“O Corvo” para o dialeto manezinho da ilha de Santa Catarina – Taís Veeck

“O Corvo” para o dialeto manezinho da ilha de Santa Catarina

Taís Veeck*

 

O escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) é considerado um dos mestres da literatura gótica mundial. Inovou o gênero, com textos de temática sombria, buscando sempre, ou ao menos em grande parte, dar especial ênfase para o mistério e a morte. Publicado em janeiro de 1845 no jornal Evening Mirror, “O Corvo” é um poema que narra o sofrimento de um homem pela perda da mulher amada. Devido ao seu grande sucesso, foi traduzido para diferentes línguas, sendo as mais conhecidas traduções ao português de autoria de dois ícones da literatura ocidental: Machado de Assis e Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa realizou uma tradução bastante fiel ao poema original, ao passo que Machado de Assis, como transgressor que foi e, no seu provável intuito de valorizar a identidade nacional brasileira, realizou antes uma recriação do que uma tradução que buscasse a correspondência total ao texto de partida.

Outras traduções também se empenharam em aproximar o poema ao público leitor brasileiro, como no caso do poeta nordestino José Lira, que traduziu “O Corvo” em forma de cordel, buscando com isso a popularização da obra.

Porém, nenhuma tradução creio haver sido tão transgressora e domesticado o texto de partida sem, no entanto, tornar o trabalho do leitor “fácil” como no caso da realizada pelo pesquisador Alison Silveira Morais, da Universidade Federal de Santa Catarina. Em sua tradução, Alison nos brinda com uma recriação do Poema de Poe, adaptado ao dialeto manezinho da ilha de Santa Catarina. Tal dialeto é fruto das raízes açorianas da população de Florianópolis e arredores, e quem vem de fora sabe exatamente a difícil empreitada que é aprender um pouco e, assim, começar a compreender essa variação linguística do português.

Porém, a recriação do poema enquanto tradução para o dialeto manezinho nos traz novo ânimo para lançar o olhar outra vez sobre tão renomada obra e compreender que, assim como Machado de Assis, o tradutor aqui vai além de transpor simples palavras, mas se propõe a realizar um trabalho muito mais desafiador, quando produz um texto dotado de vida própria, como podemos perceber nos seguintes versos:

“Como se gente fosse, si empandorgô-se porta acima/Si apolerô-se em cima da istatula da Nóssinhóra de Aparecida/Em cima do batente./E ficô lá parado e nada máx”. (“But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door/Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door/Perched, and sat, and nothing more”).

Todo esse trabalho de interpretar, teorizar e recriar eleva o tradutor a um patamar diferenciado, tornando-o coautor do texto, além de dar voz à cultura de chegada e quebrar padrões de subserviência ao texto de partida.

Ao brincar com palavras tão características da cultura catarinense, o tradutor instiga o leitor a buscar novos conhecimentos e, ao mesmo tempo, dá ao poema um tom divertido e leve, o que, a meu ver, aumenta o prazer da leitura e aproxima o público de uma obra consagrada, ícone do romantismo do século XIX.

 

*Mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução (UFSC)