AS DUAS MORTES DE ROGER CASEMENT – DOMINGOS NUNEZ

AS DUAS MORTES DE ROGER CASEMENT
DOMINGOS NUNEZ

Peça-documentário musicada baseada na bibliografia de Sir Roger Casement

Personagens:
• Sir Roger Casement
• Alice Milligan
• Procurador-Geral da Coroa, Sir Frederick Smith
• Sr. A.M. Sullivan, advogado de defesa
• Juiz do Supremo Tribunal da Inglaterra, Visconde Reading
• Xerife da prisão de Pentonville
• Basil Thomson, chefe da Subdivisão Especial da Scotland Yard
• Juan Tizon, representante peruano da Peruvian Amazon Company
• Henry Gielgud, membro da Comissão inglesa de investigação
• James Chase, súdito de Barbados
• Padre Thomas Carey
• Dr. Crippen
• Autêntico
• Forjado
• Homem 1
• Homem 2
• Homem 3
• Homem 4
• Homem 5

Cenário: peças de mobiliário antigo de tamanhos, formatos e volumes variados estão dispostas sobre o palco de modo a criar os múltiplos locais de ação. O conjunto deve remeter simbolicamente a ambientes burocráticos e vagamente à formação geológica conhecida como Giant’s Causeway, situada em Antrim, na Irlanda do Norte.

INTRO
Casement se encontra deitado imóvel sobre o chão frio da prisão de Pentonville. Alice Milligan entra com seu pelotão de soldados esfarrapados.
Canção: Shan Van Vocht
ALICE – Desperta, desperta, desperta
Valente rebelde das selvas
Escuta meu canto atravessando as marés.
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
ALICE – Sou eu: Shan Van Vocht
A velha pobre, o nome da tua terra.
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
ALICE – Toquem os tambores, guerrilheiros invoquem
As bravuras desse grande herói nacional.
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
ALICE – Logo irá raiar um novo dia,
Um dia de paz, alegria e liberdade
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
Rainha. Irlanda é teu nome
Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.

LADO A
Prisão de Pentonville em Londres. 1916. Enquanto os guerrilheiros de Shan Van Vocht continuam tocando tambores, Alice espera por Casement no locutório.
XERIFE – Visita.
CASEMENT – Quem é?
XERIFE – Uma tal Alice Milligan.
CASEMENT – (surpreso) Alice?
Ele levanta-se com dificuldade e tenta limpar o uniforme sujo. Eles se dirigem para o locutório.
XERIFE – Tua cara apareceu de novo hoje na imprensa.
CASEMENT – O gabinete recusou o pedido de clemência?
XERIFE – Ainda não. Mas vai recusar. E Sua Majestade, o Rei, também vai.
CASEMENT – O rei não é meu. É de vocês.
XERIFE – (depois de observá-lo atentamente) Que porcarias você andou fazendo no meio da selva, meu amigo?…
CASEMENT – Não sou teu amigo, xerife.
XERIFE – Uma nojeira só. Vocês têm dez minutos.
Os tambores cessam. Locutório. Alice está vestida como na cena de abertura, mas com alguma variação sutil.
CASEMENT – Alice. Eu não esperava te ver.
ALICE – Foi tão difícil chegar aqui, meu amigo. Achei que não fosse conseguir.
CASEMENT – (evitando o abraço de Alice) Fique longe de mim. (apontando o uniforme e tentando descontração) Devo estar fedendo… Não me deixam mais tomar banho.
ALICE – (um pouco ansiosa) Não acredito que consegui chegar aqui… (dando-se conta de que o material escrito que queria mostrar não se encontra com ela) Só que agora… Eu queria tanto te mostrar… eu escrevi um monte de coisas que dizem respeito a você… mas os guardas me tiraram tudo na entrada.
CASEMENT – Não tem importância, querida Alice. Estou com dificuldades pra ler.
ALICE – (depois de uma pausa) Fico tão triste de te ver nesta prisão… Mas fique sabendo que estamos todos mobilizados escrevendo petições e recolhendo assinaturas, mesmo depois que… não sei o que dizer sobre essa campanha indigna que estão fazendo contra você… O que estão dizendo é verdade?
CASEMENT – As notícias de fora chegam de forma vaga até aqui, Alice, e os carcereiros têm ordem de não me dirigir a palavra. Só o xerife fala comigo, mas é para me insultar.
ALICE – Estão divulgando coisas horríveis sobre você. Coisas que… dizem… estão registradas em diários que você escreveu…
CASEMENT – Eu escrevi muitos diários na selva, querida Alice, e não sei o que a imprensa anda falando de mim porque… (cambaleando) aqui não chegam jornais.
ALICE – Você está bem?
CASEMENT – Não. Veja o lugar para onde me trouxeram. Olhe para mim. Quase não consigo mais me lembrar do nome das pessoas e dos lugares onde estive… (confidencialmente) Eu estou ouvindo as vozes… Agora eu escuto as vozes, Alice… o julgamento fica se repetindo aqui dentro (indicando a cabeça)… consegue ouvir?
PROCURADOR-GERAL DA COROA – O réu Sir Roger Casement, presente neste Tribunal, está sendo acusado de um crime muito grave. (diretamente para Casement) A Lei não conhece crime mais grave que o teu.
CASEMENT – Primeiro vem o Procurador-Geral da Coroa… Depois vem a voz do Juiz do Supremo e a fadiga rouca de Sullivan…
ALICE – Shhh! Agora eu estou aqui com você… Fique tranquilo… Respire. (pausa) Posso te contar uma coisa?
CASEMENT – Que coisa?
ALICE – Promete não se assustar?
CASEMENT – Com o que?
ALICE – Você não vai ficar mais alegre por causa disso.
CASEMENT – Diga.
ALICE – Eu previ o teu julgamento vinte anos atrás em escritas automáticas, em visões e sonhos. Eu já sabia que isso iria acontecer.
CASEMENT – (voltando a ouvir as vozes) Como?… você… é uma visionária?
ALICE – Acho que sou mais uma inteligência sensível… nós nunca falamos disso… eu nunca te contei, mas eu consigo, às vezes, decifrar informações ocultas.
CASEMENT – (confuso) Se você é uma visionária, consegue ver os rostos dos meus acusadores, Alice? Consegue ouvir o que estão dizendo?
PROCURADOR-GERAL DA COROA – O réu aqui presente serviu a Coroa como cônsul de Sua Majestade na África e na América do Sul. (sarcástico) Ele é um homem habilidoso e culto, versado em assuntos de Estado e questões políticas. Mas não se deixem enganar, meus senhores. (diretamente para Casement) Tuas atitudes foram sinistras e muito perversas.
CASEMENT – Não quero ouvir essas vozes. Diga pra ele parar, Alice.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Pelos serviços prestados na África, ele foi condecorado por Sua Majestade com a Ordem de São Miguel e São Jorge. E um detalhe de extrema relevância para o caso, meus senhores: ele não desdenhou distinção tão honorífica.
CASEMENT – Pare, pare!
ALICE – (abraçando Casement) Shhh! Shhh! Procure se acalmar, querido amigo… Eu estou aqui contigo… (pausa) Você não gostaria de ouvir outras vozes?
CASEMENT – Não… Que vozes?
ALICE – Não me deixaram entrar com minhas anotações… mas eu acho que consigo me lembrar das mensagens… As coisas que chegaram até mim… Elas vieram em intervalos de tempo, às vezes de vários meses… Eram visões separadas que foram se encaixando como um quebra-cabeça imaginado para ilustrar um poema.
CASEMENT – Você é tão gentil… Notei tua presença no Tribunal… todos os dias… E agora… esta visita. Eu só pedi que você escrevesse poemas sobre mim.
ALICE – Você merece muito mais do que isso. As pessoas precisam conhecer tua história, precisam saber o que você fez e o que conseguiu conquistar.
CASEMENT – Eles querem a minha morte, Alice. Nada mais lhes dará satisfação.
ALICE – Nem todos estão contra você, Roger. Não se esqueça daqueles que te admiram, como eu, e que estão orgulhosos do trabalho extraordinário que você realizou.
CASEMENT – Cometi erros terríveis… me confundi e falhei; mas você está certa, estive muito próximo de feitos grandiosos… no Congo e na Amazônia.
ALICE – Sim. É disso que devemos nos recordar agora. (emocionada) Pense nisso: você subindo as águas do Congo e do Amazonas sob o sol escaldante e chuvas torrenciais, em direção às aldeias remotas que aguardavam tua ajuda…
CASEMENT – (aflito) Por favor, Alice… Eu não sei se quero me lembrar disso… Nosso tempo está acabando… o xerife vai voltar pra te mandar embora… Por favor, não me deixe aqui sozinho…
ALICE – Não tenha medo. Vamos usar da minha visão esplêndida. Feche os olhos. Ouça o murmulho dos rios e o arfar dos barcos singrando a correnteza. Tantos rios… tantas margens… tantos povos por libertar.
Canção: Os Rios
ALICE/ CASEMENT/ CORO – Amazonas. Caquetá. Napo. Putumayo
Amazonas. Caquetá
Congo. Kasai
Shannon. Liffey. Barrow. Lee
Shannon. Liffey
Tâmisa.
CASEMENT – Percorrendo rios e regatos no coração das selvas, na África e na Amazônia Alice, durante dias e noites sem fim, eu tive a certeza de que o homem é infinitamente inferior aos anjos.
Canção (continuação):
ALICE/CASEMENT/ CORO – Amazonas. Solimões. Madeira. Tapajós
Amazonas. Solimões
Congo. Lulongo
Shannon. Liffey. Barrow. Lee
Shannon. Liffey
Tâmisa.
ALICE – Repare onde chegamos. Estado Livre do Congo. 1903. (Tableau: invasão a uma vila africana no alto do Rio Congo. Neste quadro vemos moradores de uma vila sendo maltratados por seus opressores belgas) Mulheres fugindo para o mato com seus filhos; o sangue jorrando de corpos negros e trêmulos; soldados invadindo vilas e ateando fogo em todas as casas… e cestos cheios de mãos decepadas.
CASEMENT – Eles não eram guerreiros. Eles não queriam lutar.
ALICE – Não, eles não queriam. Mas o que podiam fazer para se defender das políticas do rei Leopoldo II, da Bélgica? (Tableau: atrocidades cometidas na África) O Estado do Congo era o quintal privado do rei. Seu exército forçava os nativos a extrair toda a borracha que pudessem encontrar na selva. Foi você, Roger, como cônsul de sua Majestade em Boma, que revelou ao mundo as atrocidades que estavam sendo cometidas no coração das trevas.
CASEMENT – O meu coração ficou comovido com as injustiças que vi serem cometidas no Congo. Fiz tudo que pude para que deixassem de existir.
ALICE – Tua atuação foi ainda mais brilhante durante a viagem que fez até o alto do rio Amazonas, desta vez como cônsul de Sua Majestade no Rio de Janeiro.
CASEMENT – (com afeto) Ah, os índios! A “civilização” exigiu que colhessem o que eles nunca plantaram.
ALICE – Percebe onde estamos agora? Amazônia peruana. 1910. (Tableau: índios amarrados sendo açoitados durante um carregamento de borracha à margem do rio) Atrocidades ainda mais abomináveis estão sendo cometidas no interior da floresta. Outra vez em nome da borracha. A história se repete. Os criminosos agora são Julio Arana e o capital inglês. Quanta fadiga, inúmeros maus-tratos, nenhuma comida e muito sangue derramado.
Canção: Crimes
CORO – Crimes, crimes, crimes, crimes.
ALICE – Crimes. Estação Abissínia.
CORO – Crimes, crimes, crimes.
ALICE – Estação El Encanto.
CASEMENT – Estação Savana e Santa Catalina.
CORO – Crimes, crimes.
ALICE – Crimes. Estação Entre Rios.
