rente. Volta de noitinha. É custoso de chegar lá, tem que pegar o trecho de estradinha e quando chove é só lama aquilo. Ele dirige o mesmo carrinho faz desde que conheço ele muitos ano! Mas ele é louco pelo serviço, nem nunca vi dizer que ele faltou lá. Nem uma dor de cabeça nunca vi dizer que ele teve nem que engripou. E a falecida mãe, que trabalhou lá por 17 ano na cozinha, contava que ele atendia tudo os menino, mesmo pobrinho – que lá tem muito órfão deixado, sem eira nem beira, que chega tudo firidento –  ele atendia com o maior gosto, tratava eles, não deixava espalhar piolho, ensinava tudo que moleque precisa de saber da saúde, cuidar dos dente e unha e tomar banho. Depois que eles fica mocinho o doutor tem que preparar eles pra vida lá fora quando eles sai, porque não é tudo deles que segue definitivo pra ser padre. Ele faz como fosse o pai dos menino, tem que contar as coisa de doença que pega – que hoje em dia a coisa tá feia – pra eles ficar esperto pro mundo. Pena que ele nunca se casou porque ia dar um paizinho bem perfeito! Não como o Belisário. Mas é difícil ele encontrar uma mulherzinha que se quadre com ele porque ele dedica demais na profissão. E se ele botasse esposa aqui eu inda perdia o meu lugarzinho! A Rosário falou que eu sou prevalecida só porque trabalho pro médico importante da cidade. Sou nada! Só faço questã de zelar no serviço, bem caprichadinho, não quero que o doutor decepciona comigo, e faz quantos ano que eu tô aqui! Tenho, claro que tenho no fundo uma soberbinha, mas é pouca. Quando eu cheguei, lembro bem igual que fosse hoje, ele me mostrou cada coisinha da casa, o jeito que ele queria que eu passasse e dobrasse as roupa, onde que guardava, como que lavava em separado os avental dele com lisoforme, que ele gosta que eu deixe pra quarar, como que ele queria os tempero, não pode com muito sal nem com gordura, e depois me mostrou a casa toda, cada gaveta ele abriu pra explicar o que que guardava e depois abriu um quarto que ele chamou de nãoseioquê escura e disse: Para que a senhora não fique com curiosidade a respeito de um aposento sempre trancado, vou lhe mostrar o que há aqui dentro. É um quarto com janela tapada, bem escuro tem que ser, cheio dos equipamento e uns líquido fidido e coiso de fotografia que ele mesmo faz por distração nos fim de semana. Ali nunca precisa entrar nem limpar que é ele que cuida e eu nem nunca entrei. Jesusamado, tem uma montanheira de caixa de foto ali dentro, tudo guardadinho com nome e data bem ajeitadinho. O Dr. Carlos Luís é muito caprichoso com as coisa dele. Tem precisão nenhuma de botar esposa aqui dentro.

 

3.

 

