Jorge Bodanzky, o artista múltiplo — Marina Veshagem

Jorge Bodanzky, o artista múltiplo

Marina Veshagem*

Jorge Bodanzky

Em 1974, em plena ditadura militar no Brasil, ele realizou um filme sobre como as comunidades amazônicas eram afetadas pelo regime, apesar da propaganda dominante ser de um desenvolvimento nacionalista pleno. Iracema, Uma Transa Amazônica não foi aceito no Brasil, sob a desculpa de não ser brasileiro, por ter sido uma coprodução alemã.

Além de ser conhecido pelos documentários – ou docudramas, como ficaram conhecidas as obras do cineasta, que misturavam as linguagens de documentário e ficção -, realizados principalmente nas décadas de 70 e 80, Jorge Bodanzky tem um envolvimento muito forte com a fotografia. A identidade visual do Festival É Tudo Verdade colocou em destaque, em 2011, a sua obra fotográfica (http://jorgebodanzky.blogspot.com.br/). Bodanzky, artista sempre engajado e crítico, fala ao Qorpus sobre sua experiência profissional, sobre o trabalho do ator e aponta caminhos para a produção artística hoje no Brasil.

 

Muito do que você já realizou se encaixa no que se chama de docudrama. Como você entende essa denominação, você acredita que ela se encaixa no seu trabalho?  

Essa questão do docudrama, da mistura dos estilos documentário e ficção é uma discussão que praticamente não tem fim. Essa história entrou na minha vida a partir do meu trabalho. Eu comecei como documentarista, como fotógrafo de imprensa, fazendo documentação com fotografia. Entrei pelo cinema também, com o registro de documentário. O primeiro grande trabalho que eu fiz foi “Iracema” e, para poder contar essa história, eu queria dois atores. Eu achava que não ia encontrar essas figuras no real, então introduzi dois atores no ambiente real e misturei a ação dos atores com a ação dos não atores. Isso foi em 1974, e naquela época isso não era discutido, ninguém falava se era documentário, drama, ou docudrama, essa expressão não era usual. Eu fiz isso intuitivamente e, depois do filme pronto, é que se começou a chamar de documentário, e de ficção, e dos dois. Então foi assim que o docudrama entrou na minha vida.

Sobre os dois atores que participaram de “Iracema”, como é o trabalho do ator num filme como esse, desde a seleção, até a preparação e atuação?

É complicado você introduzir atores e querer que eles contracenem num ambiente realista com não atores. Eles têm que se encaixar nisso de uma maneira suave, porque senão fica esquisito, de repente tem um não ator sendo ele mesmo e um ator ali interpretando, isso não funciona, cria um embate, não convence o espectador. Então o ator tem que ser muito bom, ele tem que atuar como se fosse um não ator para não destoar. Porque o não ator é ele mesmo, ele não atua, ele esta lá e ele e como ele é, quem tem que se virar para se encaixar nisso, é o ator. Então é um trabalho muito interessante para o ator.

Você já disse que não acredita que a distinção entre documentário e ficção seja relevante. Em termos de potência a imagem, de montagem, como você acredita que se produza um bom filme?

Existem filmes bons e filmes ruins, não tem nada a ver com ele ser documentário ou ser ficção. Um bom filme tem que ter certa verossimilhança, tem que passar para o espectador uma verdade, fazê-lo acreditar naquilo que esta acontecendo na tela. Pode ser um filme de humor ou dramático, mas ele tem que ser crível. Se o espectador não acredita no que está acontecendo, o filme é ruim, o filme não está passando a mensagem.

E com relação ao roteiro?