CASEMENT – Os Chefes de Estação a mando de Arana:
ALICE – Fonseca, Jiménez, Aurélio e Aristides Rodriguez.
CASEMENT – Agüero, Fidel Velardez, O’Donnell.
CORO – Crimes, crimes, crimes.
ALICE – Armando Normand. Estação Matanzas.
CASEMENT – (falando) Perdido no meio daquela floresta desencantada, eu acabei por encontrar a mim mesmo, Alice.
ALICE – (falando) O guerreiro celta pronto para a revolução.
A Canção continua.
CORO – Vítimas. Tantas vítimas.
CASEMENT – Iquiro, Torena, Chato, Barecayé.
ALICE – Gaidacatay, Nacaycumuy, Sofia, Ruiteque, Salvador, Epondo.
CASEMENT – Katenere e sua esposa.
CORO – Crimes, crimes. E mais crimes.
Estação Entre Rios. 1910.
CHASE – Eu estou com medo, seu Cônsul.
CASEMENT – Você não precisa mentir pra mim, Chase.
CHASE – Eu não guardei dinheiro… Acho que estou devendo pra Companhia. Mas se conseguir pagar, fico livre e posso ir embora, não é?
CASEMENT – Claro, Chase. Sente-se. (Ele senta-se e Casement acende um cigarro) Conte-me a verdade. Os índios estão sendo açoitados?
CHASE – (depois de uma pausa) Faz mais de quatro anos.
CASEMENT – E quem faz esse serviço?
CHASE – Os muchachos de confiança.
CASEMENT – (fazendo anotações) Você também faz esse serviço?
CHASE – (depois de pensar um pouco) Às vezes eu faço.
CASEMENT – Por que os índios são açoitados?
CHASE – Por se recusarem a colher borracha ou por não trazerem a quantidade exigida.
CASEMENT – (sentando-se ao lado de Chase) Você entende, não é Chase, que você e seus conterrâneos foram trazidos de Barbados para fazer o trabalho sujo?
CHASE – O senhor vai nos ajudar?
CASEMENT – Estou aqui para isso. Barbados é uma colônia da Inglaterra. Vocês são, portanto, súditos ingleses e não foram contratados para açoitar índios. Estou aqui para defendê-los. A empresa de Julio Arana está usando vocês para escravizar e matar índios.
CHASE – Mas eles podem nos incriminar, não podem?
CASEMENT – Mesmo assim, é muito importante que você não minta. Eu vim de Londres com uma Comissão para investigar denúncias que foram feitas contra a empresa do senhor Arana. Essa empresa possui capital inglês; vocês são súditos ingleses e, portanto, estão protegidos pelas leis inglesas. Você compreende isso, não é?
CHASE – Os culpados são eles, mas vão dizer que a culpa é da gente.
CASEMENT – Confie em mim. A Comissão está comigo. Estamos todos do teu lado.
CHASE – O que o senhor quer saber?
CASEMENT – Você se lembra de quanta borracha um índio é obrigado a trazer?
CHASE – Uns 20 quilos a cada quinze dias até completar um fabrico.
CASEMENT – Um fabrico?
CHASE – 50 ou 60 quilos por homem. Três vezes por ano.
CASEMENT – Então cada índio é obrigado a trazer de 150 a 200 quilos de borracha por ano?
CHASE – Sim senhor.
CASEMENT – O que eles recebem por isso?
CHASE – Por um fabrico de quatro meses, recebem um facão. Por dois fabricos, uma rede ou uma escopeta sem munição.
CASEMENT – Quer dizer que um homem é forçado a trazer borracha; é cruelmente espancado se não a trouxer, ou sua mulher e filhos; é aprisionado; escravizado; passa fome e, como recompensa, pode receber, no máximo, uma escopeta sem munição?
CHASE – É isso mesmo, sim senhor.
CASEMENT – (em um ímpeto) Ah, Chase, como eu gostaria de conseguir munição para esses índios; como gostaria de poder treiná-los para enfrentar seus inimigos e defender os valores, costumes e tradições de sua Nação.
CHASE – Do que o senhor está falando?
CASEMENT – Se esses índios selvagens fossem fortes e determinados como os africanos, já teriam dado um fim a esses saqueadores e assassinos. A simplicidade deles vai levá-los ao extermínio. Um único rifle nas mãos desses facínoras é capaz de intimidar uma tribo inteira.
CHASE – O senhor quer que eles nos ataquem?
CASEMENT – Não, vocês não Chase.
CHASE – Mas somos nós que andamos armados e vamos em busca deles.
CASEMENT – Eu sei, mas não é isso… é… (pausa) Nunca houve um índio ou uma tribo que se rebelasse contra o chefe de Estação e seus comparsas?
CHASE – O cacique Katenere.
CASEMENT – (anotando) O cacique Katenere…
CHASE – Ele matou Bartolomé Zumaeta, cunhado de Julio Arana. Depois roubou rifles e armou outros de sua tribo para matar brancos.
CASEMENT – Katenere …
CHASE – Ninguém conseguia pegá-lo. Organizaram muitas expedições com muchachos de confiança armados até os dentes. Aí pegaram a mulher dele e alguns índios na floresta com rifles roubados.
CASEMENT – O que aconteceu com eles?
CHASE – Mataram alguns… ou deixaram morrer de fome; outros ficaram no cepo pra ser amansados. A mulher de Katenere foi violada em público e parece que ele viu tudo, porque veio atrás dela e atacou a Estação.
CASEMENT – (parando repentinamente de anotar) Sozinho?
CHASE – Sozinho.
CASEMENT – Ah, se os índios fossem mais fortes. Se tivessem habilidade para organizar um exército em favor de Katenere e de seu povo, talvez conseguissem se libertar das garras de seus conquistadores.
CHASE – O senhor é um revolucionário?
CASEMENT – (acendendo um cigarro) Conte-me o que aconteceu com Katenere.
CHASE – (com certa hesitação) Eu tinha saído do meu quarto quando vi um índio escondido atrás de um tronco. Os homens que estavam na casa já tinham percebido o movimento e foram ver o que era; um deles que não tinha arma, levou a minha. Logo ouvi gritos de “é o Katenere, é o Katenere”, “ele voltou, ele voltou”. Então ouvi tiros. O homem que tinha levado a minha arma voltou ferido e eu perguntei: “onde está minha arma?” e ele disse que tinha caído no caminho. Os outros voltaram logo depois e não sabiam dizer se tinham atirado no índio ou não. Estava muito escuro.
CASEMENT – Ele conseguiu escapar?
CHASE – Não conseguiu, não senhor. Foi encontrado morto no dia seguinte. Fui atrás da minha arma, mas ao invés dela, encontrei um colar de sementes de murumuru que era do Katenere. Trago pro senhor, se eu conseguir achar.
CASEMENT – (depois de uma pausa) O que fizeram com o corpo dele?
CHASE – A cabeça, as mãos e os pés foram cortados e exibidos para que todos pudessem ver.
CASEMENT – (exaltado) Pobres índios. Intimidados. Subjugados. Explorados. Faz trezentos anos que a pior forma de escravidão está a todo vapor por estas florestas tropicais, dizimando o que restou de uma população que já foi de milhões.
CHASE – (após um silêncio) O senhor não tem medo?
CASEMENT – De que?
CHASE – Fazendo tantas perguntas e anotações… Os chefes de Estação podem não gostar.
CASEMENT – Você acha que eles podem me matar?
CHASE – (sem saber o que responder) O que o senhor pretende fazer?
CASEMENT – Amanhã eu quero que você repita tudo o que me disse para a Comissão e o senhor Tizon. Você concorda com isso?
CHASE – (olhando com receio) Posso ir agora?
Casement acena que “sim” e Chase sai. Sozinho ele acende um cigarro, senta-se a uma mesa e começa a escrever fervorosamente. De tempos em tempos ele levanta a cabeça para refletir. Enquanto escreve, ele fala; quando levanta a cabeça o elenco canta suavemente a canção: “Casement escreve”.
CASEMENT – (escrevendo no diário) Estação Entre Rios. Quinta-feira, 13 de outubro de 1910. Estamos viajando há um mês… Por que a história de Katenere me faz lembrar minha terra e minha gente?
CORO – (cantando) Tanto tempo longe. Tão longe a Irlanda. Tão distante.
CASEMENT – (escrevendo) Que Deus me guie e me ajude a ajudar estes seres tão infelizes. Nada do que o divino e a natureza lhes concederam permanecem com eles. A não ser seus corpos torneados e saudáveis que suportam fadigas sem fim e ostentam cicatrizes esculpidas por chicotes.
CORO – (cantando) São eles as imagens desfiguradas de Deus. Acanhadas. Tristes.
CASEMENT – (escrevendo) Juro que se tivesse poder, eu enforcaria este bando de canalhas com minhas próprias mãos. E faria isso com muito prazer.
CORO – (cantando) Justiça. Verdade. E paz aos homens de boa vontade.
Dia seguinte. Estação Entre Rios. Casement está reunido com o Sr. Tizon e os membros da Comissão de Londres.
CASEMENT – Os trabalhadores contratados em Barbados estão sendo forçados a açoitar e matar índios, Tizon. E eles não podem ir embora porque devem dinheiro pra Companhia.
TIZON – É uma situação delicada, não tenho dúvidas quanto a isso.
CASEMENT – Chase, repita aqui para o Sr. Tizon e os membros da Comissão de Londres o que me contou ontem sobre a expedição da Estação Abissínia até o rio Caquetá.
CHASE – No primeiro dia de marcha pegaram uma índia velha no caminho e perguntaram onde estava o resto dos índios fugidos. Ela disse que não sabia. Então seu Jiménez, chefe da expedição, mandou que a velha fosse pendurada em uma árvore. Depois mandou a gente trazer folhas secas e colocar embaixo dos pés dela. Ele pegou uma caixa de fósforos e ateou fogo. A mulher começou a queimar viva.
TIZON – Isso não pode ser verdade.
CASEMENT – Jiménez é um bandido. O que aconteceu depois que soltaram a índia quase morta no chão, Chase?
CHASE – Encontramos duas mulheres. Uma delas com uma criança de colo. Seu Jiménez perguntou onde estavam os índios fugidos. A mulher com a criança disse chorando que não sabia e ele disse que ela estava mentindo.
CASEMENT – O que ele fez então?
CHASE – Mandou que agarrassem a criança pelos cabelos e cortassem a cabeça dela com um facão.
TIZON – A Estação Abissínia pode não ser a melhor de todas, mas há outras Estações onde os índios estão felizes e satisfeitos.
CASEMENT – Tizon, os índios estão sendo perseguidos, espancados e mortos por não coletarem ou não trazerem borracha suficiente. Você é o representante da Companhia em Iquitos e precisa tomar providências.
TIZON – A Companhia é uma instituição civilizada. Pode até possuir uma imperfeição ou outra… (pausa) Mas eu concordo. Se um método como esse está sendo utilizado em alguma das Estações, ele deve ser revisto imediatamente.
CASEMENT – Assim como a situação de Chase e de todos os trabalhadores de Barbados.
TIZON – Mas ao participar dessas atrocidades, ele não está confessando que também cometeu um crime?
CASEMENT – E se é culpado, os mandantes desses crimes são ainda mais culpados do que ele.
CHASE – Eu nunca matei ninguém, seu Cônsul, e se espanquei algum índio foi cumprindo ordens… foi cumprindo ordens.
CASEMENT – Eu entendo que você esteja com medo, Chase. Um homem como Jiménez não se detém diante de nada. Mas quando a verdade vier à tona, essa Companhia não vai durar mais um dia sequer.
TIZON – Você acha que a solução para todos os problemas é acabar com a Companhia?
CASEMENT – Se a questão é punir alguém, Tizon, me parece justo que os castigos mais pesados sejam aplicados contra os agentes dessa corja de foras da lei e essa Companhia que compactua com suas ações criminosas.
