A morte da identidade em “Os mortos”, de James Joyce – Miguel Ângelo Andriolo Mangini

A morte da identidade em “Os mortos”, de James Joyce

 

Miguel Ângelo Andriolo Mangini*

 

James Joyce

O presente ensaio busca investigar o conto “Os mortos” (2013), de James Joyce, a partir dos conceitos de epifania, do mesmo autor, e de ser enquanto ser, de Aristóteles. Em linhas gerais, busca-se verificar como o escopo e o foco da metafísica, a substância em um sentido geral, podem ser encontrados no conto em questão, depois da ocorrência da epifania. Com a definição desses conceitos, propõe-se um tipo de epifania, da perda de identidade da coisa, que se torna substância em sentido geral, i. e., perde especificidades e se torna “nada”.

Considerando que a epifania de Joyce, observada em certo sentido, é propriamente um efeito espiritual da observação da “coisidade da coisa”, este artigo também leva em conta como o espírito dos personagens reage à perda de identidade da coisa, seja como observador, seja como vítima. Portanto, a análise se centra no conto “Os mortos” com a intenção de encontrar a epifania da perda de identidade, como os personagens reagem a esse acontecimento e de que modo o processo da transformação em substância “geral” se sucede.

Cabe informar que a metafísica de Aristóteles só se usa aqui para entender a noção de substância em um sentido geral e aplicá-la em “Os mortos”. O uso desse conceito não tem pretensão de proceder com a metafísica propriamente dita, mas de considerar a epifania como processo existencial que culmina na substância em sentido geral. Isto é, aquilo que Aristóteles toma como escopo e foco da sua ciência buscada – definições articuladas, depois, por Jonathan Barnes (2009) – é considerado neste texto como ameaça à identidade do ser.

Então, para organizar a análise, o artigo se divide em cinco seções. Na segunda seção, introduzem-se os conceitos de ser enquanto ser, do escopo e do foco da metafísica de Aristóteles, amparados por comentadores à Metafísica (2013). Adiante, a terceira seção mostra como James Joyce cunhou a epifania literária e alguns desdobramentos teóricos sobre ela. Na quarta seção, analise-se, primeiramente, a noção de epifania que será observada no conto; depois, o próprio “Os mortos” (JOYCE, 2013). A quinta seção retoma a análise feita.

 

1 O SER ENQUANTO SER

 

            No livro A da Metafísica, Aristóteles elenca qualitativamente os tipos de conhecimento; no topo da hierarquia, está a ciência, a saber, o estudo das causas universais das coisas que tem como única finalidade a evolução das faculdades intelectivas (2013). Entre as ciências, há outra valorização: é mais fundamental e valiosa a que estuda as causas primeiras de tudo, do ser enquanto ser, em oposição às ciências “particulares”, que se detêm a causas de alguma espécie do ser, um gênero seu dentre outros (ARISTÓTELES, 2013).

Então, se a metafísica – ora também denominada filosofia primeira – é a ciência sobre as causas maximamente universais do ser, passa-se a perguntar o que vem a ser propriamente o objeto dessa ciência. De fato, conforme pontua Jonathan Barnes (2009), o escopo de estudo “ser” é complexo, já que seria difícil estudar tudo em uma ciência, porque tudo é diferente; no entanto, o foco dessa ciência “enquanto ser” possibilita que haja tal investigação das causas: o que “une” tudo é o significado focal do ser, a saber, a existência como substância.

Dessa forma, podem-se estudar as causas do ser enquanto ser, e a única forma para tanto é observar a substância, porque, aponta Barnes (2009), ela tem uma relação mais íntima com o fato de ser do que a que os acidentes têm. Note-se: há uma relação de dependência entre substância e acidente. Ross (1986) afirma que isso se dá assim: enquanto as substâncias são suporte à existência dos acidentes, os acidentes só podem ser, ser definidos e ser conhecidos se alguma substância for anterior a eles. O acidente é subsidiado pela substância.

A substância é algum item da realidade, é a parte do ser em que as determinações e definições essenciais do ser seriam encontradas. Pode-se pensar que a substância é alguma coisa que existe. Ora, o que não é substância depende dela e é simplesmente um atributo – em outro termo, um acidente, no sentido comum da palavra – adicionado à substância. O “tudo” ou o “ser” é constituído por substâncias e acidentes, mas tudo se refere à substância. As definições desses conceitos mostram que tudo tem relação direta com a substância.

Sendo assim, para um conhecimento adequado sobre o ser e suas causas, deve-se atentar à substância, fato exposto no livro Γ, da Metafísica (2013). Mas, consoante Ross (1986), Aristóteles considera que a substância é também convencionada como forma: parte que torna o ser o que é e não outra coisa. Por conseguinte, Ross (1986) explica que estudar a forma – essência – é estudar ou a causa final ou a motriz, porque ou o objeto é de tal modo que satisfaça seu fim, ou só é o que é em razão de ter sido projetado de uma maneira ou outra.

Até então sabe-se que a substância é o sentido primeiro do ser, e observá-la como essência tem função de perceber suas causas. Para encontrar a origem causal do ser, de tudo, a metafísica não se detém a uma ou outra substância ou coisa de uma espécie ou definição “x”, mas estuda a substância independentemente da sua espécie, isto é, o ser em sentido primeiro, sem uma identidade que o especifique. O objeto da metafísica é a substância em sentido geral e inespecífico. Esta análise propõe que esse sentido de ser está em “Os mortos”.

