Mulheres no Crime. De Agatha Christie a Gillian Flynn, uma reflexão sobre as mulheres na autoria dos romances policiais – Fabiane Secches

Mulheres no Crime. De Agatha Christie a Gillian Flynn, uma reflexão sobre as mulheres na autoria dos romances policiais

                                                                                                           Fabiane Secches*

Agatha Christie

Agatha Christie

Existe assombro maior do que suspeitar da pessoa com quem compartilhamos a vida, aquela em quem deveria se confiar o bastante para dividir as noites de sono? Quando o inimigo não é um desconhecido, a história fica mais assustadora, pois estamos muito mais vulneráveis.

Em seu texto O Inquietante (1919), Freud utiliza obras literárias (como o conto “Homem de Areia”, de E.T.A. Hoffmann) para ilustrar o sentimento que nos atravessa quando encontramos algo de “estranho” naquilo que nos é familiar. Para Freud, embora façamos distinção, não há antagonismo. São dois grupos de ideias “que, não sendo opostos, são alheios um ao outro: o do que é familiar, aconchegado, e do que é escondido, mantido oculto”.

O universo criminal permite que os conflitos se estabeleçam de modo exponenciado, quase mítico, mas em meus livros favoritos do gênero, a ameça vem de alguém muito próximo, com quem se tem uma relação de confiança — ou ainda de si mesmo. O termo suspense psicológico é utilizado para designar histórias do gênero onde a ação não é o principal elemento do enredo. A ação, quando existe, funciona como pretexto para estabelecer conflitos psíquicos mais profundos, um subtexto que envolve as contradições internas das personagens.

A revista The Atlantic publicou recentemente uma matéria com o título Women Are Writing the Best Crime Novels. O autor, Terrence Rafferty, reflete sobre as razões por trás do fenômeno. Entre as hipóteses, está a ideia de que, de maneira geral, as escritoras mulheres não parecem acreditar em heróis, o que tornaria suas personagens mais complexas. Aqui, tudo pode ser material para um bom suspense: um casamento em crise, uma filha desaparecida, uma garota desempregada que se torna obcecada pelo casal que observa do trem. Quem precisa de acontecimentos grandiosos quando o mundo interno e a rotina das personagens, com suas infinitas nuances, são colocados em um microscópio?

O romance Valsa Negra, de Patrícia Melo, foi lançado em 2003 pela Companhia das Letras (e republicado pela Rocco, em 2010). Premiada com o Jabuti por seu romance anterior (Inferno), a autora é considerada “a sucessora de Rubem Fonseca” na literatura policial brasileira. No livro, o narrador-personagem é um maestro obcecado pela esposa mais jovem, a violinista Marie e compartilha conosco sua desconfiança e rancor, como fez Bentinho em Dom Casmurro. “O ódio é indistinguível do amor” — o verso de Catulo estampa a epígrafe do romance, uma história sobre ciúme e obsessão que nos remete a um terror familiar, bem diferente das tramas remotas sobre assassinos em série e seus rituais exóticos.

Em 2012, o suspense policial contemporâneo conheceu uma nova autora expressiva: a americana Gillian Flynn. Com Garota Exemplar, Flynn criou a história de uma mulher que desaparece na data em que completaria cinco anos de casamento. A narração acontece através de perspectivas alternadas: um capítulo é de Nick (o marido), outro é de Amy (a esposa), através de seu diário. O formato me pareceu apropriado para a proposta: no estilo “ele-disse X ela-disse”, Flynn contrapõe as versões de cada um sobre os mesmos acontecimentos. Aos poucos, o leitor vai descobrindo que pode haver uma terceira (talvez uma quarta) versão, já que nenhum dos narradores é confiável.

Flynn é uma observadora perspicaz, por vezes sádica. Não poupa o leitor nem seus personagens, não tem receio de ser cruel. Ao mesmo tempo, consegue ser muito espirituosa. Portanto, é uma leitura tão pesada quanto divertida, difícil de interromper.