TIZON – Eu trabalho para esta Companhia, senhor Cônsul e não compactuo com nenhuma ação criminosa.
CASEMENT – Desculpe-me, Tizon… você é um homem bom. Talvez o único homem honesto que trabalha pra essa Companhia do Sr. Arana.
GIELGUD – Quanto exagero, Roger. Essa Companhia que você quer destruir assegurou ao governo de Sua Majestade, em Londres, que qualquer tipo de relação com os indígenas é estritamente comercial. Não há mais nada além disso.
CASEMENT – E você acreditou, Gielgud? O que o resto da Comissão tem a dizer sobre isso?
Os outros membros da comissão apenas olham uns para os outros.
GIELGUD – O senhor Arana, pessoalmente, garantiu que os índios são protegidos por uma administração eficaz.
CASEMENT – Arana é um canalha, o bandido mais canalha desse sindicato do crime.
GIELGUD – Você está exagerando de novo, Roger, e fazendo condenações baseado em suposições. A coisa toda não é tão ruim assim.
CASEMENT – Ah, não?
GIELGUD – Existem aspectos ruins, que precisam ser eliminados, mas existem também os bons.
CASEMENT – Quais?
GIELGUD – A Estação que estamos agora, por exemplo, Entre Rios, é uma das melhores da Companhia: cinquenta toneladas de borracha por ano. Um sétimo de toda a produção do Putumayo.
CASEMENT – Você realmente acredita Gielgud, que isso é uma coisa boa?
GIELGUD – E você está mesmo convencido de que pode mudar um mecanismo que funciona bem há anos e que é o melhor nas circunstâncias atuais?
CASEMENT – Não posso acreditar que esta seja mesmo a tua opinião.
GIELGUD – Os índios não precisam ser açoitados. Só precisam cumprir o contrato.
CASEMENT – Um contrato que é nulo e vazio em toda a sua integridade.
GIELGUD – Você está novamente exagerando e tirando conclusões apressadas.
CASEMENT – Então Chase está inventando as histórias que acabamos de ouvir?
TIZON – Vamos com calma. Ainda estamos averiguando documentos, visitando lugares e ouvindo pessoas …
CASEMENT – Menos os índios.
GIELGUD – Você não pode fazer julgamentos, Roger, baseado mais em suposições do que em provas.
CASEMENT – Posso comprovar minhas suposições agora mesmo, se vocês não me impedirem de interrogar os índios. Só me deixe perguntar a eles no final do próximo fabrico se preferem ficar com as mercadorias baratas que recebem como adiantamento, imposto pela Companhia, ou se escolhem ficar livres da obrigação de extrair borracha.
GIELGUD – Você quer se converter em herói dos índios? É isso o que está tentando fazer?
CASEMENT – Os índios já tiverem a chance de ter o seu herói, Gielgud. (irônico) Mas se você está interessado em heróis, Chase pode te contar a história do cacique Katenere…
GIELGUD – Não é preciso, Roger. Já entendi o teu ponto. Agora precisamos continuar nosso trabalho. E você deveria se ater ao que veio fazer aqui: averiguar a situação dos súditos de Barbados e não se meter com a questão dos índios. Esse é o trabalho da Comissão.
CASEMENT – (comovido) Você não entende que qualquer investigação séria não pode ignorar os indígenas? É deles que se usurpa a masculinidade, as mulheres, os filhos e a vida.
GIELGUD – Anotamos tudo o que foi discutido aqui e, fique tranquilo, Roger, consideraremos tua posição no nosso relatório final para o Ministério.
Ele sai e os outros membros da Comissão o acompanham.
CHASE – Nós estamos correndo perigo, seu Cônsul?
CASEMENT – É possível, Chase, mas eu não vou abandoná-los… Confie em mim. (pausa) Agora você poderia, por favor, sair por um instante para eu discutir a questão com o senhor Tizon? (depois de olhar para um e para outro, Chase sai). A situação é muito grave, Tizon. Você precisa ficar do meu lado.
TIZON – Eu estou do teu lado. (depois de um momento de reflexão) Mas devo te confessar que se tudo isso for verdade… bem, minha vontade é desistir do meu posto e entregar minha carta de demissão.
CASEMENT – Você não pode fazer isso.
TIZON – Eu sei, eu sei… o que está em jogo são questões humanitárias… além das econômicas… Mas não sei se tenho forças para enfrentar as quadrilhas que comandam a vida pública do meu país.
CASEMENT – Coragem, Tizon. Você precisa propor a instauração de uma comissão peruana de inquérito para investigar o caso.
TIZON – Claro que se esses crimes forem mesmo comprovados, então eles devem ser abolidos imediatamente e substituídos por métodos mais humanos… porque você se exaltou… eu compreendo, mas você entende, não é, que a Companhia não pode desaparecer?
CASEMENT – Por que não?
TIZON – Se a Companhia for extinta por conta dessas acusações, então a situação dos índios vai piorar ainda mais. Ao invés de uma Companhia inglesa poderosa e forte, capaz de impor mudanças, vão restar apenas os canalhas locais fundando suas próprias empresas. E aí teremos vinte Companhias de saqueadores onde hoje só existe uma.
CASEMENT – E na tua opinião, se a Companhia for mantida, que procedimentos devem ser adotados quando esses escândalos se tornarem públicos?
TIZON – Por enquanto só rezar… porque vou precisar de um anjo bem forte pra me ajudar.
CASEMENT – A fazer o quê?
TIZON – A criar um novo sistema, não sei… a demitir agentes incriminados e contratar outros, se houver… o mais difícil será convencer os índios a coletar borracha e vendê-la a preços previamente fixados.
CASEMENT – Eles não estão habituados a esse tipo de transações… Tua missão é muito nobre, Tizon. Mantenha o coração firme e não se deixe abater.
TIZON – Vou precisar de muito mais do que isso.
CASEMENT – Conte com o meu apoio.
TIZON – (depois de refletir um pouco) Vou ver o que consigo fazer.
Tizon sai. Casement apanha seu diário para fazer anotações. Chase retorna com um colar nas mãos.
CHASE – Seu Casement?
CASEMENT – O que foi Chase?
CHASE – O colar de Katenere. Eu achei e trouxe de presente pro senhor.
CASEMENT – Ah… Obrigado, Chase. (Com papel e tinteiro nas mãos, Casement observa o colar) Você se importa de colocá-lo pra mim? (Chase coloca o colar em volta do pescoço de Casement).
Canção do Herói:
CASEMENT – Venho da semente de um povo sofrido
Sem tesouros, a não ser a esperança.
Sem riquezas, a não ser a memória
De uma antiga glória.
Trago nas veias o sangue de um povo cativo
As algemas nos pulsos e os lanhos
Da exploração orquestrada por estranhos.
Sou da carne dos mais humildes
Ossos de seus ossos;
E resisto como posso.
Escutem exploradores do povo: cuidado!
O momento está vindo –
O levante do povo oprimido –
Cuidado tiranos, corruptos e mentirosos!
Cuidado! Cuidado!
Prisão de Pentonville.
XERIFE – Visita.
CASEMENT – Quem é?
XERIFE – Alice Milligan.
CASEMENT – (contente) Alice!
Ele novamente levanta-se com dificuldade e tenta limpar o uniforme sujo, enquanto eles se dirigem para o locutório.
XERIFE – A coisa agora se complicou pra você meu amigo.
CASEMENT – Já disse que não sou teu amigo.
XERIFE – Só estão esperando a reunião do Conselho de Ministros.
CASEMENT – O que aconteceu?
XERIFE – Trechos dos teus diários sujos estão circulando por toda parte. No Parlamento, na Câmara dos Lordes, nos clubes liberais e conservadores, nas redações, nas igrejas. Não se fala de outra coisa em Londres.
CASEMENT – (irônico) Só o que eu consegui escutar aqui Xerife, foi a voz do Procurador Geral da Coroa me insultando no tribunal. Sabe por quê? Porque fui sagrado cavaleiro pelo trabalho espetacular que realizei no Congo e na Amazônia. Não é engraçado?
XERIFE – Muito. Um sujeito do teu nível, que manteve relações sexuais imundas em países tropicais chamado de Sir Roger?
CASEMENT – Por que você não consegue disfarçar o ódio que sente por mim, Xerife?
XERIFE – Não tenho que disfarçar nada. Mas você está enganado. Eu não te odeio. Eu te desprezo. (Eles chegam ao locutório) Dez minutos.
CASEMENT – Alice! Você conseguiu voltar! Fico tão feliz.
ALICE – Foi muito mais difícil desta vez, meu amigo… mas minha persistência acabou por convencê-los… Eu fiquei tão preocupada… você está se sentindo melhor?
CASEMENT – Melhor. Tua visita me fez muito bem… Eu ainda enxergo todos eles no tribunal, mas as vozes estão fazendo menos barulho… Algumas ainda insistem com as ironias, me dizendo que não demonstrei gratidão pelo título de cavaleiro, que minha mente foi afetada e meu caráter corrompido.
ALICE – Está muito claro: os ingleses querem diminuir a importância do teu trabalho, Roger… por isso estão fazendo essa campanha fraudulenta para atingir tua integridade.
CASEMENT – Não quero saber o que andam falando de mim, querida Alice. Cometi muitos erros, mas não tenho nada do que me envergonhar. Nem você, nem nenhum dos meus amigos têm que se envergonhar de mim. Promete respeitar minha vontade?
ALICE – Sim, prometo.
CASEMENT – Obrigado… (pausa) Eu não deveria estar sendo julgado na Inglaterra.
ALICE – Eu sei. Eles te trouxeram da Irlanda, porque sabem que aqui têm mais chances de te condenar.
CASEMENT – Eu não queria ter sido capturado.
ALICE – Você não merecia.
CASEMENT – (desolado) Eu fracassei, Alice. Não consegui a independência do nosso país. Falhei, como o cacique Katenere falhou em libertar o seu povo. E morreu por causa disso.
ALICE – Todos nós falhamos.
CASEMENT – E o resultado foi que eu vim parar aqui. Acusado de alta traição.
ALICE – Eu previ o teu Calvário, meu amigo… meu coração já conhecia teus pensamentos mais profundos…
CASEMENT – O que mais você consegue prever, Alice? Eu vou morrer?
ALICE – Meu querido, não permita que o medo paralise teu corpo e a descrença congele teu coração. As coisas que você fez pela Irlanda serão lembradas para sempre.
CASEMENT – Estou pagando por ter aceitado o imperialismo britânico…
ALICE – Pode ser. Mas não se esqueça do trabalho magnífico que você realizou como cônsul de Sua Majestade em florestas tropicais.
CASEMENT – Você está certa, Alice… E foi no fundo da mata escura, na companhia do fantasma de Katenere que os meus olhos se abriram de vez e eu, por fim, enxerguei a verdade: Nós irlandeses somos tão colonizados como os índios da Amazônia.
ALICE – Depois dessa revelação você não poderia continuar trabalhando como cônsul de Sua Majestade.
CASEMENT – Não. Eu pedi demissão do meu posto. Tinha chegado o momento de lutar por nossa própria independência.
ALICE – O guerreiro celta estava pronto para a revolução.
CASEMENT – Quando voltei da Amazônia, meu coração foi tomado por completo e não havia mais espaço nele para apoiar aqueles que não queriam uma pátria unida e totalmente livre.
ALICE – Estou orgulhosa de tuas qualidades de cavaleiro errante. Olho para ti e imagino o herói de um dos meus quadros vivos: (ela faz um quadro vivo do próprio Casement) O olhar límpido, a cabeça altiva, a fala decidida e cheia de paixão.
CASEMENT – Você não é real Alice. Às vezes tenho a sensação de que você não está aqui, que não passa de um sonho que se materializou nesta cela imunda.