Tudo gente fina! O Rato é o mais maneiro. Ele perguntou: Bala ou doce? A guria que tava do meu lado (tinha uns peitão acho que silicone) gritou doce e ele deu um papelzinho pra ela que ela grudou na língua. Eu disse bala e era compridinha. Era silicone a guria mas era bom. Minha cabeça tá rodando mais ainda e eu tô corajoso vou sair daqui e vou até a Juceneide dizer umas verdade bem ditinha que se ela fica fazendo cudoce comigo eu arranjo outra bem fácil aqui tá cheio! O povo aqui tão fazendo uma zona. Gritaria. O Rato tá tentando contar uma história mas nunca termina. Saiu tudo mundo eu fiquei sozinho e comecei a chorar. Não tô atinando direito as coisa. O Casimiro apareceu nervoso procurando um troço feito desesperado. Falou pra mim: Levanta capiauzinho e me ajuda a achar as luva! Eu não lembro que que é luva. Minha mão tá tão grandona! O Casimiro tá esquisito com a cara azul com a bocona que se mexe e os dentão pula lá de dentro e agora tô vendo um braço solto que deve ser dele que o meu tá bem aqui acho que é esse que tem um lagarto bem em cima. Tô um pouco confuso, melhor me apoiar nesta margarida que tá latindo e abanando o rabo. Fumei um narguilé com um traveco que perguntou Quem é você? Tô mudo. Ele:  Fica calmo. Traveco das filosofia.  Desci da tartaruga falsa onde que eu tava. Vi uma pomba gigante. Virei uma cobra. Um maluco com roupa chique de olho esbugalhado tipo de sapo falava com outro com cara de peixe convidou ele pra jogar uma sinuca. Barulho de louça quebrando. Fumaça. Comecei a espirrar pra caramba. Vi um gato rindo. Uma mulher de cabelo vermelho bradou: Te mete com a tua vida, seu escroto, ou vão cortar tua cabeça!   Deixaram um nenê chorando no meu colo. Coloquei o porquinho no chão e ele saiu trotando pelo meio das árvores. Perguntei pra uma boca avulsa como que eu fazia pra sair dali. Um maluco com chapeuzão me perguntou: Quer tomar um chá de cogumelo?  Um vinho? Olhei em roda e não vi vinho nenhum ali. Seu cabelo está precisando de um corte! Não sei quem falou isso. Vi um corvo bem igual a uma escrivaninha. Mas a manteiga era da melhor qualidade. Tomei o chá. Vê lagostas dançando, mas não sabe que são lagostas. Acordaram o esquilo e ele confessou que tinha três guria dentro do poço comendo melado. Quero sair daqui. Entro numa porta que dá pra uma árvore. Entro na árvore. Dá numa parede pichada e uns caras emporcalhado de tinta branca estão cobrindo o muro. Um deles me explica: O Rainha não gostou! Tamo pintando pra evitar treta. O Rainha é o chefe. O Rainha é um chefe bastante irritadiço, inflexível, hostil, colérico, belicoso – adjetivos desconhecidos mas atitudes atestáveis pela maioria dos seus súditos. Ele chega e convida Aílson pra jogar pôquer. Coloca um maço de dólares na mesa. Aílson tira a correntinha do pescoço e coloca na mesa. Dão as cartas.

Sequência do Aílson:  Às Rei Dama Valete e 10. É, todas do mesmo naipe. É, uma sequência real. É, tecnicamente o Aílson está pra embolsar os dólares. É, não tem como o Rainha estar gostando dessa história. Fez as cartas voarem  pra cima do capiauzinho. Depois disso ninguém sabe o que ele pretende fazer.

 

III.

 

Décadas fazendo o criterioso registro fotográfico dos meninos, muitos deles praticamente desde que nasceram, atentando com o máximo cuidado para seu correto desenvolvimento, tanto físico como moral. Quantas fotografias terá ali? Centenas, milhares. Toda uma vida ligada à beleza. Que prazer sempre teve em admirar aquelas criaturinhas tão belas. Um verdadeiro êxtase poder se dedicar, se entregar integralmente à adoração daquelas figuras. Dona Deuzuíta chegará para o trabalho apenas dali a três horas. Tudo cronometrado. A derradeira olhada nas fotos daquele que, entre centenas de meninos, foi seu favorito. Pronuncia o nome: Aílson.

Abre a boca e dispara a arma.

 

 

∞∞∞∞∞

 

Ah, irmã Rosena, grata demais da senhora ter vindo aqui no hospital logo que o pastor contou do meu noivo. Pois é, recolheram, uma viatura achou ele jogado num terreno baldio lá pras banda de Uvaranas! Não sei, ninguém sabe como que foi parar lá. Ele saiu lá de casa no domingo e não apareceu no trabalho na segunda. Moço bom. Agora tá tudo quebrado, costela, braço tudo moído até esse ossão aqui do queixo, sabe, ele nem mexe vai ter que esperar muito até curar bem pra nós saber de como que foi o acontecido. Antes disso nem falar ele pode. Ladrão, tão desconfiando, por maldade dele não ter nada de valor. Levaram a correntinha. Mas os documento nem relaram. Bonzinho de tudo. Do interior, sem vício, sabe como é. Educado num seminário, a irmã imagina! É ele ficar bom que nós logo casa.

Tô quebrado mas não tô surdo, Dona Juceneide. Nós casa coisa nenhuma! Depois daquele silicone todo não dá pra voltar pra ovo frito.

 

(Em 2015; ao Senhor Lewis C. e sua garotinha que ora completa 150 anos)

 

*Professura da UFPR, escritora, tradutora e pianista.