Tenho a impressão de que Garota Exemplar se tornou o sucesso de público que conhecemos porque a história pode ser lida como uma parábola das relações afetivas, em especial do casamento, de modo bastante universal. Logo na primeira página, Nick diz: “Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras acima de todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?

Assim, somos lançados do banal (no que você está pensando, como está se sentindo) ao trágico (o que fizemos um ao outro, o que iremos fazer). No meio, o estranhamento (quem é você), que se agrava porque é dirigido a quem antes se supôs conhecer bem. O sentimento de intimidade é atropelado pelo assombro do desconhecido.

Como em Valsa Negra, a epígrafe também antecipa o tom: “O amor é a infinita mutabilidade do mundo; mentiras, ódio, até mesmo assassinato, tudo está atrelado a ele; é o inevitável desabrochar de seus opostos, uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue” — Tony Kushner, The Illusion. Uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue. Que frase sombria para definir o amor.

Em entrevista à revista Entertainment Weekly, Flynn disse que acompanha programas de TV sobre crimes reais, especialmente sobre esposas desaparecidas. Quando o marido se torna o principal suspeito (estatisticamente, é o que mais ocorre), parece difícil acreditar. Como o amor de antes teria se transformado em ódio, em algo tão extremo como assassinato? O que teria dado errado no meio do caminho?

Garota Exemplar deu algumas voltas e surpreendeu: Amy não é tão inocente quanto nos leva a acreditar, está longe de ser a vítima habitual dos noticiários. Flynn foi acusada de misoginia por explorar um lado obscuro de suas personagens femininas. Em resposta, no Guardian, argumentou que suas mulheres podem ocupar todos os papéis, e que isso é o que considera libertador. Ser mulher não é uma experiência única, pasteurizada. Quando as personagens femininas podem ser controversas como Amy, só consigo pensar em progresso.

Seus dois livros anteriores, que, na ocasião, ainda não haviam sido publicados em português, foram traduzidos em seguida. Gosto bastante de Objetos Cortantes (uma história sinistra, onde nem a maternidade escapa) e nem tanto de Lugares Escuros (que é o seu primeiro e mais fraco romance), embora o livro comece com uma frase memorável: “Eu tenho a maldade dentro de mim, tão real quanto um órgão”. Flynn foi amadurecendo no percurso e parece ter encontrado a medida.

A editora Intrínseca acaba de lançar seu conto O Adulto (The Grownup) em português. É um livrinho de 59 páginas para ler de um fôlego só. Flynn escreveu o texto para uma coletânea de horror editada por George R. R. Martin. A história é divertida e assustadora. Não tem a densidade de seus romances, mas traz um subtexto interessante.

Uma das referências literárias de Flynn é a escritora americana Patricia Highsmith, autora de inúmeros clássicos do gênero. Seu livro Strangers on a Train, de 1950, inspirou o filme Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcok. Highsmith também criou o personagem Thomas Ripley, de O Talentoso Sr. Ripley, que se transformou em uma série de romances policiais e também foi adaptado para o cinema.

No romance O Perdão Está Suspenso (A Suspension of Mercy), Highsmith nos conta a história de um jovem casal que se mudou para uma casa relativamente isolada no interior da Inglaterra. Aqui, a autora traz a máxima que atravessa sua obra: “Qualquer tipo de pessoa pode matar. Isso se deve também às circunstâncias, e não só ao temperamento humano”. Estamos de volta ao inquietante de Freud, que antes dele já habitava a obra de grandes escritores, como Dostoiévski: o afrouxamento entre o que é familiar e o que é estranho. Ao aproximar o crime das pessoas “normais”, Highsmith provoca no leitor um sentimento incômodo, difícil de suportar.

Quando o mal está do lado de fora, à espreita nas florestas escuras ou ruas vazias da cidade, é mais fácil distinguir a si como o bem. Já quando está na figura de maridos e esposas, de mães e filhas, irmãos e irmãs, amigos e vizinhos próximos, ficamos desolados. A constatação do desamparo se torna palpável: ninguém está seguro.