 

2 A EPIFANIA

            Vale, neste momento, então, verificar do que se trata a epifania. James Joyce tem um objetivo literário central de que se vale, a comunicação da epifania. Originariamente, o termo epifania designaria uma revelação espiritual religiosa, advinda possivelmente da consciência do contato com o divino que provoca êxtase catártico. Porém, em Joyce, uma revelação como essa perde sua raiz religiosa, ainda que dela surja a inspiração para a recriação de um tipo de epifania literariamente original. É válido, pois, que se investigue os detalhes dessa recriação.

Em Stephen Herói (2012), Joyce pensa que a epifania deve ter um objeto do mundo pelo qual ela venha a ser: algo deve provocá-la. Joyce conclui que tal revelação espiritual repentina é provocada por uma situação ou um objeto tão absolutamente cotidiano e saturado pela repetição do dia-a-dia que é desimportante e que se torna contrariamente único e destacado do todo, através de um processo específico naquele que presencia ou sente essa inversão epifânica. No caso de James Joyce, é seu dever literário descrever esse processo.

No entanto, Joyce (2012) considera que a epifania é reconhecer que a coisa é coisa, isto é, não que é uma coisa ou outra, mas que é algo, simplesmente. O processo epifânico leva a coisa, tendo identidade, à coisa enquanto coisa, tendo apenas “coisidade”, sem identidade, sem ser uma coisa ou outra. “A mente reconhece que o objeto é, no sentido estrito do termo, uma coisa, uma entidade definitivamente constituída.” (JOYCE, 2012, p. 172, itálico do autor). Nesse caso, a coisa é de fato uma coisa, mas não se pode dizer qual coisa é.

A epifania é a percepção da coisa. Em termos aristotélicos, da substância em um sentido não específico, mas geral. No entanto, o observador se afeta com a perda de identidade do objeto observado – em outras palavras, há um transtorno espiritual no sujeito que vê algo diariamente invisível tornar-se “especial”. A epifania é um susto existencial e, portanto, ocorre involuntariamente. Em suma, a epifania joyciana é causada pela observação de um ganho de unicidade com o todo indefinido, de valor universal da coisa – por ser coisa.

Porém, Millot (1992) afirma que Joyce assume o trabalho de retratar esse processo. Para ele, é dever daquele que presenciou uma epifania registrá-la; e, no modo de fazê-lo, consiste o problema. É problemático traduzir o normal fazendo inferir uma exasperação da normalidade, porque descrever a situação cotidiana não diz aparentemente essa exasperação, conforme Millot (1992). Diante disso, para a autora (1992), Joyce enfrenta a questão com uma linguagem “purificada”, que deve ser vazia, e esse vácuo linguístico deve significar.

Explica-se: segundo Millot (1992), a linguagem para descrever uma epifania deve sofrer um esvaziamento do significado comum das palavras usadas para denotar o normal, e um outro sentido deve ser adicionado a ela, motivado pelo esvaziamento, que acaba por ser significativo – se é vazio, não é normal, nem familiar, então é do exterior, lugar de que vem a epifania – de forma que não só a situação seja transmitida, mas também seu valor epifânico, já genericamente explicitado. Entre as formas de epifania, a explicada aqui é a da coisidade.

Ora, para melhor verificar a epifania, este trabalho se atém ao conto, de Joyce, “Os mortos” (2013). O conto trata, como esperado da descrição da epifania, de uma situação superficialmente normal: Gabriel e sua esposa, amigos das tias Kate e Julia, festejam o natal na casa delas, ambiente de canto e fartura. Sucede-se dessa celebração o descanso particular de Gabriel e sua esposa, em um hotel. Contudo, a visão pormenorizada dessa normalidade em “Os mortos” revela a abstração da coisa de seu todo que dá identidade, ou o ser enquanto ser.

 

3 A SENSIBILIDADE METAFÍSICA

            Adiante, considerando que estão expostos alguns itens úteis para o entendimento da epifania em “Os mortos” – em que a epifania vem a ser letal –, vale notar que Joyce e Aristóteles não se aproximam quanto ao modo de considerar seu objeto – o primeiro, literário; o segundo, científico –, mas concordam quanto ao próprio objeto, que foi primeiro descrito na Metafísica. O autor grego afirma que há uma ciência do ser enquanto ser, portanto que é possível considerar o ser à medida que se refere ao sentido primeiro de ser: substância.

Ora, aqui se faz importante a distinção do objeto que varia conforme a abrangência temática da ciência: as ciências particulares não investigam o ser enquanto ser, mas o ser enquanto, por exemplo, planta, ou medível. Infere-se disso que as ciências particulares que Aristóteles destaca serem diversas da primeira buscam um aspecto da identidade das coisas que estudam. Parece, assim, que o objeto tem identidade mais destacada quanto mais específico é o foco para observá-lo, porque são estudados aspectos particulares, não de tudo.

Mas a ciência primeira tem um foco ignorante de qualquer especificidade do objeto; por conseguinte, a metafísica não considera algum indício de identidade do objeto, mas aquilo que é comum a todos eles – portanto, aquilo que não mostra identidade do objeto –: a substância em sentido geral. Esse é precisamente o desafio da metafísica: encontrar aquilo da coisa que não lhe garante a identidade, mas o que permite unir tudo, para um estudo, sob um foco generalíssimo, a saber, o ser como substância, pois ele não indica a identidade de algo.

