CENA MORTA – Jefferson Bittencourt

CENA MORTA

Jefferson Bittencourt

Época
2015

ATO I

Cena 1
As portas do teatro abrem-se para a plateia. A
música ao fundo é melancólica. Os atores se
encontram sentados no centro do palco…eles
acompanham cada movimento da plateia. Olham com
tristeza, às vezes sorriem e em outros momentos
observam com curiosidade, simpatia e
cordialidade. As luzes do teatro devem estar
todas acesas. O ambiente não deve estar
preparado…deve estar o mais despojado e aberto
possível, revelando coxias, portas do fundo e
laterais do palco.
Ao sinal do diretor, os atores se levantam e se
dirigem à plateia.

ATORES
Boa noite a todos. Nós queríamos, em primeiro lugar
agradecer…agradecer por vocês terem saídos de suas
casas…de seus afazeres. Deixado de lado suas
coisas, sim… obrigado mesmo. Obrigado por estarem
aqui neste lugar, neste momento, nesta hora, neste
minuto de suas vidas…não sabemos o que isso
significa pra vocês, de fato, mas imaginamos…a vida
de cada um aqui presente…pelo olhar: suas dores,
suas lembranças, suas perdas…suas alegrias, seus
objetivos…cada um que está aqui presente hoje…é
um espetáculo a parte…não é verdade? E não é lindo
isso?

LUIZA
Dá um passo à frente dos outros atores
Bem…na verdade eu estou aqui pra contar uma
história pra vocês. E pra isto que eu estou
aqui. Vamos?(eles se entreolham e saem para a coxia, para se
preparar para o começo da peça. Fica no procênio
apenas Luiza) Teatro…é somente sonho…é respiração…eu preciso
respirar…vocês não precisam? Eu preciso respirar de
vez em quando.(pausa) “Quem faz um poema abre uma
janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse
ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm
ritmo – para que possas profundamente respirar. Quem
faz um poema salva um afogado”.Mário Quintana.
Bem…eu não vou me estender…vamos em frente!

JULIA
Aqui é onde tudo começa…como num sonho…como no
teatro….as luzes se apagam…o espaço se
(MAIS…)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

JULIA (…cont.)
ajeita…delicadamente…vemos um homem ali…uma
mulher aqui…e junto deles…ela: a música!!!
Enquanto Julia descreve a cena, o espaço é
invadido de fumaça e os outros dois atores (o
Diretor e Daiana), aparecem dançando. Numa
coreografia marcada vemos o título do espetáculo
num lençol que estava no próprio palco.
A dança possui passos lentos, é estranha e
precisa ter elementos de nonsense. Vemos Julia
derramar o liquido que bebia sobre si
própria…Julia acende um cigarro…vai em
direção à Daiana…O diretor agora coloca uma
máscara e se aproxima e segura Daiana com força,
Julia desfere um golpe na barriga de
Daiana…….A luz muda…silêncio. Do chão
mesmo Daiana se levanta. Estava sonhando…não
há ninguém por ali.

DAIANA
Júlia! Júlia…estamos atrasadas! Porque você não em
acordou? Meu Deus!!

JULIA
Oi! Oi! Calma…estava no banho…desculpa!

DAIANA
Nossa…você assim…de cabelos molhados…Meu
Deus…eu tive um pesadelo!

JULIA
Eu ouvi você lá do banheiro…chegou a dar uns
gritos.

DAIANA
Eu sonhei que você estava me matando.

JULIA
Credo, Daiana! Anda…vamos…seu teste está marcado
para daqui meia hora. Se arruma, rápido!Vamos!

DAIANA
Você me prometeu que iria me ajudar né, Julia? Eu não
conheço nada nessa cidade…estou bem perdida. Esse
diretor é bom mesmo?

JULIA
Calma Daiana…eu vou te ajudar, sim! Você é uma
atriz talentosa…não vai ser difícil você achar
emprego por aqui…e eu tenho meus contatos. Calma,
tudo se ajeita. O negócio aqui é estar sempre nas
baladas, nos barzinhos da cidade, nas vernissages, e
você vai descolar um projeto pra você! (sorri)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DAIANA
Não entendi.

