Coisas do Brasil – encontros com Alicia G. Rossi – Clélia Mello

Coisas do Brasil encontros com Alicia G. Rossi.

 Clélia Mello

Antonio Abdalla e Alicia Rossi

Na última semana de 2017, fui com um amigo ao encontro de Antonio Carlos Abdalla em sua residência. Abdalla é museólogo, pesquisador, crítico e curador de arte.

Enquanto conversávamos, por vezes observava peças da coleção de arte moderna que nos rodeava. Em especial, as pinturas e gravuras que cobriam as paredes à minha frente. Duas pinturas se destacaram. Não as conhecia.

Eram de Alicia Garcia Rossi. Artista portenha radicada na capital paulista desde 1963 e que havia falecido há poucos meses aos 89 anos.

Impressionada com a força expressiva daquelas duas pinturas, conversamos sobre a plasticidade melancólica e o uso de elementos que produzem contrastes extremos com a forma e a luz.

Ao perceber o meu interesse crescente, mostrou outros trabalhos da artista. Pinturas e desenhos que fizeram parte da exposição ‘Bestiário em negro e alguns outros trabalhos’ (2009), curatoriada pelo próprio Abdalla.

Exposição “Bestiário em negro e alguns outros trabalhos” (2009), Alicia Rossi

O curador contou sobre o material incrível contido no espólio da artista para colecionadores e pesquisadores.

O fascínio e o impacto que senti e o quase completo desconhecimento que paira sobre a produção de Alicia Rossi, fizeram com que pedisse autorização para republicar textos referentes àquela exposição.

Escolhemos dois textos. Um em que o curador apresenta a artista e outro escrito por Washington Dellacqua (jornalista e critico cultural) a partir de seu encontro com Alicia Rossi. São esses que seguem abaixo.

 

Bestiário em negro e alguns outros trabalhos

 

Alicia Rossi

A obra de Alicia Garcia Rossi é, para mim, descoberta recente. Surpreende-me que uma artista com tal nível de realização permaneça no silêncio. Mas já vou me acostumando – se bem que a duras penas – e lembro Gregório de Matos: “Coisas do Brasil são!”

Formada pela Escola de Belas Artes de Buenos Aires, sua cidade natal, Alicia recebeu sólida cultura e educação artística, adquirindo técnica firme e clara, o que lhe assegurou liberdade de expressão e tema. Como artista de explícita profundidade, não faz obra fácil. Sua angústia existencial recria seres de aparência e psicologia atormentadas que de imediato – entre outras referências – nos fazem lembrar da obra de Goya, para ficarmos na arte espanhola. Um dos períodos particulares da obra deste mestre – para muitos, artista precursor da arte moderna – foi onde esta exposição buscou seu percurso curatorial. É clara a alusão ao tenebrismo (levado ao limite da pintura negra), uma das marcas da obra goyesca. Evidentemente, essa característica está presente em muitos outros exemplos da história da arte e, no caso espanhol, parece mesmo fazer eco a certas vozes interiores da alma e da sua cultura primeva. Colonizadores, os espanhóis deixaram a influência dessa alma particular nos países colonizados, como é o caso da Argentina.

 

Ouvi certa vez alguém dizer que aos italianos coube o gosto pela alegria de viver e que, assim, incorporaram o espírito da festa da Páscoa Cristã, que relembra de forma incisiva a vitória da vida. Em contrapartida, aos espanhóis coube o gosto pela tragédia e, com isso, as comemorações da Paixão de Cristo, referência à tristeza e ao efêmero das coisas humanas. Exageros e simplificações à parte, grosso modo, é oportuno lembrar que a tarantella italiana marca a cultura local tanto quanto a saeta espanhola e, deste lado do Atlântico, o tango argentino. É patente a própria rigidez dos cortesãos espanhóis que, na Época de Ouro daquela cultura, se vestiam de negro e mostravam semblantes seríssimos, cientes da dor humana. Alícia Garcia Rossi claramente foi beber dessa mesma fonte.