ALICE – Seja então bem vindo mais uma vez à minha visão esplêndida. Para onde vamos, três anos depois de você ter voltado da Amazônia? (Tableau: um grupo de revolucionários conspirando) Irlanda. 1914. Atrás de janelas fechadas, nos cantos de bares esfumaçados e comitês secretos, nacionalistas irlandeses radicais, como você, planejam um levante contra o domínio inglês na Irlanda. Neste mesmo ano a Inglaterra declara guerra à Alemanha. Começava a Primeira Guerra Mundial.
CASEMENT – Ficamos felizes. Pensamos: esta é a hora certa para uma revolução acontecer. A Inglaterra em guerra contra a Alemanha, pedimos ajuda militar aos inimigos alemães e proclamarmos a República da Irlanda.
ALICE – Então você viaja para os Estados Unidos e de lá prossegue incógnito para a Alemanha, driblando com dificuldade os bloqueios ingleses no mar. (Tableau: um grupo de oficiais alemães que não parece muito disposto a colaborar). Tua missão: garantir que o governo alemão enviasse tropas e armas para ajudar na luta da causa irlandesa.
CASEMENT – Foram dois anos. (Casement fala diretamente para os oficiais) Dois anos aqui na Alemanha e, no final, vocês fizeram eu me sentir um idiota estúpido porque acreditei que seu governo poderia ajudar a Irlanda. Nunca mais vou confiar em vocês.
ALICE – (Tableau: todos os oficiais viram as costas para Casement. Alice se dirige diretamente a eles) Canalhas! Miseráveis! Malditos covardes! (voltando-se para Casement) Não nos ajudaram. Enviaram algumas armas, que não chegaram ao seu destino. E nenhum soldado.
CASEMENT – Nestas condições, minha única esperança era voltar à Irlanda com tempo para convencer os rebeldes a desistir do levante. (pausa) Eu fracassei Alice.
ALICE – O submarino que te trouxe até a costa da Irlanda chegou apenas três dias antes de o levante começar. (Tableau: Casement confinado em um submarino com uma tripulação indisposta. Muitos homens mostram sinais de cansaço. Alguns vomitam e outros parecem desencorajados) Foi uma viagem terrível. Você estava doente – no coração e na alma – e pensou que fosse morrer.
CASEMENT – Mas eu tinha que vir. Não foi fácil convencer os alemães a enviar um submarino. Eu disse a eles: se esses garotos vão lutar de qualquer jeito, eu não posso estar em outro lugar a não ser ao lado deles… Não consegui chegar a tempo.
ALICE – Não. Antes disso você foi capturado na praia de Banna Strand, na costa oeste da Irlanda, na Baía de Tralee.
Canção: Captura
ALICE – Um vulto cambaleando na praia
CORO – Estará fugindo?
VOZ 1 – Um fantasma?
VOZ 2 – Um criminoso?
VOZ 3 – Um fora-da-lei?
ALICE – Procura um esconderijo,
Pegadas na areia
Deixa para trás um bote sob a água
Remos sobre as ondas
Uma adaga embainhada
CORO – E revólveres à mingua.
ALICE – Um camponês busca um poço sagrado
Vê os remos, a adaga e o bote abandonado
Volta e vê a filha
Brincando com os revólveres
CORO – Chama a polícia
ALICE – Entre os espinheiros
O polícia aponta a arma
E dá a ordem de prisão:
CORO – “Para fora! Identifique-se!”
CASEMENT – (cantando) Olhei para o céu do leste…
Um arco de luz através do céu
Ainda escuro e sem estrelas – um arco-íris lunar.
Um bom presságio? Deus ainda está aqui?
Sua voz destoa enquanto desperta o dia.
Gabinete da Scotland Yard. Londres.
THOMSON – Eu sou Basil Thomson, Chefe da Subdivisão Especial da Scotland Yard e estou aqui para interrogá-lo.
CASEMENT – (demonstrando certa agitação e acendendo um cigarro) Eu sei quem você é e, desde que me capturaram na Irlanda, eu sabia que viria parar primeiro na Scotland Yard.
THOMSON – Você se considera um súdito britânico?
CASEMENT – Imagino que pela lei eu seja.
THOMSON – Estou levantando a questão da nacionalidade para determinar se você será julgado pela lei civil ou militar.
CASEMENT – Eu não me considero um súdito britânico.
THOMSON – Você sabe como isso pode te afetar? Pela lei atual os súditos britânicos podem ser tratados de um modo diferente dos estrangeiros no que diz respeito à forma do julgamento.
CASEMENT – Posso saber do que estou sendo acusado?
THOMSON – Ainda não está sendo acusado de nada, mas certamente será.
CASEMENT – Serei acusado de alta traição, eu sei.
THOMSON – (remexendo anotações) Dia 12 de abril você embarcou em um submarino na Alemanha com destino à Irlanda?
CASEMENT – Você conhece a história inspetor.
THOMSON – Você estava indo para lá para se tornar o líder de uma rebelião?
CASEMENT – Não. Estava indo porque pretendia convencer os rebeldes a desistir do levante.
THOMSON – Mesmo assim os alemães despacharam uma embarcação com armamentos e munições para equipar esses rebeldes na Irlanda?
CASEMENT – (muito emotivo) Neste momento o levante deve estar acontecendo em Dublin… E eu estou aqui… em Londres.
THOMSON – Você sabia que uma embarcação alemã estava trazendo vinte mil rifles e algumas metralhadoras para a costa da Irlanda?
CASEMENT – (ele explode) Se você quer mesmo saber, eu vou te contar Inspetor. Estive na Alemanha por quase dois anos e nesse tempo todo eu implorei para que mandassem artilharia e tropas para a Irlanda e eles se recusaram. No último instante eles despejaram meia dúzia de rifles na minha cara, quando eu já tinha perdido as esperanças de armar os meus compatriotas. O que você acha que poderíamos fazer com esse equipamento velho e enferrujado, descartado pelo exército alemão? Eu não poderia esperar outra coisa a não ser o fracasso da rebelião e a morte dos revolucionários. (desesperado) Mas eu não fui avisado que o levante estava sendo planejado para ontem. Só fiquei sabendo disso há seis semanas.
THOMSON – Você quer dizer que não fez parte do núcleo secreto que planejou o levante?
CASEMENT – Minha única função era tentar, na hora certa, trazer para a Irlanda a maior quantidade possível de armamentos e homens.
THOMSON – Os soldados que não vieram.
CASEMENT – Fui um imbecil em acreditar na honra… na boa vontade dos alemães. Malditos tratantes.
THOMSON – Então os alemães te enviaram para uma missão suicida?
CASEMENT – (agressivo) Eles não me enviaram.
THOMSON – Há alguma outra embarcação com armamentos indo para a Irlanda?
CASEMENT – (irônico) Não saberia te informar, Inspetor.
THOMSON – (abruptamente) Muito bem. O interrogatório está suspenso por hoje.
Tribunal de Justiça. O Procurador-Geral da Coroa, Sir Frederick Smith; o Juiz do Supremo Tribunal da Inglaterra, Visconde Reading e o advogado de defesa, o irlandês Sr. A.M. Sullivan ocupam seus lugares no Tribunal. Roger Casement está no banco dos réus.
SULLIVAN – (para os membros da Corte) Excelências, (para o público) membros do júri, como advogado de defesa neste Tribunal de Justiça, faço um apelo para que entendam que o réu não é seu conterrâneo. Ele é um estranho na casa de vocês.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – (indignado) Ele é um súdito inglês. Foi acusado de alta traição pelos atos sinistros e perversos que cometeu na Alemanha. Ele deve morrer por causa disso.
CASEMENT – Sou inocente.
SULLIVAN – (mostrando sinais de muito cansaço) A acusação respondeu se o prisioneiro cometeu um ato de traição de acordo com o que determina o decreto do Rei Eduardo III, de 1351?
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Evidente que sim. Ele teve a intenção de levantar uma guerra contra o Rei.
SULLIVAN – Em outras palavras: o réu aliou-se aos inimigos do rei na Alemanha?
CASEMENT – Sou inocente.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – (com desprezo) Certamente ele não foi para lá com o intuito de defender os interesses do país que proporcionou a ele uma carreira, o condecorou com o título de cavaleiro e, no final, pagou-lhe uma aposentadoria.
SULLIVAN – (extremamente cansado) O réu foi para a Alemanha tentar, de forma honesta, conseguir armamentos e homens interessados em lutar pela causa irlandesa.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Homens que desembarcariam na Irlanda e seriam equipados com armas e munições para lutar contra os ingleses.
SULLIVAN – Mas esses homens nunca desembarcaram!
PROCURADOR-GERAL DA COROA – (irônico) E felizmente o navio com os armamentos e munições foi afundado antes de chegar à costa… (depois de uma pausa calculada) Mas ao que parece, anotações feitas em um diário do réu expressam que…
JUIZ DO SUPREMO – (interrompendo) Digníssimo Procurador-Geral, o senhor mencionou a existência de um diário. Há alguma prova de que ele pertença mesmo ao réu?
PROCURADOR-GERAL DA COROA – É um diário, Meritíssimo. Um diário que foi encontrado.
JUIZ DO SUPREMO – Eu sei, mas até onde me recordo, não havia mais provas além do fato de que ele tinha sido encontrado. Não há provas de quem é a letra ou de quem é o diário.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Com “o diário” eu quis dizer o diário que foi encontrado, e existe a prova de que ele foi encontrado.
JUIZ DO SUPREMO – Mas o júri não pode ser induzido a pensar que esse diário pertence ou foi escrito por Sir Roger Casement. Não há prova quanto a isso.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – (para a plateia) Vocês ouviram senhores, o que Vossa Excelência disse. (pausa) Se há ainda algum mal entendido, ele deve ser eliminado.
SULLIVAN – (que neste ínterim desabou sobre a cadeira) Não posso mais continuar. Insisto, porém, que apelarei da sentença, caso Sir Roger Casement seja condenado pelo crime de alta traição, com base no Decreto do Rei Eduardo III.
CASEMENT – (levantando-se em um ímpeto e falando com veemência) Eu sou inocente, Meritíssimo. Não consigo entender por que alguém quer que eu morra. Não é possível que não compreendam o Decreto do Rei Eduardo III como uma lei antiquada que se, em termos morais, ainda é potente para condenar um único irlandês, é ainda mais potente para expor ao desprezo e a infâmia todos os ingleses. (depois de uma pausa) Lealdade é um sentimento, não uma lei. Ela se apoia no amor, não em uma imposição. E o governo inglês na Irlanda se apoia na imposição e não na lei, e como não exige o amor, ele não pode evocar lealdade. A lei inglesa e o governo inglês na Irlanda existem contra a vontade do povo irlandês. É um regime derivado não do direito, mas da conquista. E a conquista, Excelência, não confere títulos; e se é imposta ao corpo, não consegue subjugar a alma; não exerce poder sobre a razão, os julgamentos e as afeições dos homens. Vocês deveriam julgar um homem por suas intenções, por seus motivos; e não há nada mais difícil do que julgar um homem que não pertence a sua raça e não é um de vocês. (pausa) Eu nunca desejei fazer mal a Inglaterra ou trair a confiança do rei. Eu só queria o bem do meu país; a liberdade dos homens do meu país e a independência da Irlanda.
Canção: Diários Negros
Jornalistas em suas redações se utilizam de máquinas de escrever como instrumentos musicais.
VOZ 1 – Comprovado. A polícia encontrou nos aposentos do réu.
VOZ 2 – Os diários comprometedores?
VOZ 3 – Você leu? Você leu?
VOZ 4 – Uma página datilografada, enviada anonimamente.
VOZ 1 – A minha foi fotografada.
VOZ 3 – Posso ler? Posso ler?
VOZ 2 – Não podemos publicar.
TODOS – (um grito de horror) Ahhhh!
PROCURADOR-GERAL DA COROA – (falando à parte com Sullivan) Por que a defesa não faz uso dos diários na apelação à sentença?
