Literatura e filosofia – Aurora Bernardini

Literatura e filosofia

Aurora Bernardini*

A Mario Perniola, in memoriam

Mario Perniola

Dar apenas a separação entre literatura e filosofia é inadmissível, hoje, mas mais perigoso ainda é a separação entre ciências humanas, ciências exatas e as aplicações tecnológicas.

A interdisciplinaridade e o desejado alargamento das opções por disciplinas nas Universidades, não apenas permitiram o intercâmbio de métodos, sugestões, descortinos, sínteses, mas também levaram a uma abertura, a uma afinação, a um enriquecimento das mentes dos beneficiários.

No que se refere ao  campo dos estudos humanísticos e  dos estudos literários no Brasil, em particular,  pode-se dizer que depois do período rígido de  importação teórica da Europa,  nas décadas pós-II Guerra até a década de 1980 e depois do reconhecimento e florescimento do formalismo russo  e do estruturalismo de 1970 a 1980, novos movimentos se sucederam em que – do texto – a atenção  deslocou-se para o leitor (Nelson Goodman, 1968 e Timothy Reiss, 1992 ), depois para o contexto, até que, entre outros, os neo-historicistas de Berkley, inspirados na arqueologia cultural de Foucalt, na antropologia de Geertz, na história social dos Annales, na tradição  de Warburg etc., começaram a revisão dos textos literários clássicos (e também de representações da arte figurativa), e passaram, cada vez mais, a relacioná-los com as memórias, as crônicas e os documentos da organização social, da política, do ideário, dos progressos técnico-científicos etc.

Há pouco, os assim chamado “estudos culturais” (identidade sexual, especificidade gay, especificidade feminina, étnica, etc.) deram ênfase aos aspectos ideológicos do texto literário e puseram em relação texto e contexto, ligando, por exemplo literatura e tecnologia (ex. o tema do trem na literatura, do rádio, o da T.V., etc.) sem falar das relações sempre vivas com o cinema, a música, a dança, o teatro etc.

Dentro desse panorama geral, isso não significa, entretanto, que as diferentes formas de expressão literária tenham perdido seus “fatores construtivos” – para usar uma expressão tornada conhecida por Iúri Tyniánov.

A diferença entre poesia e prosa, por exemplo, foi colocada em evidência, entre outros, por um pensador alemão muito caro a Haroldo de Campos nos seguintes termos:

 

“A atividade do espírito se manifesta como criação ou pedagogia. Ela produz uma obra ou uma intervenção ideológica (uma tendência)… O poeta é criador, acresce o essencial vital.

O escritor dá expressão ao programa, às ideologias, àquilo que o espírito encontra.”

(Max Bense. Philosophie als Forschung. Staufen, Cologne, 1947) [1]

Ou como retoma Giorgio Agambem em seu Nudità  (2009 – versão portuguesa, Nudez: “Na cultura da época moderna, a filosofia e a crítica herdaram a obra profética da salvação ( que na esfera sagrada fora antes consagrada às exegeses);  já poesia, técnica e arte [herdaram] a obra angélica da criação”.[2]

Mas o fim da filosofia como pensamento sistemático abre espaço para a filosofia como compreensão, como narração.

 

O desejo de narrar, ou melhor, a necessidade de narrar afirma-se, é sabido, mesmo em obras e atividades humanas alheias aos gêneros narrativos literários propriamente ditos. Não falaremos aqui dos mitos, das religiões (a Bíblia) e das filosofias antigas (os diálogos de Platão), mas da filosofia contemporânea, depois de Nietzsche, cujo escopo já não é mais a procura da verdade, mas que, como outras atividades cognoscitivas e expressivas, vê-se enredada nos problemas da linguagem e da narração do mundo.

Hoje, se a filosofia renunciou a uma noção de verdade como meta a ser alcançada —  e isso  não significa  que tenha renunciado à bagagem de perguntas que cada um carrega consigo,  ao reconhecimento das limitações do sujeito, à contextualidade das perguntas e da busca —  então a narração é um dos modelos privilegiados que permitem a substituição da lógica sistêmica por formas mais válidas de compreensão. É no ensaio que a filosofia floresce como narrativa.

O ensaio é o mediador. Baseia-se no concreto existente, mas visa representá-lo de maneira original. Tem como escopo a representação de possíveis configurações de um objeto. Pois bem, o ensaio é a forma concreta em que se encontram, em particular, a literatura e a filosofia.