JULIA
Você vai entender!

DAIANA
Eu só queria poder… sei lá…conseguir um papel
bacana num filme ou numa peça de teatro, poder
desenvolver algo mais…mais…importante. Eu
acredito que a arte pode transformar o ser humano.
Sempre acreditei nisso.

DIRETOR
Corta!! Corta!!
(entra em cena)
Assim não, minha filha! Não! Nada de slogan…nada de
mensagem. Ninguém aqui está querendo mensagem ou
narrativa, minha querida. Cuidado com a narrativa!!!
Eu mesmo, não entendo porque as pessoas insistem em
contar historinha? Querida…como é seu nome
mesmo? Ah! Daiana!! Daiana…linguagem ,linguagem,
hein? Muito mais interessante. Linguagem!!Veja…olha
pra cá. Olha essa luz…é signo entendeu. Perceba, só
ela já basta, pra que uma história?? Sem drama
entendeu? A vida da gente já é uma tragédia…todo
dia tem tragédia, pra que fazer mais drama??Por
favor! Querida, queixo pra cima e olhar cínico, por
favor.Repete comigo: ” Queixo pra cima e olhar
cínico!” (repete o bordão como um exercício
militar)Vamos do começo??? Vamos rápido! Rápido!Agora
eu quero música!! ok? Vamos lá! Ação!
A cena recomeça com mais energia e com
interpretação forçada e exagerada.Música forte!

DAIANA
Júlia! Júlia…estamos atrasadas! Porque você não me
acordou? Meu Deus!!

JULIA
Oi! Oi! Calma…estava no banho…desculpa!

DAIANA
Nossa…você assim…de cabelos molhados…Meu
Deus…eu tive um pesadelo!

JULIA
Eu ouvi você lá do banheiro…chegou a dar uns
gritos.

DAIANA
Eu sonhei que você estava me matando.
Diretor interrompe a cena jogando sua pasta de
anotações no chão com violência.
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DIRETOR
Quem está me matando é você Daiana!! Pelo amor de
Deus. Veja. Olha só. Você não precisa falar o texto,
às vezes, é só olhar a platéia. Eles sabem que você é
uma atriz. Só se faça de cínica!! Eles entendem tudo
o que você diz. Então seja hermética meu doce! Parece
uma palavra difícil né? Não…olha só. Hermetismo é a
chave. É Lindo….sério. É só acreditar nele. Depois
eu escrevo um texto bem bonito no programa, mais
rebuscado entende? Aí a platéia começa a perceber uma
aura, entendeu? O público vê uma aura naquilo que ele
não entende…sacou? Sadomasoquismo intelectual
baby!Esse povo adora! É ’chique’ querrida! Vai anda
…segue daí!Vamos lá!!?? 1,2,3, ação!
Recomeçam a cena

DAIANA
Eu sonhei que você estava me matando.

JULIA
Credo, Daiana! Anda…vamos…seu teste está marcado
para daqui meia hora. Se arruma, rápido!Vamos!

DAIANA
Você me prometeu que iria me ajudar né, Julia? Eu não
conheço nada nessa cidade…estou bem perdida. Esse
diretor é bom mesmo?

JULIA
Calma Daiana…eu vou te ajudar, sim! Você é uma
atriz talentosa…não vai ser difícil você achar
emprego por aqui…e eu tenho meus contatos. Calma,
tudo se ajeita.

DAIANA
Julia… eu queria te falar uma coisa antes…

JULIA
O que foi?

DAIANA
Eu queria te agradecer por você estar me ajudando
desta maneira…

JULIA
Que é isso Daiana…não dramatize. Estou te ajudando
porque sei de sua capacidade.

DAIANA
Sim…é sério. Desde que eu vim com você pra essa
cidade, eu estou realmente perdida. Aliás, depois que
o Roberto morreu, as coisas ficaram bem mais difíceis
pra mim. E você abriu esta porta e está me dando toda
esta força. Sério, eu queria te agradecer.
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

JULIA
Daiana! Por favor! Você é uma atriz e tanto, minha
querida! Eu sempre…sempre, estarei ao seu lado.
Aconteça o que acontecer.
Música.