Desse modo, evidencia-se que o objeto da metafísica precisa da ausência de identidade. No entanto, para Aristóteles (2013), o ser, essa classe mais abrangente estudada pela metafísica, engloba as especificidades das coisas, por ser tudo, ou seja, o ser assume o uno. É verdade que isso parece contradizer a referida ignorância sobre a identidade, já que o ser prevê o uno, ou o específico, mas esclarece-se que o foco da metafísica prevê o uno só enquanto tudo que é específico se refere à substância. Nesse ponto, não há identidade.

Desse modo, o artigo retoma que a Metafísica observa o ser por ser substância – o “lugar propício” para a identidade que depois define a especificidade –, sem se preocupar com que especificidade possa ser subsidiada por essa substância; e o acidente, também em um sentido geral, não sendo um acidente ou outro, mas na medida em que é “acolhido” pelo modo primeiro de ser. Ora, a epifania de Joyce com precisão tem esse mesmo sentido de ser aristotélico como objeto, adicionando a esse processo a afetação catártica do observador.

Joyce torna literário o ser enquanto é coisa; o uno, que, pertencendo ao todo indefinido, não se associa com mundo definido ou adquire assim uma identidade em razão de sua interação, finalidade, etc. Joyce, contudo, torna a coisa literária através de um processo, a partir do qual ele retorna ao seu estado mais primeiro, o “enquanto ser”. Conseguintemente, se o processo epifânico faz haver somente o sentido mais geral de ser, então ele “mata” a identidade. Assim, não é verdade mais dizer “isto é”: não há mais “isto”. Agora, “só é ser”.

Para Aristóteles, a falta de indentidade foi útil para a metafísica; para Joyce, o processo epifânico eleva o espírito ou o sentimento do observador a nível de tentar a preservação da identidade, quando o sentimento, responsável pela identidade, intensifica-se[1]. Logo, nesse sentido, a o processo epifânico é uma ameaça à identidade; à vida, pois não haver caráter próprio, ou apenas ser substância não é fazer parte do mundo, mas estar em um binarismo direto com a inexistência. Por essa razão, diz-se que perder a identidade é morrer.

Por fim, a identidade, a relevância no mundo e a consciência constituem o ser como uma coisa ou outra. Mas o movimento da identidade até a irrelevância, ao uno sem identidade, generalizado, de que a defesa desesperada do espírito se segue, torna o termo epifania significativo, para Joyce. Ademais, segundo o autor, é dever do literato verter esse processo em texto, por uma linguagem, conforme Millot (2003), que deixe acessível a epifania através do cotidiano descrito, conforme em “Os mortos”, retrato da inespecificidade.

 

3.1 A PROTEÇÃO INSUFICIENTE

A fim de bem se entender a epifania de “Os mortos”, é necessário lembrar que o efeito psíquico da epifania é oriundo de uma potencialização da realidade normal através da percepção da unicidade da coisa – ou, da coisidade da coisa –, mas unicidade genérica, que significa destacar o ser do seu meio – a coisa se torna una e indefinida, fora do mundo. É consequente que esse processo faz o objeto perder contexto, finalidade específica, em suma, identidade. Portanto, a epifania é a percepção subjetiva do decaimento identitário da coisa

Ainda no campo perceptual e psíquico, torna-se evidente por que a percepção da unicidade da coisa causa uma elevação espiritual. Para explicá-lo, o trabalho aceita que a identidade seja uma disposição sentimental particular, no caso da consciência do sujeito que sofre a epifania. Assim, considerando que reconhecer o ser enquanto ser é assustar-se com o apagamento da identidade, então o nível psíquico do sujeito presenciador é condenado a não deixar perder sua identidade; por essa razão, o espírito se eleva como defesa a essa ameaça.

Desse modo, está dito por que este trabalho dá enfoque ao aspecto da elevação espiritual da epifania: o absurdo do apagamento da identidade revela-se ao espírito, que eleva sua identidade, o sentimento, resguardando-se da contaminação dessa unicidade, de perder seu contexto, sua finalidade, seu conhecimento. É por esse motivo que o momento epifânico é caracterizado por uma sensibilidade sentimental extrema: o espírito projeta-se do normal, resistindo ao caminho da unicidade da coisa. Porém, não é regra que o espírito resiste a isso.

Veja-se, a partir-se dessas considerações, como se sucede a epifania no conto “Os mortos” (2013). Nesse conto, a epifania se dá a partir do momento em que Gabriel “percebe” inesperadamente a existência de sua esposa. Segue-se disso que todos os acontecimentos posteriores são envolvidos por uma sensibilidade existencial extrema. Primeiramente, o espírito de Gabriel se eleva a desejo e prazer imensos sobre sua esposa; ao final, todavia, a unicidade infecta Gabriel, que se deixa absorver profunda melancolia da neve do exterior.

Logo, denota-se isto: a movimentação do fio narrativo que aborda acontecimentos protagonizados por muitos sujeitos, sem a continuidade de um ponto de vista determinado – a celebração de natal –, ao plano narrativo guiado pelo interior psíquico de Gabriel significa que, no conto, passa-se a dar atenção à afetação de um espírito individual, que sofre o efeito da epifania. Tal transição ocorre subitamente e sem justificativa; é uma técnica que substitui um foco narrativo esparso para um específico: trata-se da purificação linguística de Joyce.

O momento da transição para a epifania se dá quando Gabriel “[…] ficou imóvel nas trevas do átrio, tentando pegar a ária que a voz cantava e olhando para sua mulher no alto.” (JOYCE, 2013, p. 43). Em sequência, o autor faz a transição do comunitário para o subjetivo de Gabriel dando muitos detalhes de seus sentimentos. Ora, dar detalhes é reconhecer o valor da realidade, que, em um contexto epifânico, pode ser defesa da identidade. Somente a presença do detalhe, porém, não seria índice desse contra-ataque, porque está no conto todo.