Os bestiários são obras relativamente habituais entre pintores, desenhistas, gravadores e escultores – estes, talvez, mais lembrados por seus trabalhos em igrejas do Românico e do Gótico, que provavelmente constituem o apogeu da arte fantástica e não realista. Mas, afinal, por que esse fascínio pelos bichos? Talvez por simples culto à natureza ou pelo interesse da mística que os bichos despertam nas religiões ou, ainda, pela simbologia e certos códigos quase secretos que  eles personificam em sociedades mais (ou menos) cultas. Neste bestiário criado por Alicia identificamos uma ou mais dessas hipóteses, ou todas a um só tempo. Seus bichos carregam um significado implícito, em meio a corpos humanos mutilados (ou desconstruídos, para me apropriar de termo tão caro aos contemporâneos). Constata-se sempre o uso da cor negra (luto) e, não raras vezes, surgem o vermelho e o laranja, numa alusão ao sangue dos sacrifícios propiciatórios de animais e homens, tantas vezes oferecidos nas mais diversas civilizações.

Alguns poucos desenhos e gravuras estão integrados à exposição como mostra do traço talentoso da artista.

Seja como for, esta verdadeira obra de exceção é prova da alta qualidade e da imaginação de Alicia Garcia Rossi, artista que merece o mais amplo e profundo reconhecimento e a admiração por obra tão importante.

“Mulher”, Alicia Rossi

https://www.youtube.com/watch?v=n3O8RJZREFM&feature=youtu.be 

Antonio Carlos Abdalla

Curador

Julho de 2009

 

Na arca de Alícia

 

Para escrever este texto estive com Alicia Rossi numa tarde de início de outono. Sentamo-nos diante de uma mesa iluminada por um único foco de luz em sua casa-ateliê. O dia estava claro. O intimismo do lugar favoreceu ficar absorvido pelo efeito da sombra no seu rosto e ler olhos, mãos e expressões. A voz pontuada e a gramática exata se sobressaíram no que tinha a me dizer a respeito dos rinocerontes, cavalos, cabras, javalis e tantos outros bichos que leva para as telas.

Compreendi pela forma franca da conversa que a artista evita a todo custo transmitir apelos literários para o entendimento das criaturas da fauna. Tudo é o que é. Sem aliterações, rebuscamentos verborrágicos e demagogias. Alicia é dotada de sinceridade artística e filosofia de existir que se aplicam na totalidade do trabalho plástico que executa.

Os animais retratados impõem-se dentro de tal procedimento ético. Nesta exposição, o rinoceronte que mira o espectador frontalmente poderia ser o símbolo mais contundente daquilo a que me refiro. A psicologia preponderante é do animal. Alicia se faz mediadora da cena e está longe de nos apresentar uma pintura realista. O viés é outro. Vem e perpetua-se pela força da própria natureza, aparentemente próximo de um expressionismo da alma das criaturas que habitam o mundo real.

Ao fundo daquela sala da conversa, quase fora do campo de visão, os seus desenhos de figuras humanas no preto e branco me fizeram distrair por momentos. Quase me condenei pelo descuido nada gentil. Pequenas distrações se sucederam ao fixar-me nos desenhos do carpete, nas paredes e em outros detalhes domésticos tomados de intervenções. Lembrei então (sob licença poética) daquele pequeno texto de Wang Tai-hai resgatado por Borges: “O macaco da tinta”. O escritor diz ”O bicho gosta de tinta nanquim, e, quando as pessoas escrevem, senta-se com uma mão sobre a outra e as pernas cruzadas esperando que terminem, e bebe o resto da tinta. Depois torna a acocorar-se e fica quieto”.

Não há macacos no bestiário desta exposição. Nem o uso de nanquim. Mas tenho a impressão de que os outros bichos poderosos da artista me pedem muita tinta para falar deles. Houvesse permissão… Vejo-me limitado. Queria ter a capacidade de alimentá-los. Pretensão. Eles são muito mais do que posso oferecer. Torno-me impotente. A arca de Alicia assim navega diante dos olhos. Seres exatamente como são. Reinantes e dignos. Sem explicações. Alicia me faz entendê-los. Faz tornar-me respeitoso para com eles.