SULLIVAN – Para que?
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Pode salvar a vida do réu. Se ele confessar que cometeu os crimes sexuais promíscuos desses diários selvagens, então a defesa pode alegar que ele tem distúrbios e que sua traição é consequência disso.
SULLIVAN – Recuso-me a usar estes diários como provas. A morte é melhor do que tamanha ofensa e sujidade.
A canção continua:
VOZ 3 – Posso inspecionar as cópias?
VOZ 2 – Não há provas de que sejam de sua autoria.
VOZ 4 – Não há provas.
TODOS – (um grito de horror) Ahhhh!
VOZ 1 – Alguém sabe a opinião do réu?
Apelação. Casement retorna para o banco dos réus.
SULLIVAN – Nesta apelação gostaria de reiterar que o Estatuto do rei Eduardo III é um documento escrito originalmente em francês medieval com graves problemas de tradução.
PROCURADOR-GERAL DA COROA– Os juízes estão inclinados a achar que não há nada de errado com o documento, digníssimo senhor Sullivan.
JUIZ DO SUPREMO – Não vejo como o Estatuto não se aplica a crimes de alta traição cometidos no exterior.
SULLIVAN – Insisto Meritíssimo, que a tradução e interpretação corretas do decreto deixam muito claro que somente um ato de traição cometido “no reino” está suscetível a punições. É um erro, por conseguinte, executar o réu, uma vez que seu delito foi cometido no exterior.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Uma abordagem dessas por parte da defesa não é apenas leviana, mas também deprecia uma interpretação tradicional da lei.
SULLIVAN – (com veemência) Seis séculos de tradição jurídica cimentaram o Decreto do rei Eduardo III, Meritíssimo.
PROCURADOR-GERAL DA COROA – Seja como for, todo e qualquer súdito deve lealdade e submissão a Sua Majestade, onde quer que ele esteja.
JUIZ DO SUPREMO – Esta Corte demonstra todo o apreço ao teu argumento, digníssimo senhor Sullivan. É desnecessário, porém, seguirmos adiante. A decisão já foi tomada, amplamente comprovada por grandes peritos e magistrados. Teu pedido de apelação foi sumariamente rejeitado.
O elenco (que até agora esteve sentado como se fosse parte do público presente no tribunal) começa a entoar um lamento em “bocca chiusa”. O grupo se desloca lentamente para fora de cena enquanto Sullivan e Alice se encontram em algum lugar de Londres.
SULLIVAN – Acabou Alice. Ele foi levado de volta para a Prisão de Pentonville. A única esperança de salvá-lo agora é um pedido de clemência feito diretamente ao Ministro do Interior.
ALICE – Então precisamos começar imediatamente a escrever petições pedindo clemência. Nenhum dos amigos dele vai se recusar a assiná-las.
SULLIVAN – Talvez você se surpreenda…. Muitos deles podem se recusar a assinar sim, principalmente depois que esses diários (não encontrando uma palavra adequada) negros começaram a circular.
ALICE – Você acredita que são falsificações do governo?
SULLIVAN – Se são autênticos, então é muito difícil não pensar que ele tem algum tipo de distúrbio… Não sei, talvez a floresta, as febres, a malária, os mosquitos tenham afetado a mente dele…
ALICE – É isso mesmo que você pensa, Sullivan?
SULLIVAN – Estou certo de que ele prefere morrer a ser acusado do crime que os diários aparentemente comprovam que ele cometeu.
ALICE – Ele disse isso pra você?
SULLIVAN – Não. Mas deu a entender que, se fosse o caso, eu deveria explicar aos jurados que crimes como este e suas exaltações rapsódicas são inseparáveis dos verdadeiros gênios.
ALICE – E aí na Apelação você só fala de decretos e traduções? (desesperada) Não deveria ter usado argumentos como esse, Sullivan, mesmo que absurdos?… ou insistido que Roger veio da Alemanha com o único propósito de tentar impedir o levante? Alguma coisa que pudesse salvá-lo?
SULLIVAN – As atitudes dele não permitiram que uma defesa como essa fosse feita. Talvez você não saiba, mas Roger é um megalomaníaco que sinceramente acredita que o mundo inteiro deve adorá-lo e que qualquer coisa que ele faça, é a coisa certa a ser feita.
ALICE – Mas não podemos desistir dele, Sullivan. Eles não podem destruí-lo desse jeito. Vamos enviar os pedidos de clemência para o Ministro do Interior o mais rápido possível.
SULLIVAN – Sim, faremos isso. Mas não acredito que o Gabinete vá aceitar qualquer pedido de clemência.
ALICE – Por que não?
SULLIVAN – Eles estão de posse dos diários, Alice. O governo vai manter a sentença e ao mesmo tempo vai usar esses diários negros para impedir que Roger se transforme em mártir da causa irlandesa.
ALICE – O governo não conseguirá impedir que Roger se transforme em mártir, Sullivan… eu sei disso…
SULLIVAN – Como pode saber?
ALICE – Sei de coisas, Sullivan. Eu vi que… não tem importância. Que destino meu Deus! Que destino!
SULLIVAN – Você está se sentindo bem?
ALICE – Eu preciso muito vê-lo na prisão. Quero alegrar seu coração… pelo menos um pouco.
SULLIVAN – A esta altura acho que é muito difícil. Quase impossível.
ALICE – Mesmo assim eu quero tentar. E vou conseguir.
SULLIVAN – Boa sorte.
Alice, como Shan Van Vocht, dirige-me para a prisão onde se encontra com Casement que, lentamente, ajoelha-se no chão. Mais uma vez ela é seguida por seu pelotão.
Canção: Shan Van Vocht (reprise)
ALICE – Descansa, descansa
Descansa o escudo das grandes batalhas.
Pequenas por ora, a luta ainda não findou.
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
ALICE – Sou eu, Shan Van Vocht, sou velha e triste
Mas não pra desistir.
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
ALICE – Luto, caio e morro
Guerrilheiros prossigam os combates
Eu não vou retroceder.
SOLDADOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht
ALICE – O silêncio cruzará o portal dourado
Com a coroa do vencido e a coroa do vencedor
CASEMENT – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
Me chamam de sonhador.
TODOS – Shan Van Vocht. Shan Van Vocht. Shan Van Voucht.
Casement levanta-se do chão e ingressa em uma atmosfera de alucinação e delírio. Os outros passam por ele como se estivessem flutuando.
JUIZ DO SUPREMO – Roger David Casement?
CASEMENT – Sim?
JUIZ DO SUPREMO – Após considerações minuciosas, o Gabinete chegou à conclusão de que não existem justificativas para que os pedidos de clemência sejam aceitos e tua pena comutada. Você será executado e teu corpo sepultado dentro dos muros da prisão de Pentonville.
CASEMENT – O meu lugar é no velho cemitério da igreja na baía de Murlough.
ALICE – Choro só em pensar. Você ficará tão distante da baía de Murlough.
CASEMENT – Alice! Diga pra eles que o meu lugar não é aqui.
ALICE – Eles vão te sepultar na cova que foi ocupada pelo Dr. Crippen, seis anos atrás.
CASEMENT – Mas isso é um ato monstruoso e indecente.
ALICE – Teu corpo deveria ser sepultado em solo consagrado, eu sei, em uma cerimônia com a presença de teus entes queridos. Mas de acordo com a lei você será enterrado dentro dos muros da prisão.
CASEMENT – Essa lei se aplica aos casos de assassinato, como o do Dr. Crippen. Eu fui condenado por alta traição.
PADRE CAREY – (entoando uma litania) Quando a alma sair do teu corpo, possa a legião gloriosa de anjos te encontrar, o exército de mártires vestidos de branco te saudar, o séquito de confessores, coroados de lírios, te cercar, o coro de Virgens jubilosas te encantar…
CASEMENT – Padre Carey? (ele alcança o padre) Fui destituído pelo rei do meu título de cavaleiro e de todas as outras honrarias que me foram concedidas.
PADRE CAREY – (sem se importar com a presença de Casement) Que Maria, a Santa Mãe de Deus, tenha misericórdia e volte os olhos para ti.
CASEMENT – Padre Carey? Por que a Igreja Católica está demorando tanto a me aceitar em seu seio? Manifestei este desejo há tantos meses.
PADRE CAREY – Você hesitou.
CASEMENT – Minha mente estava aprisionada. O meu corpo também.
PADRE CAREY – Você é Protestante.
CASEMENT – Meu pai era. Fui batizado na igreja protestante. Mas minha mãe era católica e quando eu tinha quatro anos ela me levou em segredo até o norte do País de Gales para ser batizado na Igreja Católica.
PADRE CAREY – Para se reconciliar com a Igreja, o Cardeal Arcebispo exige que primeiro você assine um pedido de desculpas, expressando seu pesar por qualquer ato sexual vergonhoso que tenha, pública ou privadamente, realizado.
CASAMENT – Só desejo me tornar católico, mas vocês querem que eu traia a minha alma.
PADRE CAREY – Em virtude da jurisdição e o consentimento de todos os padres você, no fim, poderá ser reconciliado com a igreja porque está chegando o momento de tua morte.
CASEMENT – Que destino estranho… Eu me sinto como um menino – minhas mãos sem nenhuma mácula de sangue, meu coração transbordando de compaixão e piedade… Por que estou indo para a forca…?
PADRE CAREY – (cantando) E que Deus Todo Poderoso possa te conceder um lugar em Sua morada eterna.
CASEMENT – Agora eu sei o que tanto amei nos rostos dos meus compatriotas. Foi a generosidade de Cristo falando através de seus olhos – a fonte de onde provém todas as coisas encantadoras, porque Cristo foi o primeiro cavaleiro… Eu espero que Deus esteja comigo até o fim e que meus defeitos, falhas e erros sejam anulados pelo Cavaleiro Divino e o Nacionalista Celestial.
O Padre desaparece com os outros atores. Casement termina seu deslocamento diante da forca e do carrasco.
CASEMENT – Quando desembarquei naquela madrugada, encharcado, em uma praia desconhecida, eu estava feliz pela primeira vez em anos. Eu sabia que este era o destino que me aguardava lá, mas por um breve instante eu estava feliz e voltei a sorrir. Não consigo expressar o que senti. As dunas repletas de cotovias levantando voo ao alvorecer e tudo ao meu redor eram narcisos e violetas e o gorjeio das aves ecoando no ar. Seu canto foi a primeira coisa que ouvi enquanto quebrava as ondas em direção à costa. Eu estava de volta à Irlanda. E com a luminosidade do dia, fui ficando cada vez mais contente, porque pressentia o tempo todo que era a vontade de Deus que eu estivesse lá.
O carrasco coloca a corda em volta do pescoço de Casement e ele é enforcado. Seu corpo permanece pendurado por alguns instantes depois que o carrasco sai.
Black out.
INTERMEZZO
As peças de mobiliário do Lado A estão todas encaixotadas agora, como se fossem containers dentro do compartimento de carga de uma aeronave.
Casement/Bikela entra dançando com Alice/homem. Eles são parte do sonho/pesadelo de Casement.
ALICE – Você nasceu aqui?
CASEMENT – Não. Nasci em Ehanga. Meu pai morreu. Eu, minha mãe e minha irmã… não sabemos pra onde ir.
ALICE – (com voz de homem) Qual é o teu nome?
CASEMENT – Bikela.
ALICE – Quantos anos você tem Bikela?
CASEMENT – Quinze.
ALICE – Venha até aqui mocinha. (lascivamente ela apalpa o peito dele) Deixe-me ver.
CASEMENT – Não… não… (gritando) nãããão!
ALICE – Soldados. Coloquem fogo na vila e matem todos os que se negarem a colaborar.
Canção dos Soldados:
SOLDADOS – Vagabundos. Preguiçosos.
Cadê a borracha? Tome. Tome. Tome. (som de chicote)
Chicote no teu rabo.
