Mulheres na autoria de romances policiais: de Agatha Christie a Gillian Flynn – Fabiane Secches

Mulheres na autoria de romances policiais: de Agatha Christie a Gillian Flynn

                                                                                                           Fabiane Secches*

Agatha Christie

Agatha Christie

Existe assombro maior do que suspeitar da pessoa com quem compartilhamos a vida, aquela em quem deveríamos confiar o bastante para dividir as noites de sono? Quando o inimigo não é um desconhecido, a história se torna mais assustadora, pois estamos muito mais vulneráveis.

No texto O Inquietante (1919), Freud utiliza obras literárias, como o conto “Homem de Areia”, de E.T.A. Hoffmann, para ilustrar o sentimento que nos atravessa quando encontramos algo de “estranho” naquilo que nos é familiar. Para Freud, embora façamos distinção, não há antagonismo. São dois grupos de ideias “que, não sendo opostos, são alheios um ao outro: o do que é familiar, aconchegado, e do que é escondido, mantido oculto”. Quando esses grupos de ideias se sobrepõem, somos assaltados por um sentimento inquietante.

Na literatura, o termo suspense psicológico é utilizado para designar histórias do gênero onde a ação não é o principal elemento do enredo. A ação, quando existe, funciona como pretexto para estabelecer conflitos psíquicos e intersubjetivos.

Na edição de julho/agosto de 2016, a revista The Atlantic publicou uma matéria com o título Women Are Writing the Best Crime Novels. O autor, Terrence Rafferty, reflete sobre as razões por trás do fenômeno. Entre as hipóteses, está a ideia de que, de maneira geral, as escritoras mulheres parecem acreditar que tudo pode ser material para um bom suspense: um casamento em crise, uma filha desaparecida, uma garota desempregada que se torna obcecada pelo casal que observa do trem.

O romance Valsa Negra (2003), de Patrícia Melo, é um bom exemplo. Premiada com o Jabuti por seu romance anterior (Inferno), Melo é considerada a sucessora de Rubem Fonseca na literatura policial brasileira. No livro, o narrador é um maestro obcecado pela esposa mais jovem, a violinista Marie e compartilha conosco sua desconfiança e rancor, provável referência a Dom Casmurro. “O ódio é indistinguível do amor” — o verso de Catulo, epígrafe do romance, antecede uma história sobre ciúme e obsessão que nos remete a um terror familiar, diferente das tramas remotas sobre assassinos em série e seus rituais exóticos.

Nesse sentido, temos um clássico contemporâneo: o romance Garota Exemplar (2012), da americana Gillian Flynn, que tem no centro do enredo o desaparecimento de uma mulher, Amy, na data em que completaria cinco anos de casamento. A narração acontece através de perspectivas alternadas: um capítulo é do marido (Nick), outro é de Amy, através de seu diário. O formato me pareceu apropriado para a proposta. No estilo ele-disse X ela-disse, Flynn contrapõe as versões de cada um sobre os mesmos acontecimentos. Como nenhum dos narradores é exatamente confiável, vamos descobrindo outras versões que se sobrepõem.

Flynn é uma observadora perspicaz, por vezes sádica. Ao mesmo tempo, consegue ser muito espirituosa. É uma leitura tão tensa quanto divertida, difícil de interromper. Tenho a impressão de que Garota Exemplar se tornou o sucesso de editorial conhecemos também porque a história pode ser lida como uma parábola do casamento. Logo na primeira página, Nick diz: “Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras acima de todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?”. Assim, somos lançados do banal (no que você está pensando, como está se sentindo) ao trágico (o que fizemos um ao outro, o que iremos fazer). No meio, o estranhamento (quem é você), que se agrava porque é dirigido a quem antes se supôs conhecer bem. O sentimento de intimidade é atropelado pelo assombro do desconhecido.

Como em Valsa Negra, a epígrafe também antecipa o tom do romance: “O amor é a infinita mutabilidade do mundo; mentiras, ódio, até mesmo assassinato, tudo está atrelado a ele; é o inevitável desabrochar de seus opostos, uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue” — Tony Kushner, The Illusion. Uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue. Que frase sombria para definir o amor.

Em entrevista à revista Entertainment Weekly, Flynn disse que acompanha programas de TV sobre crimes reais, especialmente sobre esposas desaparecidas. Quando o marido se torna o principal suspeito (estatisticamente, é o que mais ocorre), parece difícil acreditar. Como o amor de antes teria se transformado em ódio, em algo tão extremo como assassinato? O que teria dado errado no meio do caminho?