“Entre as características atribuídas ao ensaio por Theodor Adorno (1951) estão – diz   Martha Nussbaum em seu livro Love’s Knowledge, de 1990 — : a espontaneidade, a recusa de qualquer tipo de lógica dedutiva, de qualquer tipo de visão sistemática e dogmática, a escolha de temas não [especificamente] científicos e não convencionais, a renúncia a qualquer pensamento pesado ou obscuro, a consciência de que a natureza se encontra já absorvida pela cultura,  que o erro e a capacidade humana de falhar são elementos essenciais da nova concepção de mundo e que o jogo (e o irônico)  têm nessas concepções um papel central. (Há, em seguida, características que dizem respeito ao aparato retórico: o proceder por intuições e fragmentos, a divagação, a incompletude, a metáfora, a  paródia etc.,  e o saber como usá-las, segundo o estilo do autor…)

Remo Ceserani, em seu livro Convergenze, (Mondadori 2010), no prelo pela EDUSP, articula a relação entre filosofia e literatura nos três pontos seguintes:

  • A penetração dos temas filosóficos em obras literárias propriamente ditas;
  • A qualidade literária de muitos escritos filosóficos;
  • O interesse pela literatura demonstrado por diversos filósofos contemporâneos. A existência de uma espécie de movimento que poder-se-ia chamar “filosofia e literatura” nas discussões filosóficas contemporâneas.

Ampliando um pouco cada um dos pontos:

  1. A penetração dos temas filosóficos em obras literárias propriamente ditas. Seu fluxo tem sido contínuo, desde a antiguidade. Basta citar Dante, Leopardi, Borges, Eco, Unamuno, Sartre, Blanchot etc.;
  2. As qualidades literárias de muitas escrituras filosóficas. Desde a Ciência Nova de Vico, aos escritos de Hume, Voltaire, Diderot, Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard, Benjamin, etc. e, particularmente, Wittgenstein, que será visto mais adiante.;
  3. O interesse demonstrado nas últimas décadas para com as formas e os procedimentos tipicamente literários e a narração por parte de filósofos dispostos a atribuir à literatura uma função estimuladora e participante em suas meditações. Por exemplo, sempre em Love’s KnowledgeEsssays on Philosophy and Literature, de  Martha Nussbaum, expõe-se a tese segundo a qual existe uma relação conspícua entre estilo e conteúdo da escrita: o estilo não sendo neutro e a forma influindo sobre o conteúdo. Apoiando-se nos romances de Henry James, assim escreve Nussbaum:
“Há algumas visões do mundo, de como dever-se-ia nele viver – especificamente, visões que insistem na variedade, na complexidade e misteriosa qualidade daquele mundo e sua defeituosa e imperfeita beleza – que não podem ser expressas na linguagem da prosa filosófica convencional, mas numa linguagem e em formas, por sua própria natureza, mais complexas, mais alusivas, mais atentas aos matizes (…). Apenas o estilo de um certo tipo de artista da narração pode exprimir adequadamente algumas importantes “verdades” sobre o mundo, incorporando-as à sua própria e provocando no leitor as atividades necessárias para captá-las”  (pp.3,6)
Martha C. Nussbaum
Oxford University Press, 1990
 

Veja-se o que diz a esse respeito L. Wittgenstein em suas Investigações Filosóficas (1936)[ cf., no Brasil, Investigações Filosóficas. Trad. José Carlos Bruni. 3a ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984], retomando o tema crucial do Tractatus, terminado depois da volta de sua participação na I Guerra –  sobre  a distinção dizer-mostrar – tal como ele o resumiu para o amigo Bertrand Russell:

“O ponto principal é a teoria daquilo que pode ser dito em frases – ou seja, pela linguagem (e, o que dá na mesma, que pode ser pensado) e  daquilo que não pode ser dito em frases, mas tão somente mostrado; este é o problema cardinal da filosofia. Sua Filosofia é crítica da Linguagem, e ela tem o direito de calar sobre as questões  que, para nossa vida, são as mais importantes: Metafísica, Ética e Estética fazem parte da Mística, inacessível às palavras, mas acessível a outros meios de expressão, como a Arte” (p.84) ( grifos meus).

 

Para a já citada  estudiosa Martha Nussbaum, a literatura tem a potencialidade de inspirar no leitor uma espécie de impacto moral que, ao contrário, não é estimulado pelos textos filosóficos. Muitos romances impelem o leitor a refletir sobre as escolhas morais que envolvem as personagens. Basta lembrar Henry James ou Dostoiévski, por exemplo.