DAIANA
Júlia…alguma vez eu parei pra te contar…como o
Roberto morreu? Já te contei como foi?

JULIA
Daiana…não, você nunca falou disso, mas temos que
continuar o teste…

DAIANA
O dia estava lindo…lindo. Eu me lembro que estava
com a janela do carro aberta e uma brisa suave batia
no meu rosto. Eu olhei pra ele e ele sorriu de um
jeito diferente pra mim. Um olhar tão tranqüilo e tão
distante. Nós estávamos indo para o teatro. Era a
estreia do meu espetáculo. Eu estava muito nervosa,
mas aquele olhar me acalmou…Chegamos no teatro e
fui me preparar.

JULIA
Daiana, porque isso agora?

DAIANA
A apresentação foi incrível. Público de pé,
aplaudindo e eu encontrei o olhar dele ali,
sorridente, com aquele mesmo olhar tranqüilo e
confiante. Acabei de me arrumar e fui falar com ele.
Ele foi muito doce mas fez um comentário, falou algo
como, você estava um pouco nervosa demais’…e
aquilo me magoou. Não sei porque. Então pedi pra ele
parar o carro, pois a gente precisava conversar.
(Pausa)
Depois de alguns minutos ali falando eu percebi que
ele tirou os olhos de mim e olhou para algo que
estava na janela do carro, ao meu lado. Ele tentou
colocar a mão na maçaneta da minha porta, mas não deu
tempo. Alguém do lado de fora abriu bruscamente a
minha porta e apontou um revólver pra gente. E eu
Júlia…no susto…Júlia…eu gritei e o sujeito
atirou. Um tiro. E o meu namorado caiu nos meus
braços e soltou um suspiro.O sujeito pegou minha
bolsa e saiu correndo e eu fiquei ali…aterrorizada.

JULIA
Daiana..ok…mas agora não é o momento de falar
disso.

DAIANA
Pois é Júlia! Mas é que esse mundo de hoje…está uma
loucura!! Você acorda com uma tragédia e dorme com um
(MAIS…)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DAIANA (…cont.)
atentado… e eu me lembro agora de estar
ali…naquele carro…com ele nos meus
braços…Parece que o teatro,a poesia…tudo perdia
sentido, entende? Pra que Júlia? Para se aparecer
para os amigos? Pra que?

JULIA
CHEGA!!! Daiana…por favor!!Diretor, com licença,
Preciso conversar com a Daiana…(puxa Daiana para a
ponta do palco) Daiana…essa é uma grande
oportunidade, entendeu? Aliás, essa é a oportunidade
da sua vida. Eu estou aqui pra te ajudar e você
precisa superar tudo isso!! Escuta: Você não me falou
uma vez que tinha vontade de mudar..de ter uma outra
vida, de ir para outro lugar do mundo…começar uma
vida nova? Agora é sua chance!! Onde que você está
com a cabeça?? Está louca?

DAIANA
Tá bom ok!! Desculpa…eu arruinei o teste!

JULIA
Até que enfim!!Você está pensando muito baixo,
Daiana!!!É só isso!Você está pensando muito
baixo!!Você precisa pensar mais alto, Daiana!

DAIANA
Para com isso! Julia!Isso só me deixa pior!
Júlia crescendo de raiva…

JULIA
Você precisa crescer! Entendeu?! Você precisa se
tornar uma atriz de verdade e esquecer o
passado!!Você precisa crescer, Daiana!! E aliás você
tem contas pra pagar, não esqueça disso!! Nunca se
esqueça disso!! Porque as contas minha querida, elas
têm somente uma fala: se você não paga, não come!!
Seja forte, Daiana! Deixe de ser tão mimada!!Seja
forte, Daiana!!

DAIANA
Para Julia! Pare de gritar Julia!!! (Julia empurra
Daiana, que vai ao chão)
A fumaça entra em cena…uma música…O Homem de
máscara ergue violentamente Daiana. Vemos Julia
indo em direção a Daiana. Elas se entreolham e
Julia dá um longo beijo em Daiana. Elas se
afastam e a música diminui.