Seus dois livros anteriores também foram publicados no Brasil pela editora Intrínseca: Objetos Cortantes é uma história macabra em que nem a maternidade escapa impune e Lugares Escuros (seu romance mais fraco), que abre com uma frase memorável: “Eu tenho a maldade dentro de mim, tão real quanto um órgão”. Flynn escreveu também o conto O Adulto. O texto é parte de uma coletânea de horror editada por George R. R. Martin. A história é divertida e assustadora.

Uma das referências literárias de Flynn é a escritora americana Patricia Highsmith, autora de inúmeros clássicos do gênero. Seu livro Strangers on a Train, de 1950, inspirou o filme Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcok. Highsmith também criou o personagem Thomas Ripley, de O Talentoso Sr. Ripley, que se transformou em uma série de romances policiais.

No romance O Perdão Está Suspenso (A Suspension of Mercy), Highsmith conta a história de um jovem casal que se mudou para uma casa relativamente isolada no interior da Inglaterra. Aqui, a autora traz a máxima que atravessa sua obra: “Qualquer tipo de pessoa pode matar. Isso se deve também às circunstâncias, e não só ao temperamento humano”. Estamos de volta ao inquietante de Freud: o afrouxamento entre o que é familiar e o que é estranho. Ao aproximar o crime das pessoas “normais”, Highsmith provoca no leitor um sentimento incômodo, difícil de suportar.

Quando o mal está do lado de fora, à espreita nas florestas escuras ou nas ruas vazias da cidade, é mais fácil distinguir a si como o bem. Já quando está na figura de maridos e esposas, de mães e filhas, irmãos e irmãs, amigos e vizinhos próximos, ficamos desolados. A constatação do desamparo nos atropela: ninguém está seguro.

“(…) já ouvi escritores dizendo que é mais difícil escrever sobre um lugar que conhecem a vida inteira do que sobre outro onde passaram três semanas, pois é mais difícil pinçar detalhes significativos no lugar que se conhece há muito tempo”, diz Alicia, a esposa de O Perdão Está Suspenso. No entanto, quando um autor consegue pinçar esses detalhes, somos atingidos de maneira certeira.

Nesse caminho, temos o recente A Garota no Trem (Girl on a Train), da britânica Paula Hawkins, publicado em português pela editora Record. O título dialoga tanto com seu par contemporâneo, Garota Exemplar, como com o clássico de Highsmith, Strangers on a TrainA Garota no Trem veio na esteira do sucesso comercial de Garota Exemplar e, embora existam semelhanças, são duas experiências de leitura muito diferentes. Flynn tem um senso de humor difícil de alcançar, subverte estereótipos como poucos, criando mitos contemporâneos.

Em Hawkins, somos conduzidos pelas páginas através de três perspectivas femininas: Rachel, Megan e Anna, cada uma delas narrando um trecho em primeira pessoa. A primeira é a “garota” que nomeia o livro. Desempregada, infeliz e confusa, Rachel fantasia sobre a vida de um casal que contempla através da janela do trem. Quando a esposa do casal desaparece, Rachel deixa o posto de observadora para se tornar uma das principais suspeitas. As amnésias alcoólicas fazem com que ela mesma desconfie de si.

Também da Grã-Bretanha, temos a escritora Sophie Hannah, de A Vítima Perfeita. Bem recebida pelos leitores e pela crítica, a autora é considerada um dos principais nomes da literatura policial contemporânea. Hannah conseguiu um feito notável: foi a primeira autora a obter autorização dos herdeiros de Agatha Christie para usar o clássico detetive Hercule Poirot como personagem.

Aqui, vale fazer uma pausa em homenagem àquela que é considerada como a rainha do crime ou a dama do suspense. Nascida na Inglaterra em 1890, Agatha Christie é autora de mais de 80 livros (em alguns, usou o pseudônimo Mary Westmacott). Nem todo romance criminal é literário, como André Leones lembra em artigo publicado no Estadão recentemente, mas Agatha Christie teria construído uma obra tão perene porque soube valorizar “o aspecto narrativo e, portanto, intrinsecamente literário da coisa”. Também destaca “a carpintaria narrativa, o cuidado com que a escritora desenvolve cada aspecto de seu jogo e a forma como os fatos, os personagens e, sobretudo, a maneira como cada personagem se refere aos fatos vão sendo posicionados no decorrer da história”.

No cenário contemporâneo, autoras de diferentes nacionalidades abordam o tema da intimidade e da família por esse viés. É o caso da finlandesa Tove Jansson; as britânicas Jane Shemilt e Evie Wyld; a canadense A. S. A. Harrison e as americanas Megan Abbot e Jessica Knoll. São apenas alguns nomes que nos lembram de que nem só de Edgars e Arthurs é feito o bom suspense.

 

 

* Psicanalista e editora da revista Deriva, publicação independente sobre literatura, cinema e psicanálise. Candidata ao Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.