Assim, o que indica o momento epifanizado é a vista de extremo realismo que Gabriel tem sobre sua esposa, que – ele diz – seria capaz de pintar naquele momento. E pintar ou é apropriar-se da realidade pela subjetividade ou é alinhar-se a ela. Em suma, é voltar-se para a realidade, para a identidade. Mas o intenso e repentino desejo pela mulher não tem relação causal necessária com algo anterior. Isso mostra a quebra da normalidade, sem isso ser claro indício para a epifania, mas um fraco indicador de que Gabriel foi submetido a esse processo.

O indicador consiste em que, no parágrafo anterior ao supracitado, destaca-se a dificuldade de Gabriel em ouvir uma música que entorpecia a consciência de sua esposa: algo quase inexistente como aquele som dominava seu objeto mais querido. Logo, parece que isso introduz a falta de realidade que invadia sua esposa, Gretta, que motiva a preocupação de Gabriel com a identidade dela e com a sua. Ora, se a realidade passa a se esvair em Gretta, então o faz a identidade. Para resgatá-la, o espírito de Gabriel deseja intensamente a esposa.

É plausível que o ambiente em que Gabriel esteve durante a noite já inaugurasse um apagamento da identidade, porque a multidão na ceia ameaçava aderi-lo para si, tornando-o uno com o todo. Por isso, Gabriel sentia que “[…] seria agradável sair sozinho para uma caminhada […]. Como seria mais agradável estar lá que à mesa da ceia!” (JOYCE, 2013, p. 24). A multidão da ceia o obrigava a interagir com o todo perigosamente. Portanto, a multidão motiva a defesa espiritual, posteriormente encontrada na contemplação de Gretta.

Desse modo, a ameaça ao espírito que a ceia provoca corrobora o momento epifânico, em que Gabriel percebe a perda gradual de identidade de Gretta, que é entorpecida pela música vaga. Anteriormente, Gabriel havia escrito em um jornal: “Sentimos estar ouvindo uma música assolada por ideias.” (JOYCE, 2013, p. 25, itálico do autor). As ideias que Gretta ouve se sobrepuseram às suas próprias; a música a absorve, e ela passa a ser una com a música, a pensar como ela. Logo, a unidade que Gabriel vê ameaça matar a identidade dela.

Começa assim o processo epifânico do objeto Gretta, e o efeito defensivo em Gabriel é subsequente. Depois disso, a epifanização recebe um sinal que parece ser uma primeira evidência para a perda de identidade de Gretta. No momento de despedidas, todos se cumprimentam, mas alguém diz à moça que não a tinha visto durante a festa inteira. O fato de ser invisível demonstra a fragilidade da existência de Gretta, que já expressa a ausência. Ausentar-se é deixar de estar presente. Percebendo-o, Gabriel busca defender sua amada.

Como já foi dito, a defesa contra o decaimento identitário se dá pela elevação do espírito que busca “colorir” desesperadamente o que está se tornando “cinza”. Para tanto, Gabriel é invadido por uma felicidade extrema, toda direcionada a Gretta. O marido se empolga inesperadamente com a existência da esposa, porque quer protegê-la: “Ela lhe parecia tão frágil que ele ardia por defendê-la contra algo […].” (JOYCE, 2013, p. 47). Nesse momento, declara-se uma disputa entre a elevação espiritual e o decaimento da identidade.

Contudo, Gretta resiste ao ânimo excessivo de Gabriel, isto é, a perda de identidade continua a atacando, afinal, um homem que trabalhava numa fornalha, na rua, não responde à pergunta inesperada que a mulher faz. Quando diz “Está quente o fogo, senhor?” (JOYCE, 2013, 47), o silêncio prevalece, como se ninguém tivesse falado. A indiferenciação – no sentido de não ser uma coisa ou outra, mas sim substância em sentido geral, impossível para o mundo – ataca Gretta. Diante disso, Gabriel busca resgatar a especificação do ser de Gretta.

Tentou-se deixar claro que Gretta é a principal vítima da perda de identidade e que Gabriel tenta proteger sua amada e a si dessa perda. Assim, Gabriel, num movimento de resgate da determinação de Gretta, evoca memórias de momentos de êxtase espiritual que o casal teve, para fazer esquecer da vida apagada. “Ele ardia por […] fazê-la esquecer os anos de sua existência conjunta apagada e lembrar somente seus momentos de êxtase.” (JOYCE, 2013, p. 47). Nesse momento, Gabriel é que presenciava tal êxtase, sem contaminar Gretta.

Desse modo, a elevação espiritual de Gabriel devia utilizar todos os recursos disponíveis para o resgate da identidade, inclusive intensificar ainda mais seu desejo por Gretta, na medida em que ela continuava deixando de ser “Gretta”, conforme se evidenciou. Depois de falhar, o espírito de Gabriel vê como possível recurso a atração física. Tocar a esposa é buscar a certeza de que ela ainda existe. Dito isso, o recurso físico do espírito é visto quando o casal sai de um fiacre, e Gretta se apoia no braço do esposo, provocando-lhe êxtase.