ATO 2

Cena 1
Daiana de joelhos. Júlia num canto observando a
amiga. Silêncio longo.

JULIA
Calma Daiana. Esses diretores são assim mesmo. Não
pensam no que falam.

DAIANA
Eu sei. (pausa) Eu sei. Eu deveria ter me concentrado
mais… aposto que ele odiou.

JULIA
Tudo bem. Na outra semana, você vai conhecer um
diretor amigo meu, que está pra fazer um filme. Tá
pagando do próprio bolso. Claro, você já deve saber
que não vai ganhar muito…mas ele é bem influente, e
o pessoal daqui gosta do que ele faz.Ele costuma ter
uma ’pegada’ (ela sorri) ’pegada’ é como eles dizem
por aqui…uma ’pegada’ meio surrealista, meio
nonsense. Nos filmes dele, parece que nenhuma cena é
real, sabe? Parece que sempre tem algo de sonho e
realidade. Acho que você vai gostar. Pode ser?

DAIANA
Sim

JULIA

Ok…levanta menina. Vamos. Vai lavar esse rosto.

DAIANA
Eu já vou…calma.

JULIA
(silêncio)

DAIANA
Olha…. Eu acho que vou é me inscrever num desses
editais de financiamento público, sabe? Criar um
texto bem impactante, bonito, colocar uns parentes na
ficha técnica e depois fazer tudo sozinha…pra
ganhar bastante dinheiro! (ri)

JULIA
Sério?!! (ri)

DAIANA
Sim, né!E aquela história de um amigo meu que fez um
projeto solo, pediu uma fortuuuna, acabou ganhando, e
sabe o que era o projeto? Ele iria ficar trancado no
banheiro fazendo cocô durante cinco dias, iria filmar
e fotografar tudo e depois chamaria as pessoas para
um cocktail!Para apreciar as fotos e os vídeos dos
cocôs dele!! Não é incrível…ia ser o cocô mais
(MAIS…)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DAIANA (…cont.)
chique do planeta! Apreciado com taça de champagne e
caviar…(muda de expressão como uma mulher chique
observando uma obra de arte num museu)”Hmm veja
só..aquele ali tem um tom mais roseado! E olha aquele
outro, tem uma característica mais arredondada nas
arestas!!”

JULIA
“Hmmm vejamos…e este? Não parece ser um excremento
com influência cubista? (gargalha)E este…parece um
cocô com um corte renascentista?” (ri)Daiana, você
não presta mesmo!!

DAIANA
Sim. Mas olha só…Júlia…e aquele teste que eu vi
naquela revista.Onde foi? (procura a revista)
Aqui..olha aqui…

JULIA
O que foi?
Daiana continua folheando a revista

DAIANA
Procura-se atriz para o elenco do filme ’Ela é a mãe
2’, que será rodado no próximo mês. Os interessados
devem comparecer …

JULIA
Espera aí! Daiana…desculpa. Eu não te falei porque
achei que você poderia ficar chateada. Eu vou fazer
esse teste amanhã. Já agendei um horário e parece que
eles estão com todos os horários esgotados.

DAIANA
Ah..ok. Bem, mas eu posso ir junto com você? Eu
adoraria conhecer o estúdio e…

JULIA
Meu Deus Daiana! Claro…imagina.

DAIANA
E aliás, Júlia…eu li aqui ó: ” o filme será
estrelado por nada mais nada menos que : Luiza
Fontenelle!”
As cortinas do fundo se abrem. Música. Surge
Luiza Fontenelle desfilando num longo casaco,
como que entrando numa passarela de moda. O
diretor adentra a cena e todos ficam admirados
com a passagem de Luiza. A música se encerra
exatamente no momento em que Luiza se encontra
entre Júlia e Daiana.
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

LUIZA
Preparados para um pouco de talento!?
Julia e Daiana aplaudem efusivamente.

LUIZA
Obrigada! Obrigada!Diretor!? Quem são essas duas
meninas?

