Sobre o Teatro de Antônio José, o Judeu – Aurora Bernardini
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Florianópolis, 21 de novembro de 2011.

Sobre o Teatro de Antônio José, o Judeu

                                                                     Por Aurora Bernardini*

Paulo Roberto Pereira , TEATRO DE ANTÔNIO JOSÉ, O JUDEU –
Vida de D. Quixote, Vida de Esopo, Anfitrião e Guerras do Alecrim

Muito bem diz Machado de Assis, na epígrafe  ao alentado estudo  que Paulo Roberto Pereira faz da época e dessas quatro peças, escolhidas como as mais representativas do teatro de Antônio José, O Judeu :

 “ As óperas de Antônio José trazem o sabor de uma mocidade imperturbavelmente feliz, a facécia grossa e petulante, tal como lha pedia o paladar das platéias, nenhum vislumbre do episódio trágico… a verdade é que os sucessos da vida dele não influíram, não diminuíram a força narrativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe da hipocondria.”
De fato, Antônio José da Silva, nascido em 1705, no Brasil, de pais judeus-novos portugueses, viveu  durante o reinado de D. João V ( 1707-1750) no começo do Iluminismo “feito , entre as duas margens do Atlântico, de aventuras e de desenfreada busca de riquezas, mas também de intolerância religiosa e racial”. Pois foi justamente a mais intolerante perseguição que a Inquisição portuguesa moveu contra os descendentes dos judeus, desde a implantação pelo rei D. João III, em 1536, do Tribunal do Santo Ofício que o levou, com a família, ( de ricos senhores de engenho do Rio de Janeiro) de volta a Portugal e , depois de um primeiro “perdão” que parecia ser duradouro e que lhe permitiu uma juventude ativa e razoavelmente feliz,  a ter morte violenta e repentina quando atingia a  idade de 34 anos.

Não é de se estranhar que sua vida, desde o séculoXIX , tenha sido objeto de estudos e desvendamentos surpreendentes ( apontados com mestria  por Paulo Roberto Pereira), incluindo-se , em 1982, o famoso romance de José Saramago Memorial do Convento, em que os protagonistas do romance, os pícaros Baltasar e Blimunda têm seu último encontro no auto-de-fé de 18 de outubro de 1739, em que morreu o bacharel Antônio José da Silva.

 A sua obra, a dramaturgia de Antônio José (que por vários e óbvios motivos nunca assinou suas peças) é uma das mais ricas e importantes em língua portuguesa, destacando-se pela sua curiosa dupla originalidade – primeira: as peças, todas elas jóco-sérias, escritas em prosa e verso e musicadas  pelo compositor português Padre Antônio Teixeira (1707-1775)    foram as primeiras a incorporarem o canto em língua portuguesa  e , segunda: os protagonistas das suas oito óperas-comédias ( este é o espólio teatral do autor, chamado  O Teatro Cômico Português e editado em 1744) eram …bonecos a quem “ a alma do arame no corpo da cortiça  infunde verdadeiro espírito e novo alento” e  que tinham, entre outras funções , a de serem um “ disfarce amortecedor do emprego reiterado da sátira”.

A sufocação cultural em que se via imerso Portugal na primeira metade do século XVIII, submetido a modelos  de fora ( na corte, a ópera italiana ou o teatro espanhol do Siglo de Oro, na Universidade de Coimbra, o teatro jesuítico falado em latim) que lhe impediam qualquer renovação, tinha uma válvula de escape: o teatro popular, herdeiro de Gil Vicente, que sobrevivia nos “ pátios de comédia”, sendo seu público as classes populares e a  burguesia.

É nessa linhagem que se insere a obra de Antônio José. Parodiando o modelo espanhol, italiano, francês e as lendas gregas e as latinas,  numa perfeita camuflagem da Lisboa setecentista, absorve a herança do teatro popular, onde o cômico se insere na sátira política ( como no episódio da Ilha dos Lagartos , da qual Sancho Pança é governador na Vida do grande D. Quixote de la Mancha), ou  no chiste e na argúcia em situações absurdas criadas pelo “precioso” escravo Esopo ( Vida de Esopo), e o sério acompanha a metáfora do marido enganado (Anfitrião) e vai  parar no “ termo de segredo”  do que viu ou passou,  numa das fases da prisão, o preso que tem que assinar para ser libertado.
Já Guerras do alecrim e manjerona, apresentada pela primeira vez no carnaval de 1737, além de ser a obra-prima de Antônio José, ( “uma das melhores comédias do século XVIII “, diz M. de Assis em seu estudo “Antônio José” ) tem suas personagens e sua trama baseadas em costumes típicos da Lisboa joanina, embora os criados utilizem um latim macarrônico e um linguajar arrevesado para ridicularizar os preciosismos da época e não faltem brasileirismos  a eivar a linguagem, sempre viva, percuciente e enriquecedora, verdadeiro prazer não apenas para estudantes ou estudiosos, mas para qualquer leitor,  acompanhada  que está de notas interessantes do apresentador, que analisa e explica neologismos e arcaísmos, usos e costumes.
(Conferir a ópera Vida do grande D. Quixote de la Mancha na janela “Teatro na Praia”)

* Ensaísta, tradutora, escritora. Professora de Literatura na USP

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