Quanto à importância moral da escrita narrativa, diz Nussbaum:

Na verdade moral há elementos que as páginas da filosofia moral tradicional não têm o condão de exprimir como em um romance que aborde essa questão. Uma vez que a filosofia moral tem por escopo – após o exame atento das concepções contrastantes do bem nas atividades humanas – de compreender o alcance que ditas concepções têm, o romance parece vir a constituir uma parte importante dessa filosofia… pois o fim visado por essa filosofia não é tão somente a compreensão teórica, mas também uma exploração ligada á prática, que o romance lhe dá. Isso quer dizer que o estudo filosófico do bem não pode ser conduzido isoladamente, sendo inseparável da elaboração socrática, no interlocutor ou no leitor, de suas próprias intuições morais, destinadas a aclarar a ele e aos seus próprios fins (1990. p. 143).

 

Em se tratando , ainda, de romance e filosofia, Eris Murdoch –  autora entre outros, do romance The Sovereignity of Good (1967) e filosofa ela mesma, também sustenta a tese da diferença radical entre escrever romances e filosofar (Entrevista Literature and Philosophy à BBC, 1978). A literatura – diz ela – pode fazer conhecer a um leitor atento, áreas da vida moral que a filosofia, por seu caráter abstrato, tende a ignorar. Porém – continua – as duas disciplinas tendem a trilhar caminhos diferentes, com estilos e fins que não coincidem. A filosofia visa aclarar e a literatura visa mistificar. (Grifos meus) Uma é translúcida, a outra é “ambígua”; uma teoriza, a outra entretém. “A literatura é vasta e multiforme, densa, colada á vida e a filosofia é abstrata, concentrada e centrada em problemas particulares”. A literatura é natural, a filosofia é artificial. A literatura mira a uma forma esteticamente atraente, a filosofia não se propõe a isso. Mas, afinal, existe um estilo filosófico? Sim, ele  é feito de certa dureza e do máximo de clareza fria.

Hoje, é claro, desde Bergson, Ricoeur, Merleau-Ponty, mistura-se filosofia e literatura, coisas que Sartre – a despeito de Simone de Beauvoir – teimava em manter separadas.

Uma coisa é compreender filosofia – diz Emilio Garroni a Isabella Aguilar, durante uma entrevista (2006),  registrada por Remo  Ceserani no livro mencionado, Convergenze, , à p. 34   – outra é a narração literária. Ambas são complementares, mas não integradas: são dois modos diferentes de utilizar a linguagem.

“Nada se pode narrar, nem é possível acompanhar-se uma narração, se – em alguma medida – não se compreender, isto é, se não forem tomados juntos, quase como um todo solidário, os âmbitos das possíveis significações que o narrar pressupõe e descortina. Ao mesmo tempo, não é possível compreender, enquanto leitor e enquanto crítico, um texto narrativo sem aderir e participar da narração enquanto tal. Por outro lado, a narratividade anula a solidariedade entre os constituintes e a especificidade que é própria da compreensão, transformando-a em temporalidade”.

Garroni continua:

“Compreender ( sempre referindo-se à filosofia) zera a ordem dos constituintes sucessivos ou a temporalidade que é própria da narração, transformando o seu percurso em um quadro temporal ou espacial em que os constituintes passam de sucessivos a coexistentes”.

 

 Derrida, filósofo francês propenso ao idealismo, propõe ver o mundo como um texto, sendo que a filosofia é um outro tipo de literatura em que a língua escrita vem antes da falada. As palavras de ordem por ele lançadas, différance e desconstrução, encontram consonância com o espírito do tempo, transformando departamentos de estudos literários em departamentos de teoria literária, como que centros de estudos filosóficos de tipo europeu continental, enquanto os departamentos de filosofia (especialmente nos E.U.A) permanecem orientados para a filosofia analítica de tipo anglo-saxão.

Quanto ao lugar da filosofia em nossa cultura , — e agora vou referir-me a alguns escritos de Richard Rorty, — costuma ser importante quando grandes crenças são abandonadas e ela sugere, em vista do futuro, o que se conserva e o que deve ser posto de lado. Há tempo, no Ocidente, a luta entre os deuses e os gigantes  descrita por Platão, foi decidida  pelos intelectuais a favor desses últimos. Restam, entretanto, pendentes,  algumas questões: será a razão que permitirá aos homens se realizarem no que têm de melhor, ou será a imaginação que os ajudará a se transformarem? Será que a física , a química e a matemática, ao decifrarem e resolverem quebra-cabeças, nos dizem o que é realmente o real ?