DIRETOR
São as atrizes que vieram para o teste, Luiza. Elas
marcaram pra hoje, e foi por isso que te chamei.

LUIZA
Ah! (pausa) Entendi! Então meninas…vamos logo, que
meu humor está péssimo hoje.

DIRETOR
Luiza e você mocinha (pega Daiana pela mão), nós
vamos fazer a cena do ato 3, a cena do encontro entre
as duas,ok?
Julia fica indignada por não ter sido a
escolhida

LUIZA
Ok! Ok! Você é quem manda, meu querido. Onde eu fico?

DIRETOR
Você pode sentar aqui! Mocinha …é seu nome mesmo?
(coloca Luiza sentada numa cadeira)

DAIANA
Daiana!

DIRETOR
Decorou o texto?

DAIANA
Bem…é…eu conheço esse texto.

DIRETOR
Decorou o texto?

DAIANA
Bem…sim…

LUIZA
Muito bem, minha querida…muito bem. Então lembre-se
de uma coisa: faça as coisas bem devagar tá? Esses
atores jovens de hoje em dia já saem logo dando
texto….não escutam nada e ninguém e já saem logo
dando muito texto e mexendo os braços…Ui! Uma
agonia!
Diretor chama Júlia num canto
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DIRETOR
Mocinha…e você…seu nome mesmo?

JULIA
É Julia.

DIRETOR
Sabe o que é!? A nossa outra atriz não pôde vir hoje,
você poderia participar do teste, fazer a outra
personagem do texto…aqui tá vendo? (aponta o
texto). Tem poucas falas. Vai dando uma lida que já
te chamo pra entrar, ok?

JULIA
Ok. Tudo bem.

DIRETOR
Bem (para Daiana)…o negócio é o seguinte: você
entra por aquela porta, e vem se aproximando
lentamente da sua melhor amiga. Você precisa falar de
um assunto muito doloroso.Você vai trazer um buquê de
flores, para amenizar a situação entende?

LUIZA
O que tem nessas flores Paulo? Você sabe que sou
alérgica, né?!

DIRETOR
Está tudo bem Luiza, fiz questão de pegar as flores
mais secas e insípidas ok?

LUIZA
Muito bem…pra mim nem precisava de flor,
cadeira…nada disso! Mas vamos lá…vamos lá!

DIRETOR
Bem…vamos pra cena…Julia, eu te aviso quando for
para entrar, ok?

JULIA
Ok!

DIRETOR
Tudo pronto?? Ação!!
Música. Daiana entra lentamente. Luiza que agora
interpreta a personagem de nome Bel) não a vê
entrando. Ela está sentada lendo algo ou
fumando.

DAIANA
Bel?

LUIZA
Oi Daiana, nossa que susto!
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DAIANA
Desculpe não queria incomodá-la! A porta estava
encostada, eu chamei e você não ouviu.

LUIZA
Tudo bem, não tem problema.

DAIANA
Primeiro…bem..isso aqui é pra você. Eu achei elas
lindas…me fez lembrar você.

LUIZA
Que lindo! Nossa….obrigada! Que gentileza…o que
fiz de tão especial?

DAIANA
Nada. Na verdade você sempre mereceu isso. Eu é que
nunca me dei conta…ou melhor, nunca valorizei sua
companhia. Somos vizinhas há tantos anos…e eu nunca
disse ou fiz nada que pudesse retribuir seus favores.

LUIZA
Daiana…que lindo. Você é um doce.

DAIANA
Bel..na verdade… eu vim aqui pra te dizer…(pausa)

LUIZA
Fala! Estou ficando nervosa!

DAIANA
Eu vi aqui pra te dizer que estou indo embora.
(pausa) Pra sempre.

LUIZA
como assim?

DAIANA
Sim…eu vou embora. Consegui um trabalho…quer
dizer…bem, eu vou pra muito…muito longe daqui.

LUIZA
Nossa, que bom Daiana. Você…vai ganhar bem? Como é
esse seu novo emprego?