Vão ter que pagar. Negros do diabo!
CASEMENT – (escondido) Mamãe, mamãe, aqui. Aqui. Estamos aqui.
ALICE – Elas estão lá. Soldados! Atirem.
Som de tiros.
CASEMENT – (desesperado) Mataram minha mãe, mataram minha mãe e me deixaram sozinha.
ALICE – Onde está tua irmã?
CASEMENT – Nzaibiaka, fique quieta… Corra, corra. Não deixe o rei Leopoldo te pegar.
ALICE – Ela fugiu? Soldados! Atrás dela.
Ele corre. Os soldados vão atrás dele. Repentinamente Casement/Bikela está perdido na floresta em meio a uma profusão de borboletas coloridas. Soldados/borboletas se movimentam com solfejos. Alguns instantes depois, eles param.
ALICE – (cantando) Volte aqui, sua negrinha
SOLDADOS – (cantando) Capetinha.
ALICE – (cantando) Nada vai te proteger
Nesta floresta escura.
Você é minha
SOLDADOS – (cantando) Negrinha capetinha.
Negrinha capetinha.
Negrinha capetinha.
Alice/homem se encontra sentada agora, pescando.
CASEMENT – (aproximando-se) Você está pescando?
ALICE – Estou e você é minha escrava. Venha até aqui, mocinha.
Ele senta-se sobre a perna dela e ela apalpa a virilha dele.
CASEMENT – (assustado) Não, não…
ALICE – Soldados! Ela é toda sua. (Casement passa de mão em mão por todos os soldados) Alguém quer comprá-la?
CASEMENT – (novamente desesperado) Mama Monkasa! Mama Monkasa. Eu quero chupar manga.
ALICE – (como Mama Monkasa) Minha querida, os homens foram embora com os peixes e te entregaram para o homem branco. Nós vamos ajudá-la.
CASEMENT – Eles queriam me matar.
ALICE – A aula noturna está começando na Missão. Está na hora de rezar.
SOLDADOS – (cantando) As pessoas de Deus são tão bondosas
São também tão generosas.
Os soldados sempre dizem:
Cada vez que morre um homem
Uma negra viva é enterrada com ele.
LADO B
Casement acorda do seu sonho/pesadelo.
CASEMENT – Não. Eu não quero morrer; não quero morrer.
CRIPPEN – Você já está morto.
ALICE – Você estava sonhando, meu querido?
CASEMENT – Alice! Você está aqui. Fico tão feliz. Você estava no meu sonho… Só que…
ALICE – O quê, Roger?
CASEMENT – Só que eu estava na África anotando o depoimento de Bikela e você não era você…
CRIPPEN – (ironicamente) Era o africano do caralho grande?
ALICE – (observando Crippen) Que falta de delicadeza, cavalheiro.
CASEMENT – Cavalheiro?
ALICE – Não poderia ser a Shan Van Vocht chamando seus filhos para a luta?
CRIPPEN – Quem é essa?
ALICE – (desdenhando Crippen, cantando) Shan Van Vocht. Shan Van Vocht.
CASEMENT – Não. Você era um comandante em um vilarejo no Lago Mantumba. Eu estava anotando os depoimentos quando houve uma invasão de soldados belgas… Eu tentei fugir porque eles queriam me agarrar… de repente, eu estava caçando borboletas na Amazônia para minha coleção e então eu encontrei um pescador, mas ele… você era esse pescador e… eu não era eu…
ALICE – Você era quem?
CASEMENT – Eu era Bikela…
CRIPPEN – (irônico) Eu sabia.
CASEMENT – Sabia o que?
CRIPPEN – O que eu sei.
ALICE – Você sabia, Roger, que uma vez eu também tive um sonho com você?
CASEMENT – Que sonho?
ALICE – Bem, não foi exatamente um sonho. Foi uma espécie de visão.
CRIPPEN – Visão de que, querida.
CASEMENT – Shhh.
ALICE – Quando você foi preso… eu tentei te visitar, mas não consegui. Ninguém tinha permissão para te ver em Pentonville… Eu queria tanto alegrar teu coração… Então senti uma vontade tão grande de te tirar daquela prisão que me imaginei como uma velha pobre invadindo teu cárcere com um exército de soldados que sentiam o mesmo que eu…
CASEMENT – Eu teria ficado feliz em te ver, Alice.
ALICE – Você ficou. (pausa) Eu queria tanto que as pessoas soubessem que os ingleses estavam tentando tirar tua dignidade.
CRIPPEN – (rindo muito) Tentando?
CASEMENT – (olhando com mais atenção para Crippen) Eu estou me lembrando… Quem é você?
CRIPPEN – (desconversando) Quem sou eu? Quem é você! (para Alice) E você? Nós nos conhecemos?
CASEMENT – Alice Milligan foi uma das pessoas mais importantes para o renascimento da cultura irlandesa.
CRIPPEN – Ah, é? Então está tão morta quanto nós dois aqui… (para Casement) Você morreu em 1916. Eu morri um pouco antes. (para Alice) E você, quando foi mesmo que você morreu, querida?
ALICE – Não vivi o suficiente para ver a democracia que eu queria ter construído, nem o país que sonhei.
CASEMENT – (com irritação) Os ingleses não foram vencidos?
ALICE – Os nacionalistas católicos proclamaram a República no sul, alguns anos depois da tua morte.
CRIPPEN – E você está na disputa para o posto de herói nacional.
CASEMENT – O que este sujeito está dizendo, Alice?
ALICE – O país foi dividido. A maioria dos protestantes do norte não quis uma nação unificada.
CASEMENT – Então eu vou ter que morrer uma segunda vez?
CRIPPEN – Não por causa disso.
CASEMENT – (olhando em torno) O que estamos fazendo aqui? Que lugar é este?
CRIPPEN – (imitando uma aeromoça) Duas portas dianteiras. Duas portas traseiras. Máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Estamos em 1965 em um avião com destino a Irlanda. Eles estão te mandando de volta.
CASEMENT – Para continuar a revolução?
CRIPPEN – (perversamente) Teus restos mortais estão sendo repatriados e serão enterrados novamente com distinções militares.
CASEMENT – Então eu vou poder, enfim, descansar no velho cemitério na baía de Murlough?
CRIPPEN – Era onde você queria ser enterrado, carinho?
CASEMENT – Em Antrim, no norte da Irlanda.
CRIPPEN – (fingindo surpresa) Então você está no avião errado. Ou será que meu voo não é este?
CASEMENT – (querendo reconhecer Crippen) Ei, espere aí… Você não é…
CRIPPEN – Você não pode ser enterrado em Antrim, doçura.
CASEMENT – Por que não?
CRIPPEN – Explique pra ele querida.
ALICE – A Irlanda do Norte ainda não pertence à República, Roger.
CRIPPEN – (irônico) Herói, por enquanto, só no sul.
ALICE – Você está indo para o cemitério de Glasnevin. Em Dublin. Um lugar que tua irmã escolheu para você quarenta anos atrás.
CASEMENT – (desapontado) Para o cemitério de Glasnevin, em Dublin? Não.
CRIPPEN – Eles esperavam que você não notasse.
CASEMENT – (repentinamente, reconhecendo Crippen) Eu conheço você.
CRIPPEN – Claro que conhece… Eu sou o Dr. Crippen.
CASEMENT – O homeopata assassino… Por que você está aqui?
CRIPPEN – Dizem as más línguas que o meu fêmur veio misturado com os teus ossos. Aparentemente teu lugar na minha cova não foi bem demarcado e nossos ossos se misturaram todos na vala comum da prisão de Pentonville.
CASEMENT – Então eu estou condenado a passar a eternidade com um sujeito como você?
CRIPPEN – Alguns dos teus admiradores ainda continuam muito chocados com o tipo de sujeito que é VOCÊ, delícia.
CASEMENT – Nossa conversa não é para admiradores. (ofendido) Eu… eu estou… só pode ser ironia de Deus eu ter que dividir minha última morada com alguém como você.
ALICE – Estou me lembrando bem do caso. Você é o homeopata que matou a esposa em Londres… e foi enforcado por causa disso.
CRIPPEN – Ele também foi enforcado.
CASEMENT – Não por ter envenenado, esquartejado e depois enterrado a esposa na adega do porão para fugir com a amante.
CRIPPEN – Foi ela quem me deixou e quis fugir para a América com um dos seus amantes do teatro.
ALICE – Mais uma história batida de traição amorosa. Por que não permitiu que ela fosse embora, doutor?
CRIPPEN – Eu…
CASEMENT – Você matou tua esposa, doutor, uma cantora de musicais de prestígio, para fugir com uma datilógrafa de nome Le Neve?
CRIPPEN – Minha culpa foi contestada… Existem controvérsias sobre a identidade do tórax encontrado no porão da minha casa, porque foi só isso o que encontraram.
CASEMENT – O mundo inteiro abalado e a polícia mobilizada para encontrar um homem que matou a esposa. Enquanto isso, eu jantava todas as noites com cavalheiros que não apenas tinham matado suas esposas, mas também queimado vivas as esposas de outros, arrancado bebês do seio de suas mães para atirá-los no rio e esmagado cabeças de crianças contra as árvores. Por que a civilização fica horrorizada com o teu crime e não se importa com os índios da Amazônia e as tribos do Congo?
CRIPPEN – Vá entender…
ALICE – Se você não amava mais tua esposa, doutor… precisava puni-la com a morte por causa disso?
CRIPPEN – Quem disse que eu deixei de amá-la?
ALICE – Então por que a matou?
CRIPPEN – Quem disse que eu matei?
ALICE – Não matou?
CRIPPEN – Matei?
CASEMENT – Matou.
CRIPPEN – O crime que eu cometi ou deixei de cometer não interessa. A civilização ficou horrorizada mesmo foi com a tua conduta moral. Você morreu também por causa disso. Meus pobres ossinhos se remexeram todos na cova quando ficaram sabendo sobre o teu comportamento.
CASEMENT – Devem ter se remexido ainda mais quando você foi capturado naquele navio… Francamente doutor… Viajando de primeira classe. A tua captura me pareceu a cena de uma farsa.
CRIPPEN – A tua certamente não foi. Nem o exame feito na prisão depois da tua morte. Provas irrefutáveis foram encontradas de que você era viciado em determinadas práticas.
CASEMENT – (para Alice) Do que ele está falando?
ALICE – (para Crippen) Do que você está falando?
CRIPPEN – Do teu cu. Fizeram exames no teu cu.
Casement busca respostas em Alice.
ALICE – O médico da prisão, cumprindo ordens, fez certos exames para constatar se você era mesmo inclinado a algumas práticas.
CASEMENT – Que práticas?
CRIPPEN – Leia isso.
Crippen retira três diários de dentro da sacola que carrega e entrega um deles a Casement, que começa a folheá-lo.
CASEMENT – (lendo) Segunda-feira, 18 de setembro de 1911.
Entram em cena o duplo de Casement (Homem 1) e seus homens.
HOMEM 1 – Na esquina esperando o bonde, vi um tipo atraente que olhou pra mim… Ele pegou meu braço, apertou e eu senti… De onde você é?
HOMEM 2 – Lisboa.
HOMEM 1 – Enorme – grosso como um punho – só 17 ou 18 anos… Está há quatro anos no Pará. Caminhamos até São Braz com ele torcendo as mãos e os pulsos o tempo todo. Quando chegamos lá:
HOMEM 2 – (indicando o colo) Senta.
HOMEM 1 – Na hora eu agarrei. Primeiro ele cuspiu, mas era tão grande que não entrava – então mel glicerinado. (os dois homens tiram suas camisetas) Ai, calor!
Crippen se aproxima e espia o diário nas mãos de Casement.
CRIPPEN/HOMEM 1 e 4 – (falando/cantando) Calor. Calor. Ai, calor.