Rorty tende a se  alinhar com os que defendem a imaginação. “Pela primeira vez no pensamento humano os grandes românticos [ Schiller, no caso] introduziram a noção de que os ideais não têm que ser descobertos, mas inventados, gerados, tal como o é a arte em geral”.

Defender a  “razão centrada no indivíduo” —  opondo-se, nesse caso à “racionalidade comunicativa” de caráter bakhtiniano proposta pelo também holista Habermas – significa, para Rorty, colocar os pés na terra (  to bourgeoisify ), coisa que os filósofos  deveriam fazer , e parar de tentarem atingir as alturas espirituais nas quais Platão e Nietzsche se confrontavam. Nada de ascender a alturas ou cair em abismos. Para os  pragmatistas, os conflitos de ordem moral ou intelectual são questão de convicção ( belief).Não se trata de  decidir o que é real e o que é aparente, mas sim  de se chegar a um compromisso que permita aos dois lados em conflito  conseguirem algo do bem que ambos originariamente esperavam.

Filosofia e poesia

Possivelmente , como tantos, Rorty,  em virtude  de seu utilitarismo às vezes de voo raso,  quis ter-se deixado iludir pela frase de Wittgenstein “Ordinary language is all right” que, no seu contexto, visava denunciar “ a tendência de nossa época em restringir as possibilidades de expressar a personalidade” que, em lugar de aspirar à clareza , procura estruturas cada vez mais complicadas para empurrar os homens cada vez mais para a margem. “A própria filosofia” – dizia Wittgenstein, que se expressava por silogismos e aforismos – “deveria realmente ser escrita apenas como uma forma de poesia”.

Acontece que esta forma de poesia, embora composta em ordinary language, exige uma intensa contemplação para ser penetrada. Que o digam os meios de expressão  da poesia oriental, que Wittgenstein preferia aos da cultura ocidental (“ permanece o fato que eu considere sem simpatia a cultura europeia, nem compreenda seus fins, se é que os tem” dizia o filósofo ( em suas Lições  de 1930-32).  Que o digam certos poemas, por exemplo, o  do americano Robert Creeley, um grande adepto de Wittgenstein:

CANÇÃO

O que está no corpo e você esqueceu

e o que você pôs de lado

e o que você não quer-

ou o que está no corpo e você quer

e pela qual maneira-

e acha que é tudo-

se a vida é uma forma que se esquece

quando você se vai não há falta,

ninguém está no que você foi-

esse lugar vazio é só o que há,

e/se o rosto não some

ou o cão late, o gato está com fome.

 

Este poema, lido durante uma audição de poesia do poeta Robert Creeley , por ele mesmo, na Biblioteca do Memorial da América latina, em 13/05/1996 , foi  traduzido por Régis Bonvicino e  analisado por Marjorie Perloff, junto com outros poemas  dos poetas do Grupo LANGUAGE, sendo  que o músico e professor José Miguel Visnik analisou, do mesmo poeta, “A rima”:

 

 

 

 

THE RHYME                                                      A RIMA

There is the sign of                                          Há o signo da

the flower                                                        flor

to borrow the theme.                                       a emprestar o tema.

 

But what or where to recover                          Mas o que e onde recobrar

what is not love                                               o que não é

too simply.                                                    amor simplesmente.

 

I saw her                                                        Eu a vi

and behind her there were                              a atrás dela havia

flowers, and behind them                              flores, e atrás delas

nothing.                                                         nada.

 

O poeta evita fixar o que diz, evita se prender ao instrumento com que diz, mantém o desejo de dizer algo que é última instância, literalmente: é um desejo tensional, com um impulso metaforizador onde a figuração aparece para se desfazer ao mesmo tempo. A música da fala é algo pontual, mais rítmico, com mais ataques do que intenções melódicas. Não privilegia as curvas. Não privilegia o verso como unidade sonora (dentro do verso, as palavras são lidas como pontos), dá um peso a cada sílaba, a cada palavra. Transacústica? Não por um modelo melódico, mas acentual e timbrístico. A música da fala corresponde a esse desejo de apreensão literal daquilo que está na palavra e quer escapar da palavra. Pelo repertório da linguagem da poesia percebe-se que há algo além do objeto: há uma cadeia que vai do significante (o som da palavra) ao signo (flor) e do signo a outro significante vazio (amor), que ainda não pode ser dito, até o núcleo ideogramático do poema (eu a vi). Dá-se uma ressonância em eco entre um significante e uma referência que escapa para o vazio, cria-se como que uma cadeia em que, através da imagem dissipa  a imagem. É dado o nome à coisa, mas sem querer ontologizar nem a coisa, nem o nome dela, sem querer dar à coisa e ao seu nome nenhuma característica universal.