DAIANA
Na verdade eu ainda não sei…eu vou para uma cidade
bem maior…e chegando lá…eu vou fazer alguns
testes, e acho que vai ser melhor pra mim.

LUIZA
Você tem certeza? Daiana! Aqui você tem tudo, um
lugar para morar, pessoas que gostam de você

DAIANA
Sim, Bel…eu sei…eu sou eternamente grata à você e
aos nosso amigos. Mas eu não agüento mais. Eu preciso
fazer alguma coisa da minha vida.
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

LUIZA
Minha querida! (abraça Daiana)

DAIANA
Minha vida não faz mais sentido aqui…O Roberto era
mais que meu marido…ele era meu braço direito…me
ajudava em tudo…eu sinto muita falta dele. E depois
do que acontecei…espero que você entenda.

LUIZA
Minha querida. Você vai encontrar pessoas que vão te
ajudar. Tenho certeza…o mundo está cheio de almas
boas…você só tem que lutar contra a inveja e o
orgulho. Estes dois, minha querida…destroem a gente
por dentro.
(Entra Julia)

JULIA
Daiana..vamos? Já coloquei tudo no
carro…vamos?!Opa..desculpa…não queria
interromper.

DAIANA
Bel…essa é Julia…ela que vai me ajudar por lá.
Ela é atriz também.

LUIZA
Prazer, Julia…por favor…cuide bem dessa menina,
tá? Ela tem uma energia incrível…mas é tão
inocente!

DAIANA
Ah! Para com isso Bel…Ela sabe bem com quem ela
está lidando, não é verdade, Julia? Bel…olha só: eu
preciso tentar, entende? Minha vida precisa mudar…
Muitas vezes eu batia a cabeça… pensava, pensava,
mas na verdade eu não tinha coragem e ficava me
culpando por isso. Eu tinha medo…e eu não fazia
nada pra mudar…só ficava esse medo, esse medo
absurdo que me acompanhava todos os dias! Medo de
perder mais do que eu já havia perdido! Depois do
assalto eu fiquei meses de cama…eu não tinha mais
vontade nenhuma..nenhum sonho…nada. E eu fui
percebendo que a vida é isso, não é? Uma linha
fininha que, se você não se cuidar, você cai no
desespero. Pra todo mundo é assim, não é?
Longo silêncio de todos os personagens

CARLOS
Corta!(O diretor está impressionado com a performance
de Daiana) Ok…está ótimo! Muito bem! Muito bem!
Vamos seguir que temos mais umas 30 ali lá fora.
Daiana, muito obrigado! Nós mandaremos um email
avisando se rolar …ou não! ok? Julia…muito grato
pela sua contribuição! Gente, vamos,
vamos…esvaziando o estúdio que preciso seguir que
(MAIS…)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

CARLOS (…cont.)
hoje o dia não está fácil. Luiza, minha querida, você
pode ficar aqui mais um minutinho…eu preciso de
você.

LUIZA
Saiba que isso tem peso no meu cachê, certo senhor
diretor?

CARLOS
Podemos falar sobre isso depois?

LUIZA
Está bem.
O palco vai sendo esvaziado lentamente. Fica
apenas Luiza em pé. Silêncio. Ela acende um
cigarro. Olha para a plateia.