Chegando a um hotel, onde o casal descansaria depois da ceia, Gabriel sente algo exagerado. O toque no braço gera um desejo intenso de possuir materialmente a sua esposa, de modo que se ela se parecesse com um objeto, que está submetido ao poder do possuidor. A tentativa de posse serviria para ordenar que seu objeto voltasse à vida e também para proteger o objeto sob a sua guarda. Para guardar Gretta, ele “[…] teria sido capaz de abraçar-lhe o quadril […], pois seus braços tremiam de desejo de agarrá-la […].” (JOYCE, 2013, p. 49).

Isso ocorreu antes de chegarem ao quarto do hotel. Lá dentro, Gabriel tremia de ânsia para testar a existência de Gretta com suas próprias mãos. Atinge-se um êxtase extremo, resultado de uma observação que Gabriel faz sobre Gretta: ela estava com o rosto cansado, inexpressivo ou sério. Diz ela que estava “Cansada: só isso.” (JOYCE, 2013, p. 50). E isso impede Gabriel de agarrá-la, porque o cansaço, ou o desgaste da existência da esposa já a fragilizava demais para o toque com o desejo ardente. É como se o toque pudesse quebrá-la.

Nada que Gabriel faz salva Gretta, nem mesmo tamanho desejo que ele direciona a ela, tentando recuperar a cor da existência da mulher. Diante disso, o espírito do marido passa a misturar algumas emoções: “Ele agora tremia de irritação. Por que ela parecia tão alheada?” Assim, “[…] primeiro tinha que ver algum ardor nos olhos dela.” (JOYCE, 2013, p. 51), antes de tomá-la, acessá-la para proteger a ela e a si próprio de deixar de existir, porque cada vez mais o apagamento da identidade contamina a moça, já cansada, não ouvida nem vista.

Desse modo, Gabriel se vale de outra estratégia para tentar salvá-la – ou mesmo iludir-se do salvamento. O ardor que buscava enxergar nela é mais uma criação do que a percepção. Trata-se de salvar Gretta, não mais verificar sua “saúde”.  A primeiro momento, parece que a projeção do ardor a salvou, dado que ela o beijou repentinamente. Em outras palavras, a elevação de espírito de Gabriel tenta colorir a existência da esposa através da transmissão da felicidade. Sucede do beijo o ápice da felicidade para o salvamento definitivo.

“Bem quando ele estava desejando que ela o fizesse ela viera até ele por vontade própria.” (JOYCE, 2013, p. 51). Havendo essa brecha no apagamento da identidade – evidenciada pela ação sentimental, que remete à identidade –, Gabriel enxerga a oportunidade de salvar sua mulher e sua técnica é a felicidade extrema. No entanto, o deleite dura pouco, em razão da resposta que Gretta dá a uma outra pergunta, retomando o outro lado do sentimento epifânico. Toda a felicidade derroca, então, para a tristeza e a insegurança.

A pergunta é: “Gretta, querida, no que você está pensando?” (JOYCE, 2013, p. 52). Ela pensava naquela música que incialmente a tinha ameaçado. Note-se que isso é uma reincidência da ameaça, a partir da qual Gabriel tem certeza de que a identidade de Gretta já está comprometida: não há o que fazer. Daqui em diante, o sentimento de Gabriel toca a indiferença e estados de consternação. E a mulher não consegue abandonar esse pensamento, porque, junto com a memória das “ideias que substituíram as suas”, vem a do seu cantor.

 

3.2 O DESMAIO DA IDENTIDADE

            A partir desse ponto do conto, já se pode considerar que a identidade de Gretta já está condenada a deixar de existir. Dito de outra forma, sua existência está fadada a fundir-se com o todo, por alguma razão; e esse fato é discorrido com detalhes na seção 4.1. Gretta passa a ser substância em um sentido geral de ser, não uma ou outra substância, como era enquanto possuidora de uma identidade. O porquê de isso estar acontecendo é um mistério literário de Joyce. Mas interessa, nesta seção, qual efeito a “morte” de sua amada tem sobre Gabriel.

Se a primeira vítima da perda de identidade é Gretta, a segunda e consequente é seu marido. Isso acontece progressivamente, à medida que ela age de forma a deixar entendido que está “morrendo”. O processo começa quando a memória mencionada do cantor daquela música é de um menino que ela conhecia na infância; e começa porque o fato de Gretta dar atenção a outrem já chateava Gabriel, considerando que essa atenção resultava naquele roubo dos seus pensamentos, que eram tomados pela música cantada por ele: The lass of Aughrim.

Gretta pensava em Michael Furey, de modo que isso motivou Gabriel a perguntar a ela se já tinha sido apaixonada pelo sujeito em questão. Perguntou-o duas vezes, sem obter resposta objetiva, mas apenas mais detalhes sobre o menino. Entre esses detalhes, destaca-se que “Ele tinha uns olhos tão grandes, tão escuros! E que expressividade naqueles olhos – uma expressividade!” (JOYCE, 2013, p. 53). Expressar é revelar o que está dentro. Então, Furey era expressivo de tal forma que a existência de Gretta urgia por ele, não o fazendo a Gabriel.

É dito no conto que havia relação sentimental forte entre Furey e Gretta, o que provoca certo ciúme em Gabriel: enquanto aquele pôde colorir e manter colorida a existência da amada, esse não teve sucesso. Gabriel se enxerga fraco, e seus sentimentos parecem aproximar-se gradualmente da indiferença, da morte. Mas, além disso, a mulher conta que Furey agora está morto; apesar disso, ele simboliza uma ameaça para a relação dos dois igualmente, porque mata a identidade diretamente de um lado e consequentemente de outro.