É a mesma coisa. O roteiro, no meu caso, por exemplo, não é feito de uma forma convencional, não é um roteiro com cenas detalhadas, nem com diálogos pré-escritos. Porque no caso da mistura de realidade com ficção, se você amarra demais o diálogo, você tira a liberdade do ator, e ele tem que improvisar para se encaixar no modelo do não ator. Se ele está com o diálogo armado, isso não é possível, os diálogo do ator e do não ator vão brigar. Então o roteiro para o meu estilo de cinema é apenas indicativo, ele é mais um guia de trabalho do que um roteiro convencional. A câmera também tem que ter liberdade, eu não posso estar com uma câmera preestabelecida, que vai fazer tal plano e usar tal lente. Eu tenho que ter liberdade na hora de escolher a posição de câmera, enfim, ter liberdade de fazer a câmera que eu interpreto naquele momento, então isso não pode estar preestabelecido num roteiro. O que está preestabelecido no roteiro é a intenção daquela sequência, daquela cena.

Você produziu bastante durante a ditadura no Brasil, período em que as liberdades individuais eram cerceadas. Quais mudanças você viu se efetivaram no campo da produção artística desde então?

Nessa época, o principal objetivo do nosso trabalho era lutar contra a ditadura. Era um trabalho político, a gente usava o cinema para atuar politicamente. Uns iam para a guerrilha, outros iam trabalhar em sindicatos, outros para o movimento operário, outros para a igreja, eu fui para o cinema. O cinema era para mim uma arma política para lutar contra a ditadura. Quando acabou a ditadura, evidentemente isso não fazia mais sentido, mas os problemas continuam, os filmes documentários continuam lidando com a questão social do Brasil até recentemente. No Meio do Rio Entre as Árvores é um filme que trata da questão do direito dos ribeirinhos. O último filme que eu fiz, o Transanarquia, trata da questão da liberdade na internet. Então acho que muda a forma de lutar, mas não muda o objetivo.

Você acredita então que exista uma função social do artista?

Eu acho que o artista sempre tem uma função social. Mesmo aquele que a gente pode chamar de alienado, se ele é bom, está sempre inserido na sociedade, com uma visão crítica. Se o artista não for transgressor, se ele não for crítico, ele fica sem valor. Toda boa arte é transgressora.

Você já disse que é o artista quem vai apontar o caminho, para onde vamos. Você consegue ver isso acontecendo hoje?

Sim, isso acontece em toda boa arte, a arte sempre antecedeu os fatos. Os artistas, pela sensibilidade, pela liberdade de expressão que eles podem ter, antevêm aquilo que vai acontecer. Então, não é assim uma previsão de cartomante, mas eu acho que a arte sempre antecede os grandes movimentos culturais da sociedade.

E o que te anima do que é produzido artisticamente?

A arte hoje está muito complexa e, por outro lado, está muito presente. Ela saiu do âmbito fechado dos museus, das galerias e está nas ruas, está em todo lugar, em tudo hoje você põe se manifestar artisticamente. Enfim, o artista hoje é múltiplo, ele atua de forma múltipla. Acho que a gente vive um momento muito interessante, também na divulgação da arte. A internet liberou muito a arte dos lugares tradicionais de atuação e lançou para todo mundo.

E quais são os seus planos para o futuro, ou para os próximos anos, pelo menos, se é que dá para fazer uma previsão?

Não da para prever, a gente vive um pouco o dia. Carpe diem, viver um dia após o outro. Primeiro porque quando a gente fica mais velho, a sensação do tempo fica mais premente; é mais importante realizar algo agora do que daqui a dez anos. Mas o trabalho tem que ter certa coerência, objetivo. Eu trabalho com a imagem, com a interpretação da imagem. Em algum momento eu voltei um pouquinho as minhas origens. Eu comecei como fotógrafo e estou me dedicando bastante à fotografia. Não que eu me desinteresse pelo cinema, pois o tipo de cinema que eu faço, para mim, ainda é bastante estimulante, mas por uma série de razões e coincidências, a fotografia está me estimulando muito, então eu estou trabalhando com muito prazer em fotografia.

*Jornalista, aluna do curso de artes cênicas da UFSC.