LUIZA
Agora vocês precisam imaginar que o tempo passa.
Muito rápido. E chega a noite, o silêncio e as
estrelas. Aqui é a minha casa. Ali uma cama toda
desarrumada. Há dias desarrumada. Num outro canto um
abajur com uma luz bem fraquinha. Um livro aberto: ’O
Eleito’ de Thomas Mann. No outro canto, muitas roupas
no chão. A porta do guarda-roupa aberto…ou melhor,
semi-aberto. Eu passo a chave, entro
lentamente…cansada. Cansada de tudo. Da minha vida.
Da bobagem que eu produzo. Do personagem que eu
inventei pra mim. Caminho lentamente…dou dois, não,
melhor, três passos. Olho para esta casa caída. Esta
casa sou eu. Cada móvel…cada roupa no chão…sou
eu. Mas eu olho para o lado…e eu não estou sozinha.
Aqui…ali…ali também…elas sorriem pra mim. Elas.
O meu público. As baratas.
Ela se ajoelha.
“Tu pensas que é demais suportar esta tempestade
furibunda penetrando até os ossos. Para ti deve ser:
mas onde se alojou a dor maior, mal se percebe a dor
menor. Evitarias enfrentar um urso: mas se tua fuga
te jogasse dentro do mar enfurecido não temerias a
goela do animal. Quando a alma está em sossego, o
corpo é mais sensível: a tempestade da minha alma
apaga em meus sentidos toda outra sensação senão a
que dói aqui.Ingratidão filial!É como se esta boca
decepasse esta mão que lhe dá o alimento. Mas a minha
punição irá até o fundo;não, não quero chorar mais.
Numa noite como esta, jogar-me ao desamparo! Cai,
torrente do céu, que eu aguentarei!!Em uma noite
assim!!
Se levanta lentamente e em silêncio. Olha para
as baratas.Serve um pouco de uísque.
Shakespeare…seu filho da puta!
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

(silêncio…mais um gole)
Aqui é o meu verdadeiro palco. Aqui. Sozinha.
“Assim nós nascemos, choramos por nos vermos neste
imenso palco de loucos”
Não é verdade isso? Olha…eu não aguento aquelas
pessoas…nesses filmes e nessas peças que eu
faço…são todos uns bobocas… pessoas falsas,
bajuladoras. Ninguém é mais sério? Meu Deus! Que
saco! Todo mundo só quer saber de trepar?? E nas
novelas, e nos filmes…só trepação, trepação,
trepação!! Porra!!!Ninguém tem mais uma história boa
pra contar não?!
(para as baratas, já meio bêbada)
Que é que vocês estão olhando, hein?? Eu sou uma
atriz entendeu? I’m not a movie star!! Eu sou uma
atriz e me chamo Luiza Fontenelle! Eu tenho amor pelo
teatro…amor, sabem o que é isso? Ah! Eu estou de
saco cheio de vocês! Eu estou de saco cheio!!Esta
cena, minhas queridinhas…esta cena que eu fiz
agora…está morta , entenderam? Ela não volta
mais…entenderam o que é o teatro? Teatro é morte o
tempo todo. Teatro é morte o tempo todo…
Luiza vai para o fundo do palco. Fica de pé,
sorrindo observando toda a cena seguinte.
Música.
Entra Daiana sorridente. Traz uma garrafa de
champagne com dois copos.

DAIANA
Julia!! Julia! Eu não acredito! Eu não acredito!

JULIA
Que foi Daiana!Me fala logo que eu estou curiosa!

DAIANA
Eu passei Julia! Eles me aceitaram! Eu vou fazer o
filme, Julia!

JULIA
Nossa! Que legal, Daiana! Estou bem feliz! Mas calma
né? Não é pra tanto assim!

DAIANA
Como assim Julia? É uma oportunidade incrível!

JULIA
Calma Daiana, você não conhece esse meio…essas
pessoas são bem malucas!

DAIANA
Julia, porque você está falando isso?
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

JULIA
Pra te alertar, querida! Esse meio tem sua podridão
tá? Não esquece!

DAIANA
Julia…eu vi a sua cara no teste, viu? Pensa que eu
não vi?
eu vi que você ficou uma inveja enorme, porque ele, o
diretor, me escolheu…eu vi…sério!

JULIA
Ah! Para com isso, Daiana. Eu já estou numa boa
posição…não preciso mais disso. As pessoas já
conhecem meu trabalho.

DAIANA
Porque você vive alimentando essa mentira, hein,
Julia? Você deve cair na real! É sério! Eu não vi
você trabalhando em lugar nenhum desde que cheguei,
muito menos tem pessoas te chamando ou mesmo alguém
vindo aqui perguntar se você está disponível para
algum papel, ou mesmo se está trabalhando com alguma
coisa. Que mentira é essa de que você tem
experiência, conhece das coisas, hein? Desde que eu
cheguei é sempre a mesma ladainha: “você vai ver!
Você não conhece nada menina! Você está sendo
ingênua!”