Diretamente, tomando a atenção de Gretta, sendo morto, portanto aproximando-a da morte. Consequentemente, à medida que a amada de Gabriel não pode ser protegida por ele, e esse se sente fraco, resignado, contaminado pela iminência da inexistência, da perda de identidade. A memória dos mortos aproxima Gretta da morte, e a observação disso por parte de Gabriel o aproxima também, porque o significado da morte lembra-o da solidão, da irrelevância da coisidade da coisa, que é a substância sem características, indiferenciada.

Depois que Gabriel descobre que todo o ser de sua esposa, naquele quarto de hotel escuro, voltava-se para um morto, teve certeza de que Gretta era já absorvida pela morte, ainda que não haja indício objetivo no conto de que ela ou Gabriel morram. O ser da esposa se refere à indiferenciação; tanto a lembrança do que é morto quanto a saudade de um tempo inexistente. Mas n­inguém se torna defunto – o que ainda seria algo determinado, especificado –; porém, Gretta é contaminada pela morte, de forma que se torne um vetor nocivo dela.

Diz-se que a esposa, já avançada na indiferenciação, torna-se um vetor da perda de identidade. Essa posição é assumida porque “Enquanto ele [Gabriel] estava tomado de memórias de sua vida conjunta secreta, […] ela o estava o comparando mentalmente a um outro.” (JOYCE, 2013, p. 53). A nocividade está em que ela faz um morto, já inexistente e passado, equivaler a seu atual marido, vivo e esforçado por protegê-la; ela os coloca no mesmo patamar de identidade, que é o patamar falta de identidade, pois ela infecta o esposo.

Assim, a amada de Gabriel, cuja opinião vale muito para ele, faz que a identidade do seu esposo não valha mais do que a falta dela, que é a memória do que não existe, Michael Furey[2]. A identidade de Gabriel, então, é a próxima vítima, cuja “doença” terá como vetor sua esposa. Dessa forma, identifica-se uma cadeia de infecção da perda de identidade: “[…] a evocação dessa figura de entre os mortos […].” (JOYCE, 2013, p. 53) ocupa com a morte a identidade de Gretta – eliminando, indiferenciando –, que agora faz decair a de seu esposo.

Além disso, acontece não somente o decaimento da identidade de Gabriel, mas Gretta também a destrói com mais força, quando sente que a memória do morto vale mais do que seu esposo, que desejaria substituir Gabriel por Furey. Assim, o claro desnível – na perspectiva de Gretta – é percebido pelo marido, que tenta inexpressivamente se defender, fazendo uma pergunta irônica sobre Furey, tentando se recolocar num nível superior: “Ele era o quê?”. Mas a ironia é desfeita: “Trabalhava na usina de gás.” (JOYCE, 2013, p. 53).

Fica claro que Furey existia, como Gabriel, e pôde ajudar Gretta. Esse, impotente, percebe a fraqueza de sua ironia e se humilha, sente vergonha da sua atitude e de sua existência insuficiente para a amada. A vergonha, a consciência da impotência, faz o protagonista decair. Gabriel não pôde ser expressivo o suficiente para capturar a existência da esposa e ele finalmente o reconhece, com vergonha. Em uma disputa com um morto pela integridade da indentidade da esposa, Gabriel é derrotado em humilhação, seguida de terror.

Em sequência ao máximo êxtase do beijo, a humilhação abre o espírito de Gabriel para o outro lado do efeito epifânico: o terror, que vem antes da morte. O espírito do esposo admite derrota e sofre o terror da iminência da inexistência própria; definitivamente, isso ocorre quando Gretta diz que Furey morreu por ela. Disso, infere-se que a paixão entre os amantes do passado é muito mais forte que a dos do presente: Michael sofria de uma doença, e sua paixão ou era a doença, ou agravou-a, aliada a fatores externos. Logo, Gabriel é menos[3].

Portanto, “Um vago terror tomou Gabriel […], como se, bem no momento em que ele esperara triunfar, algum ser impalpável e vingativo se estivesse erguendo contra ele, reunindo forças contra ele em seu mundo vago.” (JOYCE, 2013, p. 54). Ora, o “mundo vago” é aquele sem detalhes, sem existência identificável. Para lá, irá Gabriel; quando o admite, “ele se libertou dessa sensação [do terror] com um esforço racional […].” (JOYCE, 2013, p. 54). A partir daí, morre um pedaço de Gabriel: mais nenhum sentimento resistente é narrado dele.

Dessa forma, tudo agora se refere à morte, tudo está sendo conduzido pelo nada, pela falta da identidade, e é uma questão de tempo até não haver mais coisa alguma. Diz-se isso porque a atenção de Gabriel também se volta ao morto, perguntando detalhes de Furey a Gretta. E o conto passa a descrever como se deu a morte do amante da adolescência. “Era inverno, ela disse […].” (JOYCE, 2013, p. 54). O inverno é frio, portanto faz tudo tender ao congelamento – a desmobilização do ser –, conceito que o trabalho aborda ao final do conto.

Então, Furey morreu em ambiente propício para morte – a solidificação irreversível da mobilidade do ser, ou da vida. E as três próximas e últimas perguntas de Gabriel a Gretta preparam uma frieza psicológica, como a frieza material do inverno em que Michael morreu. Friamente – i.e., perdendo o advérbio “ironicamente” de antes e qualquer advérbio que narre sua expressão –, ele pergunta detalhes da morte do sujeito. “Bom, mas e aí? – perguntou Gabriel.” (JOYCE, 2013, p. 55). E “[…] – perguntou Gabriel.” se repete nas três perguntas.

