Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo – Viga Espaço Cênico, em Pinheiros. De 04 a 26 de abril.

Alice Toklas e Gertrude Stein dividem o palco

Dirce Waltrick do Amarante*

Alice - peça

 

Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo reestreia em curta temporada este mês, em São Paulo. Assina a dramaturgia Marina Corazza, mas, na realidade, segundo ela, trata-se de um trabalho conjunto: “Cada uma de nós, eu, Malú Bazán (diretora) e Nicole Cordery (atriz) tínhamos diferentes perspectivas sobre todo esse material e o trabalho é fruto dessa tensão criativa entre nós três, e de nós três com essas duas mulheres”, Gertrude Stein e sua companheira Alice Toklas.

O texto é uma colagem, entre outros materiais, de frases de Stein, de cartas, escritas e recebidas por ela, e do livro A cozinha de Alice, em que Alice Toklas conta sua vida com a escritora, em Paris. Alice costumava dizer que ela mesma não poderia escrever sua autobiografia, pois ela já havia sido escrita por Gertrude Stein e publicada sob o título A autobiografia de Alice B. Toklas.

Essas questões biográficas são trazidas à tona no texto de Corazza, mas numa linguagem que se assemelha àquela de Gertrude Stein, altamente repetitiva e intrincada, misturando várias informações e pontos de vista. Entre essas informações, cita-se uma ou outra receita de Alice Toklas, considerada grande cozinheira.

Corazza não conta uma história de forma convencional. Sabe-se que, no teatro, Stein preferia peças estáticas, feitas de cenas para serem vistas como um quadro. Segundo opinava, o teatro fracassava porque queria colocar o romance no palco. Além disso, ela costumava dizer que, quando ia ao teatro, se punha sempre muito nervosa, porque tinha que lembrar e ansiar por algo, e ela não queria isso. Queria simplesmente estar lá, sem se preocupar em acompanhar um enredo. Corazza parece ter levado isso em consideração.

O texto de Corazza dá voltas e parece não sair do lugar, incorporando o presente contínuo, técnica que Stein utilizou para retratar a essência do que acontece. O presente contínuo criou, como se sabe, o conceito de “peça paisagem”, sem nenhuma ação, que está no centro da dramaturgia mais radical da autora norte-americana.

Muitas vezes, em Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo, a biografia de Toklas confunde-se com a de sua parceira: quem fez o que e quando? Talvez não se consiga mesmo separar essas duas figuras, centrais para a arte e a literatura modernas.

 

*Autora de Cenas do teatro moderno e contemporâneo (Iluminuras)