JULIA
O que é isso, Daiana! Ficou louca!

DAIANA
Pois eu acho é que você é uma frustrada! Fracassada!
Pensa que eu não vi você, por estes dias, enchendo a
cabeça de boletas?! Você não passa de uma depressiva
metida a besta…uma fraca que não consegue suportar
a felicidade e a coragem dos outros!!Principalmente
se esta pessoa é mais talentosa que você!!
Julia pega a garrafa de champagne que estava no
chão e bate na cabeça de Daiana, que cai e
desmaia. Silêncio. Música. O homem de máscara
entra e coloca uma cadeira no centro do
palco. Daiana se levanta lentamente, como que,
por um breve momento, a alma de Daiana estivesse
se erguendo de seu corpo. Senta e joga o líquido
que estava no seu copo na sua cabeça. O líquido
deve ser vermelho como sangue.

DAIANA
Sabe… uma vez…uma vez eu sonhei com um anjo
gigante, que descia lá do alto, sabe…de muito
longe. Ele vinha lentamente…e eu sentia o frio da
sombra que ele formava sobre mim…era enorme…vinha
em silêncio…tudo parava…não tinha som de carro,
(MAIS…)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

DAIANA (…cont.)
de cidade de nada…era só ele descendo na minha
direção e parecia que me olhava…e quando ele estava
bem próximo, eu pude ver, nos olhos dele, que ele
estava com medo de mim ! Sim! Ele estava com medo de
mim!! Ele ficou ali então…logo acima da minha
cabeça…me olhando e planando…lentamente e eu
toquei na sua cabeça…e eu acordei assim…sentindo
que aquilo significava algo…parecia que ele estava
querendo me dizer algo…parecia que ele me
implorava…parecia que ele queria que eu lutasse
mais…
Música…Daiana se levanta e se coloca na mesma
posição no momento de sua morte.O mascarado
entra e tira Daiana de cena. A música para. O
Diretor volta logo em seguida.

ATOR
Bem… Vocês devem ter percebido…nós do Teatro…
(respira)….(pausa) Bem… Vamos em frente!Vamos
agora para a cena final do espetáculo CENA MORTA,
concebido,dirigido e escrito por Luiza Fontenelle.
(respira) Música!
Música. Fumaça. Entra Luiza e se dirige
lentamente ao centro do palco.
Entra Julia carregando um buquê de flores como
na “cena do encontro”. Ela caminha lentamente a
partir do fundo do palco. Luiza entra pela
lateral. Luiza senta. Julia vai ate a cadeira
onde está Luiza e entrega-lhe as flores. Julia
se dirige à boca de cena (no mesmo ponto onde
Daiana fez a cena final do segundo teste) e abre
um vidro de boletas. Toma uma boleta e cai
morta.Diretor aparece ao fundo, aplaudindo e
gargalhando, gritando: “Bravooo, bravíssimo!”
Vemos Daiana fumando, toda ensanguentada.

LUIZA
Cai o pano. Fim!
Música termina.
Luiza senta na mesma cadeira do teste anterior

LUIZA
Acende um cigarro.
Bem…eu queria, em primeiro lugar
agradecer…agradecer por vocês terem saídos de suas
casas…de seus afazeres. Deixado de lado suas
coisas, sim… obrigado mesmo. Obrigado por estarem
aqui neste lugar, neste momento, nesta hora, neste
minuto de suas vidas…eu não sei o que isso
significa pra vocês, de fato, mas eu imagino…
(MAIS…)
(CONTINUA…)
…CONTINUANDO:

LUIZA (…cont.)
afinal…”Nós somos feitos da mesma matéria dos
nossos sonhos, não é verdade?” E não é lindo isso?
Música.
Foto final de família com criadora (Luiza) e
seus personagens.

DIRETOR DO ESPETÁCULO CENA MORTA
Grita para todos os atores do espetáculo Cena
Morta
Corta!! ok pessoal, hoje a apresentação foi mais ou
menos, hein!? Espero que amanhã seja melhor!
Obrigado!
Black Out

CAI O PANO