Sem advérbios ou adjetivos, o narrador deixa claro que Gabriel, absorvendo informação de morte, já não tem mais expressão. Tomado pelo vazio da perda de identidade, Gabriel agora busca saber impassível os detalhes da morte de Furey, visto que conhecer sua causa de morte é somente o que lhe resta. Ela, de outro lado, responde que o garoto doente tremia na chuva, diante do fato de que Gretta iria viajar para longe, separando-se dele, que estava preparado para morrer por isso. Terminando essa lembrança, a mulher se comove.

Finalmente, Gretta desaba em prantos, triste com toda a morte, que já habitava seu espírito. Esse choro, que surge na inexpressividade da moça, parece indicar um relance de consciência e lamento de Gretta em relação à morte. Ainda que estivesse tomada pelas lembranças de morte, ela reconheceu sua decadência existencial. Por fim, “Ela dormia pesado.” (JOYCE, 2013, p. 56). Em outras palavras, ela morria, enfim. Gabriel observava a esposa e o seu redor, tomado por indiferenciação e impassibilidade, já estando resignado.

Sua esposa morreu. Não há mais resquício de identidade em Gretta: ela é apagada da história e do conto, tornando-se algo de inespecífico, sem identidade. Pois, Gabriel já faz o mesmo: contempla o que agora lhe é alheio: o mundo à volta. O narrador destaca detalhes do ambiente em que o “viúvo” está, para evidenciar o contraste entre o estado de Gabriel e o das coisas do mundo. Dito de outra forma, o quarto do hotel recebe uma descrição enfaticamente realista, para demonstrar que a realidade já não pertence a Gabriel, agora quase sem detalhes.

Ele já é destacado do todo, tornando-se ser enquanto ser em um sentido primeiro e genérico da substância. Não possui mais detalhes; logo, observa resignado o detalhe excessivo da realidade. Gabriel presencia um quarto com muitos detalhes, notando o valor que a realidade tinha, então irrecuperável. “Os olhos dele foram para a cadeira em que ela jogara umas peças de roupa. O cordão de uma anágua pendia tocando o chão. Uma bota restava de pé, caído seu cano frouxo: seu par se estendia de lado.” (JOYCE, 2013, p. 56).

Está aí o legado da existência do casal ainda há pouco vivo: um par de botas caído e umas roupas. Mas isso ainda é mais ontologicamente relevante do que algo sem identidade. Nesse sentido, Gabriel reconhece que já pertence a outro mundo em relação ao seu quarto de hotel, e assim cogita com frieza a morte de sua tia, não podendo mais conter a propagação do impulso da morte, que tende a afetar a vida. “Sim, sim: isso [a morte das tias] aconteceria muito em breve.” (JOYCE, 2013, p. 57), assim como Gabriel morreria próximo à esposa.

De fato, ele o faz: “O ar do quarto gelava-lhe os ombros. Ele se esticou cuidadoso por sob os lençóis e deitou ao lado da esposa. Um por um eles todos estavam virando sombras.” (JOYCE, 2013, p. 57). As sombras não permitem perceber com precisão os detalhes do que faz a sombra, elas são mais ou menos iguais, o que as difere é o objeto que bloqueia sua luz. Pode-se dizer que uma sombra representa a falta de identidade, porque não tem diferença em relação a outras. A diferença do formato é a memória do objeto que sombreava; agora, morto.

Então, todas as sombras são iguais, exceto na parte que mostra um indício do que agora está morto. A sombra de tia Julia mostraria o nada, mas um nada que já foi Julia. Tornando-se sombra, a coisa deixa de ser própria, passa a ser uma escuridão, cujo formato é uma lembrança fria do que era vivo. Sendo assim, todos passavam a ser sombra, para Gabriel. Em outras palavras, deixavam de ser identidade – pensamento mórbido de morte. E, finalmente, o ar gelado do quarto dá um sentimento de resignação e indiferença a Gabriel.

Sem escolha, era “Melhor seguir corajosamente para aquele outro mundo, no apogeu da glória de alguma paixão, que desbotar e murchar lugubremente com a idade.” E a passagem para o outro mundo se dá porque “Sua própria identidade estava desbotando num mundo cinzento e impalpável: o próprio mundo sólido, que aqueles mortos um dia criaram, e em que viveram, dissolvia-se e minguava.” (JOYCE, 2013, p. 57). Encontra-se aí o “outro mundo”, aquele “[…] em que residem as vastas hostes dos mortos.” (JOYCE, 2013, p. 57).

Gabriel direciona-se ao mundo de “Os mortos”. Vira-se na cama e olha pela janela: neva e faz frio como no inverno de Furey. Observando a neve, lembrou-se de que os jornais disseram que a nevasca atingiria toda a Irlanda. Enfim, ele adquire uma sonolência ao contemplar a neve pela janela, que reduzia a temperatura de todas as partes – a mesma sonolência em que Gretta havia sucumbido um pouco antes. Portanto, a perda de identidade é finalmente representada pela neve. Por si, a neve é a morte da existência, como se explica.

A neve propriamente dita congela a vida que toca, inibe-a de expressão própria – por não haver movimento no congelamento, não há autonomia de ação. Isso ocorre porque a neve é solidez do elemento essencial para a vida, a água. Desse modo, a neve é a água sem o movimento da vida, é um gelo duro que se assemelha à inexistência, na medida em que o congelamento é tornar a coisa inane, imóvel e limitar a interação da coisa com o mundo. Em resumo, a neve representa a falta de movimento próprio, o que é a estaticidade da morte[4].