CASEMENT – (empurrando Crippen) Calor. (voltando a ler um pouco incrédulo) Quinta-feira, 21 de setembro de 1911. Passei a maior parte do dia no hotel.
HOMEM 1 – Saquei 40 libras no banco a dezesseis dólares e meio a libra. Selos para o Padre Smith em Barbados: 5.400 pesos. Paguei a conta do hotel até dia18. As 6:00 fui para Nazareth comer um sanduíche. (oferecendo dinheiro) Jovem magnífico do Pará, chegou, sentou-se e me perguntou:
HOMEM 5 – Aguenta?
HOMEM 1 e 4 – (cantando) X. X. X.
HOMEM 1 – Mostrou. Duro como um cassetete.
HOMENS 4 e 5 – (cantando) X. X. X.
HOMEM 1 – Queria muito. Implorou literalmente.
CASEMENT – (virando mais algumas páginas) Domingo, 1º de outubro de 1911. Chegamos a Manaus.
HOMEM 1 – Saí às duas e vi um marinheiro aprendiz. Índio puro de apenas 16 anos, ou menos. (oferecendo dinheiro) Concordou e nos encontramos às sete na Praça Palácio… Coloquei na boca… Ficou enorme…
HOMEM 3 – Quero meter…
HOMEM 1 – (oferecendo um cigarro) Depois um soldado negro na esquina. Pescoço sedutor…
HOMEM 2 – (aproximando-se e pedindo para acender o cigarro) Você quer?
HOMEM 1 – Seguimos para a Praça Palácio – beijos no pescoço e abraços.
HOMEM 1 e 4 – X. X.
HOMEM 1 – Meteu duas vezes… Braços fortes. Enorme e negro de quase 23 centímetros. Grosso e duro. Depois para casa com Agostinho da Ilha da Madeira. A noite inteira.
Crippen entrega outro diário a Alice que, a princípio, o recusa.
CRIPPEN – (para Alice) Tem mais este aqui. Leia, leia.
ALICE – (avançando algumas páginas no diário) Segunda-feira, 06 de abril de 1903. Linda manhã nas águas do Congo.
HOMEM 1 – Às 12:30 avistei o topo das árvores em Kabinda. Estamos a 44 milhas de Banana. O Capitão disse que vai tentar atracar. Desci e…
ALICE – (lendo) Desci e… Oh! oh! oh!
CRIPPEN – (com gestos que denotam felação) Oh! oh! oh!
HOMEM 2 – Rápido, rápido.
HOMEM 1 e 4 – (cantando em situação de felação) Oh! oh! oh!
HOMEM 1 – Cerca de 18 anos e quer muito na boca.
ALICE – Segunda-feira, 13 de julho de 1903. Terceiro dia em Bolobo.
HOMEM 1 – Os Basokos são tipos esplêndidos – Dois são magníficos.
HOMEM 3 – Posso ir pra Inglaterra contigo?
HOMEM 2 – Posso ir pra Inglaterra contigo?
HOMEM 1 – Espero que eu não esteja trazendo o Pomo da Discórdia…
CRIPPEN – (furtivamente lendo no diário que Alice tem nas mãos) Isso já seria demais. (pausa) Teus Diários Negros. Reconhece? Escritos justamente durante as viagens para investigar supostas atrocidades cometidas no Congo e na Amazônia.
CASEMENT – Supostas?
CRIPPEN – Pessoas que te conheceram tiveram dificuldade em entender como alguém pôde dar credibilidade as tuas histórias sobre investigações em florestas tropicais.
CASEMENT – Populações inteiras foram dizimadas.
CRIPPEN – Um nobre chegou mesmo a dizer que teus relatos não passavam de um monte de mentiras.
CASEMENT – Ele preferiu fechar os olhos para o que estava acontecendo com os pobres nativos, escravizados em sua própria terra.
CRIPPEN – Isso é o que você diz… Agora, teu comportamento sexual na selva, carinho… muitos dos teus amigos desistiram de assinar petições pedindo clemência quando ficaram sabendo dos diários.
ALICE – Não é verdade. Fizemos o possível para influenciar a opinião pública a teu favor, Roger; mesmo depois que surgiram rumores e páginas desses diários começaram a circular.
CASEMENT – Fui enforcado porque cometi o crime de alta traição.
CRIPPEN – Não te iluda. Teu apetite voraz por jovenzinhos ajudou a colocar a corda em volta do teu pescoço.
ALICE – Se me recordo bem do que li nos jornais, doutor, era você quem viajava na companhia de um jovenzinho quando a polícia te prendeu no navio a caminho dos Estados Unidos.
CASEMENT – Um rapaz com trejeitos efeminados?
CRIPPEN – Le Neve estava disfarçada de homem para que não fôssemos reconhecidos.
ALICE – O senhor era um homem de fetiches, doutor?
CRIPPEN – (para Alice) E você? Foi apaixonada por ele?
CASEMENT – Alice amava a pátria.
CRIPPEN – Ah, Você se casou com a pátria, querida?
ALICE – Eu nunca me casei, doutor.
CRIPPEN – Nunca? Gostava de mulheres?
ALICE – De muitas delas.
CRIPPEN – (chistoso) Eu sabia.
ALICE – Cuidei de minha cunhada até o fim, depois que perdeu meu irmão no final da guerra. Não cobrei nada por isso… E ela nem gostava de mim.
CRIPPEN – Não é desse tipo de coisa que eu estou falando, meu bem.
CASEMENT – De que tipo de coisa você está falando, doutor? Do teu amor cego? Só pode ser… Não passou pela tua cabeça comprar um bilhete na terceira classe? Lá você e teu jovem amante provavelmente passariam despercebidos.
CRIPPEN – Espere aí. Quem trocou um bilhete da terceira para a primeira classe antes que o navio batesse nas pedras foi você ao se voltar para a religião católica no último instante.
CASEMENT – Abracei a religião da maioria dos meus compatriotas porque era o único gesto de resistência ao meu alcance dentro daquele cárcere imundo.
CRIPPEN – Poderia ter alegado que esforços extremos na selva e inúmeras febres tropicais te causaram transtornos na cabeça… talvez tua pena pudesse ter sido comutada para uma simples prisão perpétua…
CASEMENT – Um diplomata com desordens psicológicas ou um traidor degenerado. São estas as únicas opções? Por que você não gosta de mim, doutor?
CRIPPEN – Ao contrário. Acho você um personagem fascinante.
ALICE – Saiba doutor que Roger colocou a própria vida em risco em nome de uma causa, enquanto que você, um assassino… e agora, apenas um fêmur.
CASEMENT – Você é sempre tão gentil, Alice… Sabe que nunca me esqueci do teu rosto naquele tribunal?
ALICE – Eu desenhei teu retrato durante as horas que durou teu julgamento.
CASEMENT – Também não vou me esquecer dos quadros vivos que você criou durante o festival que fizemos pela costa da Irlanda.
ALICE – Quase todo mundo esqueceu.
CASEMENT – Muito da história morre conosco, Alice. Mas a despeito de tudo, sempre haverá alguém para nos lembrar de que a verdade e a retidão ainda habitam os corações dos bravos e dos humildes.
ALICE – Tomara que você esteja certo. Eu tentei prosseguir. Morri velha e pobre com oitenta e sete anos… Nosso tempo tinha passado e eu não consegui suportar… Como protestante vivendo no sul, fui expulsa; e no norte acabei por me sentir mais ou menos como uma prisioneira.
CRIPPEN – Vocês estão sentindo? O avião está descendo. Acho que logo iremos aterrissar. (mostrando o terceiro diário que ele havia guardado de volta em sua sacola) E temos ainda este diário negro aqui. Você vai me matar de curiosidade, carinho? O que você acha, Alice… acredita que ele é o predador sexual que escreveu todas estas páginas? (entregando o diário aberto a Alice e apontando para uma determinada página) O que você me diz de fazer quadros vivos disso aqui?
CASEMENT – Cale a boca doutor!
Alice recusa o diário. Então Crippen lê na página que está aberta.
CRIPPEN – Sábado, 28 de maio de 1910.
O duplo de Casement e seus homens voltam a aparecer.
HOMEM 1 – (seguido por Casement) Fui para Warrenpoint com Millar. Pegamos o barco e grande divertimento. Os dois se divertiram. Fomos deitar 10:30 – 11:00 depois de assistir ao bilhar. Nenhuma palavra foi dita até que…
CASEMENT – (seguindo o Homem 1) Até que?
HOMEM 3 – Espere – Eu desabotoo.
HOMEM 1 – Maravilha.
HOMEM 1 e 4 – (cantando) Maravilha! Maravilha!
HOMEM 1 – Contei muitas histórias, nos despimos e fui para cima imponente. A primeira vez – depois de muitos anos e até o fundo, um desejo mútuo. Cavalguei gloriosamente – corcel esplêndido. Enorme –
HOMEM 5 – (cantando) Maravilha! Maravilha!
CRIPPEN – Veja isso Alice. (lendo) Dia 29 de maio – No dia seguinte. Saímos de Warrenpoint juntos para Belfast.
HOMEM 1 – (Casement observa atentamente os outros homens. Homem 1 oferece dinheiro ao Homem 5) Então um enorme com mais de 19 centímetros.
HOMEM 5 – (tocando violão) Quer parceiro?… Quer parceiro?
CRIPPEN – (lendo no diário) Repetidas vezes.
HOMEM 4 e 5 – (cantando enquanto saem de cena) Maravilha! Maravilha! Maravilha!
CRIPPEN – (insistindo com Alice) Leia isso. Sexta-feira, 15 de julho de 1910.
ALICE – (lendo no diário) Depois do jantar, Albert – 10 shillings. 15 anos e meio Albert.
CASEMENT – (após um silêncio) Você seria capaz de entender, doutor, o que eu quis dizer quando escrevi que “o mundo perdeu alguma coisa quando a discrição passou a ser o primeiro dos dez mandamentos?”
CRIPPEN – (repetindo) O mundo perdeu alguma coisa quando a discrição passou a ser o primeiro dos dez mandamentos… Não entendi. Mas queria que me explicasse se todos esses encontros sexuais aconteceram de verdade ou se você inventou alguns deles. Muitos dizem que há certos exageros e que não era possível, assim… quatro, cinco no mesmo dia… você vivia doente, estava cercado de inimigos… tinha hemorroidas. Você inventou muita coisa que gostaria de ter vivido, mas não viveu. Foi por isso que escreveu estes diários?
ALICE – Para o teu governo, doutor, nunca ficou muito claro se os baús com os tais diários negros encontrados pela Scotland Yard foram, de fato, encontrados ou colocados na hospedaria onde Roger morava em Londres.
CASEMENT – (repentinamente) Eu escrevi sim, Alice. (lembrando) Tenho certeza que sim. Escrevi um documento confidencial dizendo que estava mantendo um diário. Ele deveria ser enviado ao Ministério caso eu morresse ou desaparecesse na selva.
CRIPPEN – Não estamos falando desse diário, docinho, (indicando os diários negros) mas desses aqui.
ALICE – Foram tantos diários, Roger… Mas me escute: não me horroriza se você, de verdade, deixou a taça transbordar ou comeu indiscriminadamente todos os frutos do pomar. Mas quase enlouqueço quando devaneio que o amor profundo pode ter sussurrado esperanças de primavera em teu coração, e você foi forçado a silenciá-lo.
CASEMENT – Conheço as razões para ter feito tudo que fiz, Alice. Eu nunca tentei contar a minha versão… então deixe como está que sou capaz de suportar o meu destino.
ALICE – Não, Roger. Você é grande… é ainda maior se conseguiu amar alguém privadamente. Olhe para mim… Eu sei que as mulheres sempre estiveram bem distantes do teu centro ardente. Mas e os homens? Sempre tantos e tão próximos… Você nunca amou nenhum deles?