“(…) já ouvi escritores dizendo que é mais difícil escrever sobre um lugar que conhecem a vida inteira do que sobre outro onde passaram três semanas, pois é mais difícil pinçar detalhes significativos no lugar que se conhece há muito tempo”, diz Alicia, a esposa de O Perdão Está Suspenso. No entanto, quando um autor consegue pinçar esses detalhes, somos atingidos de maneira certeira.

Nesse caminho, temos o recente A Garota no Trem (Girl on a Train), da britânica Paula Hawkins, publicado em português pela editora Record (tradução de Simone Campos). O título dialoga tanto com seu par contemporâneo, Garota Exemplar, como com o clássico de Highsmith, Strangers on a Train.

A Garota no Trem veio na esteira do sucesso comercial de Garota Exemplar e, embora existam semelhanças, são duas experiências de leitura muito diferentes. Flynn tem um senso de humor difícil de alcançar, subverte estereótipos como poucos, criando atmosfera para mitos. Já Hawkins cria uma história com diversas camadas, porém de narrativa mais conservadora. Somos conduzidos pelas páginas através de três personagens femininas: Rachel, Megan e Anna, cada uma delas narrando um trecho em primeira pessoa. A primeira é a “garota” que nomeia o livro. Desempregada, infeliz e confusa, Rachel fantasia sobre a vida de um casal que contempla através da janela do trem. Quando a esposa desaparece, Rachel deixa o posto de observadora para se tornar uma das principais suspeitas. As amnésias alcoólicas fazem com que ela mesma desconfie de si.

Ambas as “garotas” foram levadas das páginas para o cinema: Garota Exemplar, o filme, foi roteirizado pela própria Flynn e dirigido por David Fincher. Estreou em 2014, rendendo à Flynn uma indicação ao BAFTA e outra ao Globo de Ouro pelo roteiro. Já A Garota no Trem foi adaptado por Erin Cressida Wilson, com direção de Tate Taylor, e tem Emily Blunt como protagonista. A previsão de lançamento no Brasil é para o final de outubro de 2016..

Também da Grã-Bretanha, temos a escritora Sophie Hannah, de A Vítima Perfeita (editora Rocco, tradução de Alexandre Martins, que também traduz as obras da Flynn no Brasil), dolorosa história sobre estupro e traição. Bem recebida pelos leitores e pela crítica, a autora é considerada um dos principais nomes da literatura policial contemporânea. Hannah conseguiu um feito notável: foi a primeira autora a obter autorização dos herdeiros de Agatha Christie para usar o clássico detetive Hercule Poirot como personagem.

Aqui, vale fazer uma pausa em homenagem àquela que é considerada “A Rainha do Crime” ou “A Dama do Suspense”. Nascida na Inglaterra em 1890, Agatha Christie é autora de mais de 80 livros (alguns utilizando o pseudônimo Mary Westmacott). Nem todo romance criminal é literário, como André Leones nos lembra em artigo recente publicado no Estadão. Leones valoriza esse aspecto do texto da escritora: Agatha Christie teria construído uma obra tão perene porque soube valorizar “o aspecto narrativo e, portanto, intrinsecamente literário da coisa”. Também destaca na obra da autora “a carpintaria narrativa, o cuidado com que a escritora desenvolve cada aspecto de seu jogo e a forma como os fatos, os personagens e, sobretudo, a maneira como cada personagem se refere aos fatos vão sendo posicionados no decorrer da história”.

Quero também mencionar outras autoras contemporâneas, de diferentes nacionalidades, que encontrei pelo caminho: a finlandesa Tove Jansson (uma preciosidade), as britânicas Jane Shemilt e Evie Wyld, a canadense A. S. A. Harrison e as norte-americanas Megan Abbot e Jessica Knoll também merecem destaque no cenário atual. Afinal, nem só de Edgars e Arthurs é feito o bom suspense.

 

* Psicanalista e  candidata a ser pós-graduanda em TLLC