Na visão de Gabriel, a neve congela toda a Irlanda à sua volta, isto é, o narrador deixa de distinguir os dois mundos. Nesse momento, inclusive o mundo à volta de Gabriel está sendo neutralizado pela neve – pela perda de identidade –, porque o foco narrativo agora é estritamente subjetivo. É para Gabriel que o mundo todo se congela, porque ele finalmente morre; nessa mesma perspectiva, aquele “mundo sólido” “dissolveu-se” totalmente para ele. Deitado e olhando a neve, pela janela, da cama, Gabriel tem sua vida também congelada.

Finalmente, ele perde sua identidade, como Gretta, desta maneira. Antes de adormecer definitivamente, Gabriel ouve a neve caindo, em uma representação circular: “Desmaiava-lhe a alma lentamente enquanto ouvia no universo a neve leve que caía e que caía, leve neve, como o pouso de seu fim definitivo, sobre todos os vivos e os mortos.” (JOYCE, 2013, p. 58). Denota-se disso que a neve enfim congela todo o universo de Gabriel, tudo que é vivo ou morto para ele, fazendo sua identidade desmaiar. Gabriel passa à substância em sentido geral.

Vale notar, ainda, por que o autor faz uso da circularidade em “neve leve que caía e que caía, leve neve”. Ora, considerando que o ambiente ao redor de Gabriel, nesse momento, é percebido subjetivamente por ele, a circularidade da neve diz que tudo se refere à morte, não há linha reta para fora da perda de identidade, mas há apenas uma substância em sentido indefinido que não se direciona para um lado ou outro. Aquilo sem identidade é circunscrito a si, graças à fatalidade da morte, no conto “Os mortos”, que nunca pode ser revertida em vida.

Talvez, essa tenha sido a pior morte possível para Gabriel e Gretta, já que foram abstraídos do mundo da especificidade, ainda que tenha sido uma morte “leve”, como se a perda de identidade recaísse sobre o casal sem peso aparente. Aliás, a leveza da neve, ou da morte da identidade, é factual porque os dois não perceberam objetivamente a morte vindo antes de tornarem-se vítimas da perda identitária. A morte foi circular e leve, porque, depois de mortos, não restam o peso do corpo e da memória, já que tudo deles perdeu a identidade.

 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Finalmente, este trabalho retoma que a análise buscou verificar quais são os desdobramentos da epifania no conto “Os mortos”, de James Joyce, e principalmente de qual modo os personagens interagem com a perda de identidade progressiva, que por fim resulta na morte completa. Esse resultado só pôde ser atingido através dos referenciais teóricos utilizados, que permitiram compreender que a perda de identidade se dá quando a coisa assume um sentido absolutamente geral de existência, o mesmo que ser algo não definido.

Além dessa reflexão possibilitada pela metafísica de Aristóteles, a análise observa também a reação do espírito dos personagens à perda de identidade, concluindo que a elevação espiritual é uma forma de tentar resgatar aquilo que está perdendo a identidade, isto é, o espírito se eleva para recobrar a identidade do objeto que sofreu a epifanização. Portanto, a análise de “Os mortos” propõe que, na epifania desse conto, o objeto epifanizado se torna substância sem identidade, e o observador não pode salvá-lo ao elevar seu espírito em defesa.

 

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução Marcelo Perine. 3. ed.  São Paulo: Edições Loyola, 2013.

BARNES, J. Metafísica. In: ______ (Org.). Aristóteles. São Paulo: Ideias e Letras, 2009. p. 103-153.

JOYCE, J. Os mortos. Tradução Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

______. Stephen herói. Tradução José Roberto O’Shea. São Paulo: Hedra, 2012.

MILLOT, C. Epifanias. Tradução Claudia Moraes Rego. Letra Freudiana, Rio de Janeiro, v. 12, n. 13, 1992. p. 144-150.

ROSS, D. Metafísica. In: Aristóteles. Tradução Luiz Felipe Ferreira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987.

*Acadêmico do curso de Letras-Língua Portuguesa e Literaturas da Universidade Federal de Santa Catarina, em Brasil, Florianópolis, e bolsista do Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística (NuPILL). Imeio: angelmangini@gmail.com.

[1] Assume-se que a disposição dos sentimentos em uma pessoa é particular a cada uma, isto é, os sentimentos de alguém, que são de uma forma ou de outra, também definem sua identidade.

[2] Além disso, note-se que Gabriel não tem sobrenome, mas Michael Furey o tem, de modo que o segundo fornece mais conteúdo de existência. Mais conteúdo especifica quem é Furey, enquanto “Gabriel” não especifica muito.

[3] Em uma outra anáise, seria possível considerar que Gretta seja a própria morte – no sentido da falta de identidade –, já que teve duas vítimas; em outras palavras, Furey morreu por ela, e Gabriel ainda morre. Note-se que o ato de comparar Gabriel a Furey aproxima seu atual marido à morte. Nessa interpretação, Gretta sofreria o processo da perda de identidade porque é a própria falta de identidade, e seu esposo a sofre empaticamente. No entanto, para esta análise, parace que a causa primeira da morte é Michael Furey, e Gretta acaba sendo influenciada pela ação do morto, transmitindo a morte também para Gabriel.

[4] Ainda, pense-se na neve como a morte pela relação que o frio da nevasca tem com o frio de um cadáver, que já é incapaz de produzir calor próprio.