Em vez de oferecer tradução, comentário crítico ou repertório erudito, busco aliar-me à arte de Alicia. Embarco então silencioso na arca por ela construída. Fluxo de cores fortes me encharcam aqui ou ali, reenquadrados dentro das pinturas. Rostos e corpos humanos colaboram para a quietude. No centro dessas pinturas, a ciência majoritária de cada bicho. O bestiário, como vem da tradição dos herbários e lapidários, instrui-me a explicar como o mundo funciona.

Saio da casa de Alicia no final da tarde, cruzo o caminho de um belo gato alheio e percebo que a arte me faz enxergar as coisas como uma antiga lenda árabe de Bahamut: “Por baixo dos pés do touro (Deus) criou um peixe chamado Bahamut, e por baixo do peixe pôs água, e por baixo da água pôs escuridão, e a ciência humana não vê além desse ponto”.

 

Washington Dellacqua

Jornalista, curador e escritor

 

 

Alícia Garcia Rossi

 

Seleção de exposições individuais:

 

1963 – Galeria Mirante das Artes, São Paulo;

1967 – Galeria Mirante das Artes, São Paulo;

1968 – Galeria KLM, São Paulo;

1972 – Galeria Astréia, São Paulo;

1973 – Galeria Itaú, São Paulo;

1974 – Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo;

1975 – Galeria Documenta, São Paulo;

1985 – Spazio Pirandello, São Paulo;

1989 – Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo;

1990 – Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo;

1991 – Fundação Cultural, Cuiabá/MT;

1992 – Galeria de Arte, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas/SP;

1994 – Estação Trianon-MASP do Metrô, São Paulo;

1995 – Galeria D, Centro Cultural, Campinas/SP;

2002 – Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro/RJ;

2003 – Instituto Tomie Ohtake, São Paulo;

2004 – Torcular, Milão/Itália;

2004 – Telemarket-Show Room, Roma/Itália;

2006 – Centro Cultural Borges, Buenos Aires/Argentina;

2009 – Lordello&Gobbi Escritório de Arte, São Paulo.

 

Seleção de exposições coletivas:

 

1951 – I Salão Oficial de Estudantes, Buenos Aires/Argentina (1º Prêmio);

1967 – XVI Salão Paulista de Arte Moderna, São Paulo;

1968 – XVII Salão Paulista de Arte Moderna, São Paulo;

1969 – I Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo;

1970 – II Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo;

1971 – III Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo;

1972 – IV Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo;

1973 – Imagens do Brasil, Bruxelas/Bélgica;

1974 – Bienal Nacional, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo;

1977 – Panorama da Arte Atual Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAMSP), São Paulo;

1978 – Salão dos Imigrantes, Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo;

1979 – Eros, Galeria Arte Aplicada, São Paulo;

1986 – Brasiliana e brasileiros, Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo;

1998 – Americamerica, Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo;

1999 – Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo.

 

 

 Pós-escrito sobre uma tela

 

É tudo uma questão de luz. Contrastes entre sombras e manchas que se assemelham a luz de um claustro. Uma luz que é forte e pura demais para a humanidade míope.

Inexiste elementos decorativos. Apenas um tremeluzir berrando sem um ponto fixo. Mas que se destaca e não pode ser enclausurado.

Entro nessa escuridão, nesse espaço, e de repente me acho na presença não de uma pintura, mas de uma tragédia real que acontece diante de meus olhos. Um drama apavorante, ordenado em uma confusão chocante.

Lugar em que não há nada que possa passar impune. Onde a ação das figuras miseráveis parece durar eternamente na luta divisória entre o pateticismo e as amarras.

Como num ato de reconhecimento, em uma sensação repentina, violenta, imprevisível, estranha e ao mesmo tempo reconhecível, tudo o que se pode fazer é gritar.  Sem qualquer vislumbre de consolo ou redenção.

Não há virtude, beleza nem graça. Só a visão desolada na escuridão inundada com trágico autoconhecimento.

Mais que ver, creio.

Pintura (1989), Alicia Rossi