O CONTRATO (Síntese Teatral) – F. T. Marinetti – Tradução de Dirce Waltrick do Amarante

O CONTRATO

(Síntese Teatral)

 F. T. Marinetti*

Tradução:

Dirce Waltrick do Amarante

 

Quarto de dormir. Penumbra. Se entrevê um leito branco onde o Sr. Paul Dami agoniza.

O amigo (entra e se dirige à camareira): Paul está morrendo; então não há mais esperança …

A camareira: um fio de esperança. A bala atravessou o pulmão.

O amigo: Mas me diz …  Foi mesmo por … essa mulher, que ele se matou?

A camareira: Mas não … Sr. Paul se matou por causa do apartamento. Explico melhor o enigma. O senhor sabe que ele adorava este apartamento. Ultimamente, ele pedia para o proprietário abrir uma janela para rua. Para o grande cortejo … Esse cretino se recusou. Há três dias, o Sr. Paul apareceu por acaso quando o proprietário estava em negociação com um novo inquilino. A ideia de perder este apartamento o deixou louco de dor e ele lhe deu um tiro de revólver.

Sr. Dami (falando enquanto dorme): Fogo na casa! O apartamento queima! Chamem os bombeiros! (Adormece. O médico entra e, logo depois dele, uma senhora loura, de preto, muito elegante, que se aproxima da cama do moribundo, frente aos espectadores).

   O amigo (para o médico): Não há mesmo mais nada que se possa fazer?

   O médico (solene): Nada. Está vendo? … Quando um homem entra num apartamento, o caso é grave, mas sempre existe uma esperança de cura … Quando, ao contrário, é o apartamento que entra no homem, o caso é verdadeiramente desesperador!… (Nesse momento, a senhora de preto passa para o outro lado da cama e se vira de costas para os espectadores. Sobre suas costas, se vê uma plaquinha com a palavra: Aluga-se).

Cortina

 

*Peça sintética publicada simultaneamente em francês e italiano por Marinetti em 11 de janeiro de 1922.