CRIPPEN – Amou Adler… o marinheiro norueguês que você contratou em Nova York para te acompanhar até a Alemanha.
CASEMENT – Cale a boca, doutor. Adler foi de inestimável ajuda para driblar os bloqueios ingleses no mar.
CRIPPEN – Adler Christensen era um agente duplo e um psicopata.
CASEMENT – Adler sempre foi leal a mim, mesmo depois que os alemães perderam a confiança nele.
ALICE – Talvez não tenha sido tão fiel quando estava longe de você. Mesmo assim, não posso achar que existe vergonha na tua afeição e devoção por ele.
CASEMENT – Sabe o que ele me disse um dia, Alice? … Que estava disposto a morrer por mim.
CRIPPEN – Falso. Ele te enfeitiçou, o demônio… Mas você também foi apaixonado pelo Millar, de Belfast… não foi?
CASEMENT – (vociferando) O que você quer que eu diga, doutor? Que tudo isso é verdade? Que tenho uma personalidade anal e perdi a conta do número de encontros que tive e da soma que gastei em troca de sexo?
ALICE – Meu querido… não tenha medo. Eu não sei se tive, mas hoje eu teria orgulho de você. Teu comportamento ainda desafia os limites da tradição conservadora dos homens e mulheres republicanos. Teu fantasma continua a assombrar seus valores patriarcais, reacionários e ultrapassados de tal modo que… (repentinamente) Quer ver uma coisa? (Ela faz um gesto para que Forjado e Autêntico entrem. Tableau: Os dois homens posicionam-se cada qual em um canto como em uma luta de boxe) Vamos improvisar um último quadro. Ainda uma última vez, vou me valer da visão esplêndida. Só que desta vez para vislumbrar o futuro.
Canção: Controvérsias
AUTÊNTICO – Verdadeiro.
FORJADO – Falso.
AUTÊNTICO – Autêntico.
FORJADO – Forjado.
AUTÊNTICO – O senhor é um grande oportunista.
FORJADO – E o senhor um tremendo picareta.
AUTÊNTICO – Teus insultos não alteram os fatos.
FORJADO – E a mentira não altera a verdade.
AUTÊNTICO – Autênticos.
FORJADO – Forjados.
Autêntico e Forjado se preparam para a luta.
ALICE – Desde a tua execução em agosto de 1916, Roger, (apontando para os diários) esses diários negros estão no centro de uma controvérsia interminável. Veja.
No decorrer desta cena, Autêntico e Forjado devem coreografar uma luta de boxe que se torna gradualmente cada vez mais agressiva.
Primeiro round: Homem 1 vestido de “garota do ringue” atravessa a cena portando uma placa com o número 1.
FORJADO – Os diários negros foram forjados para que as questões políticas fossem ofuscadas.
AUTÊNTICO – Ah! então um homem lindo e inteligente era apenas um articulador político… assexuado?
FORJADO – Estamos então ao mesmo tempo diante de um pedófilo e de um dos precursores da luta pelos direitos humanos?
AUTÊNTICO – Casement não era um corruptor de menores indefesos. O senhor é homofóbico.
FORJADO – Contato íntimo com menores de idade é sexo consentido entre adultos?
AUTÊNTICO – Pode ser simplesmente sexo consentido entre homens. Imagine o contexto da época. O senhor é inteligente.
FORJADO – E o senhor um pervertido.
Segundo round: Homem 2, também como “garota do ringue”, atravessa a cena com uma placa com o número 2.
AUTÊNTICO – Dois exames forenses utilizando tecnologia de ponta comprovaram a autenticidade dos documentos.
FORJADO – Foram manipulados pelo interesse de pessoas e grupos. Os examinadores não eram independentes.
AUTÊNTICO – As velhas teorias conspiratórias, ha! ha!
FORJADO – As autoridades inglesas tiveram quarenta e três anos para aperfeiçoar a aparência disso (aponta para os diários).
AUTÊNTICO – (gargalhando) Um time de escritores mudos trabalhando esse tempo todo. Invisíveis?
FORJADO – A Inglaterra sabia que tinha que fazer mais para se salvar perante o julgamento da história.
AUTÊNTICO – (irônico) Sei. Foram tão maquiavélicos que fabricaram TRÊS diários ao invés de um.
FORJADO – Se ele gostava tanto de escrever coisas desse tipo, por que ao longo da vida só escreveu esses três? E exatamente nos dois momentos politicamente mais fundamentais de sua carreira, no Congo e na Amazônia?
AUTÊNTICO – Por quê?… Ora por quê?… (Ele desfere um soco no rosto de seu adversário).
Terceiro round: Como os homens anteriores, Homem 3 cruza a cena com a placa com o número 3.
FORJADO – Para o senhor é trivial que Casement tenha escrito diários como esses em um ambiente vigiado e hostil, cercado pelo medo e ameaças de morte e ninguém jamais tenha suspeitado de sua conduta moral?
AUTÊNTICO – Ora, as pessoas só testemunharam as atitudes que Roger quis e permitiu que testemunhassem.
FORJADO – Estamos então diante de um sodomita passivo e vulgar, sem nenhum senso de responsabilidade?
AUTÊNTICO – Sodomita e vulgar, pode ser. Sem nenhum senso de responsabilidade, não.
FORJADO – Os documentos genuínos comprovam o que estou dizendo.
AUTÊNTICO – Não comprovam nada. Se Casement pudesse se manifestar hoje, ele comprovaria a autenticidade desses diários.
FORJADO – Ah, que bom. Então não nos resta outra coisa a fazer, senão perguntar a ele pessoalmente.
AUTÊNTICO – O senhor tem outra ideia de como solucionar o problema?
Os dois se voltam para Casement, mas antes que qualquer pergunta seja feita, eles recomeçam a luta e Alice os conduz para fora.
CRIPPEN – Pobre Casement. Você deve estar se perguntando como te transformaram em joguete nesse teatro de ideologias e crenças tão opostas.
ALICE – Você não quer responder a nenhuma dessas perguntas?
CASEMENT – Eu… eu ainda não sei… Fui executado porque cometi o crime de alta traição.
CRIPPEN – Você sempre pode mudar de ideia… De mártir da pátria, pode se transformar em patrono dos homossexuais.
ALICE – Ele pode ser as duas coisas… quando quiser… e se quiser.
CASEMENT – Eu olho para além do céu destroçado, Alice… para onde o pôr do sol pinta sua mentira desesperada e lá procuro por amor. Encontro Deus escrevendo na porta um horrível não… O amor se apossou do meu coração desde que nasci e urdiu com minha alma aterrada uma fornalha que queima em meu peito. Porque ele fez isso eu não sei, mas dentro desse fogo se consomem meu coração, minha alma e minha honra. A morte agora pode me trazer o amor. Posso morrer uma segunda vez e aceitar este amor que foi Deus quem inventou, não fui eu. (Uma banda militar começa a tocar uma marcha fúnebre) Deus fez este amor… então deixe ele existir.
ALICE – (ouvindo a marcha) Está na hora de ir…
CRIPPEN – (espiando) Ainda está escuro lá fora. Os dignitários ilustres do Estado irlandês e oficiais do alto escalão do Exército esperam por você em meio a rajadas de vento e neve.
ALICE – Teu caixão coberto com a bandeira será levado primeiro para a Igreja do Sagrado Coração, em Arbour Hill, para visitação pública.
CASEMENT – Arbour Hill? Foi lá que oficiais ingleses me despiram e me revistaram logo depois que eu fui capturado. Não tenho boas lembranças daquele lugar.
CRIPPEN – Então leve isso com você. (entregando um dos diários a Casement) Pode ser que… se você conseguir um tempinho… nunca se sabe… talvez você queira dar umas espiadinhas aí. As revistas eróticas do seu tempo… e não é curioso? Escritas por você mesmo.
Crippen sai com uma gargalhada sonora. Casement olha para o diário enquanto um cortejo se forma, com Alice à frente.
CASEMENT – (abrindo o diário e lendo) Sexta-feira. 27 de maio de 1910.
CORO – (cantando) Em Warrenpoint. Eu e Millar.
CASEMENT – Alguém me chamou: amigo? Amigo?
CORO– (cantando) Millar outra vez! Espontaneamente. Por trás. A primeira vez.
CASEMENT – Dia adorável.
CORO – (cantando) Newcastle. Millar e eu.
CASEMENT – Saquei dez libras do banco… Cabelo: uma libra e meia… Cigarros: quatro libras. Creme para o cabelo e vaselina.
CORO – (cantando) Newcastle. Millar dentro de mim.
CASEMENT – Segunda-feira. 31.
CORO – (cantando) Millar veio para o chá. Asseado. Com vontade.
CASEMENT – Primeiro de junho de 1911. A motocicleta para o Millar. Comprada.
CORO – (cantando) Quarenta e três libras e trinta. Frete incluído.
CASEMENT – Alice?… Sabe no que eu estava pensando?
ALICE – (despindo-o e limpando o corpo dele) O que?
CASEMENT – Que o ódio e a falsidade ainda governam a mente humana.
ALICE – O homem compassivo dos anos futuros aparecerá algum dia?
CASEMENT – Quem seria?
ALICE – Os negros de tribos africanas? Ou os índios da floresta?
CASEMENT – Alguém que possua a vida. Porque nós possuímos coisas e opiniões equivocadas. É a diferença vital entre o “selvagem” e o homem civilizado.
ALICE – Algum dia terá fim o combate do coração entre viver sua porção mais verdadeira em segredo ou ser despedaçado publicamente por sentir desejos tão profanos. Os deuses estão morrendo lentamente.
Silêncio.
CASEMENT – Alice?… Sabe o que eu quero agora?
ALICE – O que?
CASEMENT – Quero imaginar que estou deitado junto ao fogo, os rapazes estão bem próximos contando histórias antigas da pátria e você, recostada à soleira da porta, está cantando uma canção de ninar para me fazer dormir.
ALICE – Descansa, meu querido. Feche os olhos. Já está na hora de terminar.
Casement está completamente nu, de pé, mas como se seu corpo estivesse em câmara ardente. Durante a execução da canção final, ele aos poucos vai levantando a cabeça, altivo, enquanto que o diário que estivera lendo é mantido aberto na altura do seu ventre.
Canção Final:
ALICE/CORO – Nas asas do vento, o escuro profundo
Os anjos vêm vindo guardar o teu sono
Os anjos vêm vindo fazer-te ninar
Escuta o vento que vem lá do mar.
Escuta o vento, o vento a soprar
Inclina a cabeça, escuta o mar.
Escuta o vento, o vento a soprar
Descansa a cabeça, escuta o mar.
Black out.

*A peça As Duas Mortes de Roger Casement estreou no Teatro da Aliança Francesa, em São Paulo, no dia 02 de setembro de 2016 com a seguinte equipe de criadores:
Texto e direção: Domingos Nunez
Produção geral: Beatriz Kopschitz Bastos
Elenco:
Amanda Acosta (Alice Milligan)
Bruno Perillo (Roger Casement)
Chico Cardoso (Gielgud/Juiz do Supremo/Homem 3/Coro)
Eliseu Paranhos (Sullivan/Autêntico/Homem 4/Coro)
George Passos (Procurador Geral/Forjado/ Homem 5/Coro)
Kiko Pissolato (Xerife/Thomson/Padre Carey/Homem 1/Coro)
Paulo Bordin (Tizon/Dr. Crippen/Coro)
Taiguara Nazareth (Chase/Homem 2/Coro)
Piano: Demian Pinto
Composição musical: Alberto Heller
Letras: Domingos Nunez
Direção musical: Eliseu Paranhos
Cenografia e figurinos: Cássio Brasil
Iluminação: Aline Santinni
Preparação de elenco: Inês Aranha
Preparação corporal: Janette Santiago
Design de som: André Omote
Assistente de palco: João Jullo
Direção de produção: Silvia Marcondes Machado
Realização: Cia Ludens