 

Ou, então,  o diga o  russo Velímir Khlébnikov, em cujos poemas – como diz Mario  Perniola ( O sex appeal do inorgânico – p.117-118 )– “a coisalidade não tem nada a ver com o realismo cognitivo que afirma a realidade do mundo externo e a  sua transcendência a respeito do pensamento :  busca  experiências-limite que ampliam, ao mesmo tempo, os horizontes do sentir e do saber” :

Eu dou um novo sentido à morte

Ao comandar as nuvens, ao atirar à terra o trovão branco

Leis da natureza, arreganhai vossos dentes!

Ou então trazei pedras para meus recantos.

Enchei o Eu de auroras, o céu de si próprio

Para saber como da mão treme e se deslancha o raio.

(Poema sem título – tradução minha)

Ao mesmo tempo, Ludwig Wittgenstein, em seus escritos, faz referência a um tipo de experiência que tem relações com a sexualidade neutra do sex appeal inorgânico. E agora me refiro, novamente, a observações de Mario Perniola. De que maneira? Vendo qualquer entidade, inevitavelmente expressa através de qualquer tipo de linguagem, ora como uma coisa, ora como outra. ( Ora como se diz, ora  como se mostra?) Desenhos, trechos musicais, esculturas, e principalmente, escrituras. Não se trata de um fenômeno de interpretação, pois não é este que interessa ao filósofo, mas sim “a rapidez pela qual vejo algo sob um novo aspecto (Wittgenstein, Conversações filosóficas II, XI p. 136), o cintilar imprevisto de um novo sentir, a imposição, de um modo sensorialmente incontestável, de uma sensação imprevista e imprevisível: como é que eu , no mesmo desenho, vejo instantaneamente uma lebre em vez de um pato? Como é que esse novo aspecto se acompanha de uma cintilação, do acender-se de uma aparência?… Se o pensar fosse um discorrer, como disse Platão e não um sentir, como parece propor Wittgenstein, faltaria completamente a fulminante rapidez (o cintilar) que nos permite exclamar: … ´agora consigo!` ou então: ´mudou tudo!´”(…). Wittgenstein  recusa seja a primazia do espírito, seja a do corpo e trata de abrir, para o sentir, um novo horizonte.( fundindo-os?) Nele superam-se as barreiras entre orgânico/inorgânico, animado/inanimado, homens e coisas.”

O fato de alguém ler muitas obras  literárias,  para  concluir, diz   Harold Bloom ( citado por Rorty a partir de How to Read and Why), leva-o a ter consciência de muitas possíveis alternativas ( alternative purposes), e o que importa desse processo é que esse alguém se torna um self autônomo. Essa autonomia, que tem muito a ver com aquilo que Heidegger chama autenticidade,  passa a ser o traço distintivo do intelectual. Só quem lê livros para saber quais alternativas poderia  ter é um intelectual: outros há que os leem por distração, lazer ou entretenimento, mas apenas o intelectual  busca neles o que  Rorty chama de redenção – um conjunto  de crenças que finalmente  coroará o processo de reflexão sobre o que fazer de si mesmo. No Ocidente, o intelectual  esperou essa redenção primeiro de Deus, depois da  filosofia e, finalmente, da literatura. Isso porque a literatura permite que se trave conhecimento com uma grande variedade de seres, a que foi dado  o nome de Deus  ou de Verdade, respectivamente pela religião e pela filosofia.

 

15/12/2011 – Vídeo enviado por itaucultural

*Com Aurora Bernardini(SP/Brasil), tradutora, crítica e professora, e Mario Perniola (Itália), filósofo, escritor e crítico. Philosophy as Cultural Politics: Philosophical Papers IV. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

 

[1] Vejam-se também os ensaios de György Lukács, de 1911, e de Theodor Adorno, de 1951.

[2] AGAMBEN, Giogio. Nudez. Portugal: Relógio D’Água, 2010, p.13.