“Tomboy” – Aurora Bernardini

“Tomboy”


Aurora Bernardini*

Ultimamente tem estado em cartaz uma série de filmes franceses bons, não apenas por serem  condecorados com várias estrelas  nos principais jornais do país, mas porque têm apresentado alternativas – muito bem-vindas – à visão globalizada  ( leia-se, entre nós, americanizada)  de como solucionar problemas, graves ou delicados, ou mesmo  problemas mais próximos de certos “clichês”( usarei aspas para os clichês que forem aparecendo),  resolvidos  globalmente pela lei do talião, ou  pela lei do “ espetáculo”, ou pela lei da força (policial) “ex-machina” . Só em janeiro deste ano (2012) assisti a três, entre os vários  que entraram no circuito: “Adeus, primeiro amor”; “O garoto da bicicleta” e “Tomboy”.

Cada  um deles toca numa uma questão candente. O primeiro, “Adeus, primeiro amor” ( direção de Mia Hansen-Love), trata  de  um caso em que  o amor se torna tão obsessivo – e  não apenas na adolescência – a ponto de  transformar-se  em  doença, com sua cura aparente e suas recaídas, somente resolvidas ( sem remédios e sem sessões de psicanálise) pelo esvaziamento do ser ( objeto) amado – conforme ensinam os gregos (antigos) – e pelo amor por si mesma que vai se tornando, junto com a  atividade, a única referência estável no tempo que inevitavelmente vai passando. 

O segundo, “O garoto da bicicleta” ( direção de Jean-Pierre Dardenne e  Luc Dardenne), trata de um caso curioso em que um rapazinho  recém recolhido a uma instituição  de menores abandonados ,  ainda não “ contaminado” mas de bons princípios , justamente por esses bons princípios (a fidelidade à  palavra dada) acaba sendo “ manipulado” por um  delinquente e comete um roubo.  A cabeleireira, muito firme e senhora de si que havia consentido em acolhê-lo durante os fins de semana ( conforme hábito da pequena comunidade local) e que lhe havia proibido de  frequentar o delinquente, não só compreende os seus motivos  e o acompanha até a “defensoria” local  para que ele se desculpe com a vítima do furto e devolva o dinheiro roubado, mas  não vacila em dar-lhe a chance de continuar  a “ se encontrar”. O menino se encontra: não apenas denuncia o delinquente , mesmo  que este o tenha ameaçado de retaliação, mas  compreende que sua lei é “ aqui se faz, aqui se paga”. Dito e feito. O filho da vítima roubada não aceitou as desculpas  que ele apresentou ao pai e quando o encontra agride-o quase a ponto de matá-lo e… ninguém garante que o delinquente, ao sair da prisão, não queira se vingar. A única referência válida que o sustenta, enquanto aprende a viver,  é  a firmeza da cabeleireira num  afeto que, ele sente, não o abandonará.

O terceiro, “Tomboy” ( direção de  Céline Sciamma), sobre o qual vou deter-me um pouco mais, é o mais sintomático por tocar  justamente  numa questão que até pouco tempo atrás, tratada de forma sumária,  tem sido  um  tabu, e que atualmente,  tratada de forma espetacular,  se transformou em reivindicação: o homossexualismo ( ou, no caso do filme,  a suspeita de).
A trama é simples. Um casal “feliz”, à espera do terceiro filho, muda-se com as duas filhas ( 11 e 6 anos, respectivamente) para um apartamento, em  um novo endereço.

As meninas se dão bem: a menor tem cabelo comprido e usa roupas e adornos  tradicionalmente vistos como “femininos”  e a maior, Laura, tem cabelo curto. Além disso usa calção e camiseta  o que , fora de casa, poderia  confundi-la com um menino. É justamente disso que ela se aproveita quando se sente impelida a se misturar com o grupo de moleques dos prédios vizinhos que se encontram às tardes para folguedos infantis. Entre eles há uma menina de mais ou menos a idade de Laura que se aproxima dela com simpatia patente e lhe pergunta o nome: Micael, responde Laura. Aos poucos Micael se insere e é respeitado pelo grupo, sendo protegido, acarinhado e, gradualmente, admirado pela menina.

A irmãzinha – por sinal  uma atriz portentosa – descobre o novo nome da irmã e promete calar-se em troca de ir brincar às tardes junto com  Micael e as outras crianças. Tudo procede muito bem, até que um dia Micael, em defesa da irmãzinha que havia levado um empurrão, briga e bate num outro menino.

Chegando em casa,  prevendo  as complicações nas quais se meteu, Laura abraça o pai com quem costuma brincar e lhe pergunta se não seria possível irem morar noutro lugar. Como assim – diz o pai, sempre brincando –   se mal  acabamos de mudar!

À noite toca a campainha na casa da família feliz: é o menino agredido e a mãe dele que vem pedir satisfação. A mãe de Laura responde – laconicamente e sem dramatização, mas com firmeza – que irá castigar “o filho”.  Diante do fato, depois que a vizinha foi embora, os pais de Laura ficam sabendo da história toda.

É aqui que o desfecho do filme se diferencia de qualquer desfecho globalisante ( leia-se, aqui, psicanalisante). Os pais, que amam a filha, dizem a ela que a questão tem que ser esclarecida, inclusive porque irão começar as aulas e o nome verdadeiro dela, como matriculada na escola,  virá à  tona.

A mãe pede-lhe que vista seu vestidinho ( por sinal simples, não cheio de adornos como o da irmãzinha) e que vá com ela, primeiro à casa da mãe do menino agredido e depois, sozinha, junto aos meninos  com os quais havia brincado, para esclarecer a situação. No caminho, a mãe, cordata e firme, ao deixar  a  filha  esperando-a no corredor da casa da vizinha , diz -lhe calmamente  que isso não é castigo algum mas que a explicação é necessária. Laura ouve e concorda em silêncio e, em silêncio é surpreendida de vestido  pela menina que lhe havia mostrado afeição, durante as brincadeiras .
No encontro com os moleques que – sabe-se – são radicalmente  cruéis, há um começo de agressão, verbal e de fato, mas a menina simpática insiste que cabe a ela, como menina, se entender com Laura. Vão juntas ao bosque onde costumavam “namorar” quando Laura era Micael, e a menina simpática, sem nada falar, dá um beijo na face de Laura.

Na casa da família, acaba de chegar o irmãozinho: as duas irmãs se abraçam, felizes,  com a mãe, o pai e o recém-nascido.

Moral da história: em casa tudo é tratado naturalmente como se o homossexualismo ocasional de Laura fosse tão-somente uma das fases normais do crescimento. O que importa e a reassegura é o afeto seguro que ela sente nos pais: ela mesma não pode saber ainda se sua “ dominante” será hetero- ou  homossexual.

Mas – digamos – mesmo que em Laura a tendência homossexual não seja apenas ocasional e que ela, mesmo que inconscientemente, já sinta isso: o que a reassegura, num caso ou no outro, é o afeto constante da menina simpática.
A equação com duas incógnitas se resolve com dois tipos de afeto, duas referências seguras, sem a intervenção de medidas retumbantes ( leia-se, traumatizantes).

* Escritora, tradutora e ensaísta, professora de literatura russa na USP